Brilha quem tem luz

Osias Wurman, como jornalista, honra a profissão – digo-o tranquilamente, apesar de divergirmos consideravelmente; mas, como Cônsul Honorário de Israel no Rio de Janeiro, é certamente ele, o profissional jornalista, quem honra o país que representa, e não o contrário. Risca toda a consideração por ele ir por águas abaixo devido, por exemplo, o recente artigo publicado em O GLOBO, sob o título “O Brilho de Israel”. Nele Wurman aponta que “Um abismo separa a qualidade de vida e a contribuição para o bem da Humanidade, produzidas pelos israelenses, quando comparadas com todos os países limítrofes”.

É verdade que o abismo existe, principalmente para os palestinos que há quase 70 anos lutam para ficar ou para voltar para as terras onde moravam ou, para alguns, onde continuam apesar dos pesares.

Divergimos quanto ao bem que Israel faz à humanidade. Não somos daqueles que aprovam a partilha feita pela Assembleia Geral das Nações Unidas entre árabes e judeus, o que já é um crime: dividir uma terra que não pertence ao divisor, dando uma parte menor aos seus moradores seculares e dar outra parte maior a pessoas que vieram de longe. Se ao menos a AGNU tivesse consultado os ocupantes das terras, ou proposto recompensa por aquilo que deles tirava, ainda haveria algum tipo de fingimento de mérito. O que aconteceu, porém, e talvez Wurman considere o fato “contribuição para o bem da Humanidade” é que os sionistas acabaram ocupando, além dos 55% que lhes tinha sido presenteado, grande parte das terras daqueles que tinham perto de 100% da área territorial. A quase totalidade que os palestinos tinham está hoje reduzida a menos de 22% de terras que por sua vez está militarmente ocupada e seus habitantes não têm dentro delas sequer liberdade de locomoção ou de uso.

Cada povo tem seus sonhos e ninguém tem o direito de realizar o seu próprio sonho à custa do sonho dos outros e é o caso dos palestinos. Realizar “um sonho de uma noite de verão” ou um sonho mais longo, até mesmo milenar, com base em mentiras forjadas, como é a Declaração Balfour que não passa, na realidade, de um governo dar a terceiros o que não lhe pertence; como foi também o Plano de Partilha da ONU para a Palestina (1947), documento feito às pressas e sob pressão, com base no qual a AGNU também, repitamos, presenteou um sonho atual e uma vida pacífica de um povo para que outros que “vieram do frio” dela tomassem posse. Isto é simplesmente um crime, uma safadeza.

Teodor Herzl não honrou a sua profissão de jornalista e, sabendo por relatos de gente sua, que a Palestina não era “uma terra sem povo para um povo sem terra” e sua lealdade para com o tal “sonho milenar” era tão frágil que também, entre outras possibilidades, indicou a Patagônia igualmente como possível terra a ser ocupada pelos sionistas, sem se dar ao trabalho de consultar os argentinos ou a Deus que falsamente ele dizia acreditar que havia presenteado a Palestina aos judeus. Isto me faz lembrar meu bisavô dizendo a um falso contador de casos: “Conta outra, Bachir”.

A Declaração da Independência do Estado de Israel foi indecorosa, tanto por não se saber de quem os sionistas se independiam, quanto a estabelecer um Estado em terra sobre a qual não tinham a necessária soberania. Criminoso também foi o ato, pois David Ben Gurion concomitantemente ordenou atacar os árabes palestinos onde quer que se encontrassem, em ambas as partes da partilha criminosa da Palestina. A força de baioneta prestou um serviço que Wurman talvez considere um belo serviço prestado à Humanidade.

Que não nos venham, mais uma vez bajulando o Brasil enaltecendo o papel de Oswaldo Aranha na “Partilha da Palestina”. Ainda há pessoas vivas que conhecem o assunto por dele terem participado e sabem que Aranha nada fez por convicção ou espírito de justiça ou por ordens do Governo brasileiro, e sim por instruções diretas do Departamento de Estado, dos Estados Unidos da América, a troco do apoio estadunidense futuro para que Aranha fosse o próximo presidente do Brasil.

Repugnamos todos os crimes nazistas contra os judeus e outros grupos vítimas do regime maldito de Adolf Hitler. Sem o regime nazista é duvidoso que os judeus bem situados nas sociedades europeias, ou mesmo das classes favorecidas ou perto dessas, deixassem sua vida bem estruturada na Europa e viessem para a Palestina. Eles até hoje não vieram e preferiram limpar a consciência doando dinheiro.

Sobre a saída de centenas de milhares de palestinos da Palestina, que Wurman não negue que conhece que o chamamento atribuído aos governantes árabes nunca existiu, está provado e ele sabe onde encontrar a comprovação. A escuta britânica das emissões de rádio o comprovam.

Convidamos Wurman a responder, e este é um desafio, o que aconteceu com a aldeia palestina de Tarbikha e de seus habitantes da família Farhat, um exemplo, isto sim daquilo que aconteceu com centenas de outras aldeias palestinas que transformariam o tal “chamamento dos governos árabes” se tivesse existido, em mera brincadeira infantil de “amarelinha”.

Há três famílias libanesas judias que nos contaram como foi a verdadeira saída deles do Líbano: eles simplesmente ficaram fascinados com as promessas dos emissários da Organização Sionista que vieram contar o que de bom os esperava em Israel, só que lá foram discriminados, saíram de lá, duas vieram para o Brasil e uma foi para os Estados Unidos. Não há dúvida que um regime como o de Saddam Hussein, por exemplo, tenha de fato perseguido os judeus, mas dizer que todos os judeus foram expulsos dos países árabes é meia verdade. Wurman pode ir visitar a Sinagoga de Beirute, recém-reformada, e lá encontrar judeus felizes por serem libaneses. A Sinagoga fica ao lado de uma Mesquita e de uma Igreja, sabia?

Israel sabe como alcançar a Paz com seus vizinhos, basta não torpedear as negociações no nascedouro.

Wurman sabe que o modernismo, a inovação, a tecnologia, às conquistas científicas de Israel e tudo o mais, é uma obrigação, tendo em vista que estão numa terra que nada lhes custou e recebem verbas e doações a fundo perdido que tudo isto permite e ainda sobra para comprar armamentos para ameaçar os seus vizinhos palestinos e os países limítrofes. Com terra abundante de graça e dinheiro farto dado até símios construiriam um país exemplar.

É desolador ouvir as dádivas e tecnologias que Israel distribui aos longínquos africanos e cabe perguntar por que não fazem o mesmo com os palestinos, a metros de distância, em vez de maltrata-los sem dó.

Em vez de contar os mortos israelenses, vamos fazer o mesmo com os palestinos e, também, contar seus mortos, seus banidos, seus filhos e netos que vivem há 70 anos à custa das Nações Unidas.

O brilho desta comparação mostrará quem tem e quem não tem luz para brilhar.

Jose Farhat

T20/05/2017

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“As forças armadas das Nações Unidas atacam Israel”

Mais ridículo e falacioso que o título deste comentário, de longe, é aquele do artigo de Giulio Meotti intitulado The UN declares War on Judeo-Christian Civilization (As Nações Unidas declaram Guerra contra a Civilização Judaico-Cristã).

Giulio Meotti é jornalista, com coluna permanente, no diário Il Foglio, de propriedade de Silvio Berlusconi, o que já não o recomenda muito, e seus artigos aparecem também com frequência no jornal israelense Yedioth Ahronoth, um jornal diário israelense de grande circulação, desde a década de 1970, dono da maior tiragem em Israel, o que não é difícil de acontecer para um sionista italiano que às vezes tem publicado alguns artigos no Wall Street Journal, enxertados por recomendações de investidores na Bolsa de Nova York. Meotti se diz expert em antissemitismo, Israel, Islã, multiculturalismo e Oriente Médio, o que seria possível, se seus artigos fossem racionais e não falseassem a verdade.

O artigo que comentamos aqui foi publicado recentemente, dias após a aprovação da Resolução 2334 das Nações Unidas criticando e demandando que Israel cumpra com a Lei Internacional e deixe de construir assentamentos permanentes em terra que não lhe pertence.

Comecemos por alguns pontos arrolados por Meotti para afirmar que “As Nações Unidas declararam guerra contra a civilização judaico-cristã” o que é uma tremenda falácia com intuito de pintar um quadro fantasioso sobre um fato de importância maior que a Resolução da Assembleia Geral de 1948, que os sionistas usaram para criar um Estado e continuam usando para justificar um crime contra os palestinos.

O articulista começa indagando como é que a jurisprudência Ocidental não evitou que não fossem mais cometidos crimes contra a humanidade e está sendo usada para perpetuar mais crimes contra a democracia. Ora, jurisprudência é aquilo que serve como modelo ou exemplo para agir e, já que estamos falando em Nações Unidas, ele deveria antes de cobrar do vagamente por ele intitulado “Ocidente” se Israel, que não cumpre Resoluções dos diversos órgãos da ONU desde a sua fundação, tem moral para cobrar ações a quem quer que seja.

Ainda a esta altura, quem cobra cumprimento de leis contra a humanidade jamais deveria violá-las e não há um chefe de governo israelense, desde quando organizaram o seu Estado, e até hoje, na era Netanyahu à frente, que não seja culpado de transgressão da Lei Internacional e estes deveriam ser encaminhados aos tribunais internacionais.

Mas, quando o colunista fala em democracia, ao escrever sobre o estado de Israel, ele deveria, no mínimo, lembrar que o sistema político israelense não está comprometido com igualdade democrática, com a distribuição equitativa de poder entre todos os seus cidadãos, ou seja, entre os árabes que consideram israelenses – cristãos e muçulmanos – e os judeus cujos avós nunca tinham pisado na Palestina e muitos deles achavam que a Palestina era uma terra sem povo, sem história e tradição. Depois, ocupar a terra dos outros e não cumprir as leis internacionais e falar de democracia e crimes contra a humanidade é simplesmente risível.

Os palestinos, os países que votaram por unanimidade contra o comportamento criminoso contínuo de Israel, ao usar a terra alheia em benefício próprio, inclusive os Estados Unidos, que pareciam não aguentar mais ficar apoiando as mazelas de Israel e se abstiveram de votar, não estão terrivelmente manipulando fatos reais para “apagar toda a história judaica cristã”, pois quem isto faz são os sionistas que cometem transgressões contra o povo palestino, dono da terra, e depois expõem atitudes velhacas ofensivas à inteligência judaico-cristã-islâmica, a começar por seu chefe de governo dizendo que não vai submeter-se à Resolução das Nações Unidas, como se algum dia o tivessem feito, desde quando impuseram sua existência ilegal ao planeta Terra, principalmente aos palestinos, muçulmanos ou cristãos.

Será que temos que lembrar a Meotti que ninguém no Islã considera o mundo “originalmente e eternamente islâmico” como ele afirma? O mundo, na realidade, também não foi jamais judeu ou cristão ou muçulmano e é exatamente a diversidade o que a humanidade sempre procurou, pois só ela é garantia da salvação, principalmente para quem como ele parece achar que ela vale somente para judeus e cristãos e não vale para os muçulmanos ou até mesmo para ateus e seguidores das centenas de religiões que este mundo tem.

A referência a “macacões laranja, decapitações e escravidão” usadas pelo jornalista são menções ao Estado Islâmico, que de estado e de islâmico nada tem; não passa de um ajuntamento de fanáticos à busca de poder e o Islã está longe desta organização, pois esta interpreta mal todos os fundamentos da religião do Corão. Para todo o mundo, sem exceção, a EI é uma organização criminosa, fundamentalista, que merece o mesmo castigo que merece Israel pelo uso que quer fazer da religião de Moisés, para praticar crimes capitulados nos Dez Mandamentos e usar um Acordo com Deus, que foi quebrado, como uma das bases da criação de um estado que peca pelo seu comportamento contra o povo palestino e não respeita nem mesmo os seus aliados.

O Estado Islâmico e o Estado que se quer Judaico, para quem pensa com isenção, têm o mesmo propósito e querem chegar a seus objetivos independentemente de considerações humanas, morais, legais e principalmente religiosas.

Não merece consideração a frase do articulista que diz “Se é possível apagar e reescrever a história, também é possível redirecionar o futuro”, por se prestar à exploração do lado cômico, se é que esta existe, quando o assunto em pauta é sério por tratar-se de crimes contra a humanidade cometidos por Israel e individualmente por seus governantes. O que vale para o Estado Judeu vale também para o Estado Islâmico.

É verdade – pelo menos uma verdade foi escrita pelo empregado do Berlusconi – quando cita a Relatora Especial de Direitos da Mulher das Nações Unidas, Dubravka Simonovic, quando destaca que “quando palestinos espancam suas esposas a culpa é de Israel”. Só que o jornalista não foi honesto e respeitador dos direitos de autor quando retirou uma frase de um contexto. Esta citação é meia frase de um relatório substancioso, usada para dizer que os palestinos espancam suas esposas como se só os palestinos o fizessem e os italianos e os sionistas não. Simonovic, poucas linhas após a citação acima, disse também em suas conclusões que o fator contribuinte para este fenômeno “é o contexto da prolongada ocupação” e disse mais, quando se referiu aos palestinos que vivem em Gaza, sublinhando que a primeira causa do tratamento dado pelos maridos às suas mulheres em território cercado “é devida à pressão constante causada pelo bloqueio”. É claro que nem Giulio Meotti e nem a imprensa israelense fizeram qualquer menção a estas frases que representam a conclusão do relatório de Dubravka Simonovic.

Meotti obviamente não leu o Relatório de Simonovic, como também não leu um artigo do Haaretz, de 27/02/2013, onde o jornal israelense publicou a manchete: Israel admits Ethiopian Women Were Given Birth Control Shots. (Israel admite [que] as mulheres etíopes receberam injeções para controle de natalidade.). As “mulheres etíopes” a que se refere o Haaretz são judias trazidas da Etiópia para Israel numa operação da qual os israelenses se orgulham.

Por trás do fato há a comprovação da discriminação racial em Israel, não somente contra árabes palestinos, mas também contra judeus que vieram dos países árabes. Note-se que se referem às “mulheres etíopes” algo que não dizem quando se trata de uma judia russa ou polonesa ou alemã; estas são judias sem menção do país de origem. Os etíopes que foram trazidos para a Palestina ilegalmente ocupada não ficam nas cidades israelenses, eles ficam confinados em aldeias escondidas para que os visitantes não notem e digam que há israelenses pretos. Que Meotti leia o artigo do Haaretz, reconheça a discriminação contra judias por serem pretas e não discrimine as mulheres judias, cristãs ou muçulmanas, brancas, negras ou amarelas, seja lá onde ele inclui as mulheres Árabes.

O “extermínio físico [de Israel]” não está no keffiyah que Peter Thomson, o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas usava na reunião da ONU e sim nos crimes que Israel vem cometendo ao longo de decênios e perdendo o apoio que chegou a ter muitos anos atrás. Thomson, com seus muitos anos de Nações Unidas, tem assistido, e participado, das inúmeras condenações de Israel e das centenas de Resoluções de todos os órgãos das Nações Unidas contra Israel que nenhuma cumpre. Ele, também como representante permanente de Fiji na organização internacional, não esquece nunca e tal qual a totalidade de seus conterrâneos, lembra os ataques assassinos do quartel das forças das Nações Unidas, em Cana, na Galileia libanesa, criminosamente atacado por terra, mar e ar pelos israelenses, matando soldados fijianos, crianças, mulheres e idosos libaneses e palestinos indefesos. Por tudo isto, Thomson usa o símbolo da resistência palestina como protesto e demonstração de apoio às vítimas dos sionistas.

O chamado Ocidente – incluindo também os Estados Unidos – está farto dos crimes de Israel e de sua desobediência às Resoluções das Nações Unidas e sinceramente não demonstram qualquer apoio, parceria ou comunhão com o estado sionista. A última Resolução do Conselho de Segurança é prova disto.

Como sempre, todos aqueles que pretendem defender Israel fracassam ao atribuir ao povo palestino e seus defensores a culpa por consequências de problemas criados pelo próprio estado israelense. É o caso, por exemplo, da Resolução 2334 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, qualificada por Meotti como “o ápice de um ano vertiginosamente proveitoso para os antissemitas”, uma entre aquelas que “em novembro passado, comissões da Assembleia da ONU adotaram, em um único dia, dez resoluções contra Israel, a única sociedade aberta do Oriente Médio”.

É claro que não merecem resposta as falácias que se repete de que Israel “é a única democracia no Oriente Médio” ou “a única sociedade aberta do Oriente Médio”. Se o referido estado fosse uma democracia e uma sociedade aberta não cometeria os crimes que fazem com que órgãos das Nações Unidas adotem a Resolução 2334 sobre a ilegalidade dos assentamentos e mais 10 Resoluções sobre vários outros assuntos.

Entre as Resoluções recentes tomadas contra o comportamento não democrático de Israel está aquela que o condena por reprimir cidadãos sírios nas Colinas de Julan, como se não bastasse o que faz com as crianças palestinas em território ilegalmente ocupado ou os pescadores libaneses em águas territoriais do Líbano.

Israel condena a ONU por Resoluções, como se os criminosos não fossem: o próprio Estado de Israel, que comete crimes diários contra palestinos, sírios e libaneses, em suas respectivas terras ou águas ocupadas, apesar da lei internacional sobre ocupação e tratamento a cidadãos em territórios ocupados como resultado de guerra, violando sem cessar os direitos humanos.

Uma forma pueril e desrespeitosa israelense de procurar justificar seus crimes é alegar que enquanto Israel é condenado por meio de Resoluções das Nações Unidas por crimes cometidos, outras nações não são julgadas e mencionam nomes de países que se assemelham ao estado judeu em seu tratamento contra seus próprios povos ou vizinhos.

Meotti não receberia pelo artigo que escrevinhou caso mencionasse os efeitos do BDA (Boicote, Desinvestimento e Sanções), mas como a simples menção do Movimento já é uma propaganda, ele desviou e afirmou para atacar: “de acordo com os mentirosos das Nações Unidas, o país mais perverso do mundo é Israel. O Alto Comissário de Direitos Humanos, Zeid Ra’ad, do Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU, e o príncipe Zeid al Hussein da Jordânia já estão patrocinando uma ‘lista negra’ de empresas internacionais que têm laços com empresas israelenses na Judeia, Samaria, Jerusalém Oriental e nas Colinas de Golã para facilitar o boicote a Israel, na esperança evidente de exterminar economicamente a única democracia e nação pluralista da região: o estado judeu”.

Talvez ele não saiba, mas chegou tarde, pois até mesmo Benyamin Netanyahu vem se queixando e choramingando devido aos efeitos do BDS e muitas firmas internacionais estão, de fato, desistindo de investir em Israel.

Com muita raiva, ou fingimento para agradar o patrão, Meotti não deixou de atacar o Fundo das Nações Unidas para a Infância ao afirmar: A Representante Especial das Nações Unidas para Crianças e Conflitos Armados Leila Zerrougui da Argélia, sugeriu também incluir o Exército de Israel na ‘lista negra’ de países e grupos que causam corriqueiramente sofrimento às crianças”. Faltou revisão para a o artigo pois o Fundo é da Infância e nada tem com ‘Conflitos Armados’, mas que o Exército de Israel merece ser listado não há dúvida, pois país algum prende sem acusação crianças de até oito anos por tempo indeterminado como o faz Israel.

Não poderia faltar também a menção pelo articulista de outro organismo da ONU quando ridiculamente mencionou que “A Comissão das Nações Unidas para os Direitos das Mulheres condenou Israel como o único violador mundial dos direitos das mulheres”.

E ainda não poderia faltar a OMS e o jornalista do Il Foglio escreveu: “A Organização Mundial da Saúde das Nações Unidas também seleciona singularmente Israel como o único infrator do mundo da saúde”.

Mais uma queixa o jornalista não poderia deixar passar sem despertar o mundo para outra infração. Foi quando disse: “Em outubro passado a agência cultural da ONU, a UNESCO, declarou como num passe de mágica que locais bíblicos judaicos da antiguidade são na verdade ‘islâmicos’, muito embora o Islã sequer existisse historicamente até o Século VII, pois veio a ser estabelecido centenas de anos mais tarde – quis, com a cumplicidade pérfida do Ocidente, apagar as raízes judaico-cristãs de Jerusalém”. Isto não passa de uma mentira, pois a preocupação da UNESCO é que Israel, para apagar a memória de uma Jerusalém árabe, muçulmana e cristã, chama a atenção constantemente das autoridades israelenses para as obras que empreendem, cavando túneis por baixo das mesquitas e das igrejas, com a desculpa de facilitar o acesso ao Muro das Lamentações quando na verdade querem desfazer os monumentos muçulmanos e cristãos.

Queixa-se o editor cultural do diário Il Foglio, com uma asserção final, que “Israel continua a ser tratado como um pária por esses criminosos ideológicos e tangíveis [da ONU] e. mesmo depois disso tudo, em 1975 a ONU mostrou sua verdadeira face disseminando o libelo de sangue antissemita: sionismo é uma forma de racismo”.

Com tanto perigo à vista, Giulio Meotti deveria terminar seu artigo gritando para os quatros cantos do planeta: As forças armadas das Nações Unidas atacam Israel!

José Farhat, cientista político e arabista, é diretor de relações internacionais do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe)

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Desmistificando o Islã – Fanatismo

            O Islã não é ocidental, mas não seria justo considerá-lo tão somente oriental. Estranho ao mundo genuinamente moderno, para quem o conhece, ele é sobremaneira adaptado às condições nas quais vivemos. O Ocidente na verdade jamais conheceu o Islã. Desde quando se percebeu que ele aparecera para o mundo aqueles mesmos que não se deram ao trabalho de conhecê-lo, não pararam de caluniá-lo e de desdenhá-lo, buscando razões para combatê-lo e dominá-lo. Como ocorreu com o Orientalismo em geral, o Islã foi reconcebido no Ocidente como queriam os estudiosos e não como ele é na realidade. As deformações dadas ao Islã foram grosseiras e, lamentavelmente, perduram. Muitos são no Ocidente, e entre nós no Brasil, que reduzem o Islã a poucas noções, entre as quais: fanatismo, fatalismo, poligamia.

Há certamente as exceções entre os mais cultos que têm ideias menos aberrantes sobre o Islã, mas continuam sendo raros aqueles que sabem que esta palavra significa simplesmente “submissão a Deus” e que Allah não é o deus dos muçulmanos quando, na realidade, Allah é a palavra árabe para o Deus de muçulmanos, cristãos e judeus. Para um cristão árabe, pertencente a qualquer igreja, oriental ou ocidental, é a Allah que no idioma árabe eles se referem a Deus em suas orações. No entanto, é assim que se criou uma distinção até com o nome de Deus, como se os muçulmanos tivessem um Deus que não aquele que eles têm em comum com os adeptos das demais religiões monoteístas.

            Procurando não fugir do que se pretende aqui, que é explanar alguns poucos pontos deturpados ou incompreendidos sobre o Islã, quer no Ocidente em geral, quer no Brasil também, que passamos esclarecer certas dúvidas.

            A acusação de fanatismo, animação por zelo cego e intransigente pelos muçulmanos em relação a sua religião compreende principalmente a afirmação de que o Islã é a “religião da espada” e do “jihad”.

            A noção do Islã se expandindo pela espada perdeu sua força e foi abandonada desde quando estudos críticos das fontes de informações mostrou que os muçulmanos vencedores não deixaram aos derrotados idólatras a alternativa de aceitar a sua fé ou serem exterminados, mas deve ser sublinhado que esta regra não se aplica e nunca existiu como regra, segundo manda o Corão. Vale lembrar que os Povos do Livro, os judeus e os cristãos, quando a Península Ibérica foi ocupada pelos muçulmanos, eles foram tratados da “melhor maneira”, como manda o Corão, contrariando o tratamento que os Cristãos deram aos muçulmanos e judeus, quando reocuparam a Andalus (como era e ainda é conhecida a Ibéria pelos árabes), aos não cristãos foram dadas escolhas cruéis: a conversão ao cristianismo, serem queimados nas fogueiras ou prazo curto para que deixassem a terra reconquistada.

O jihad é erroneamente interpretado como “guerra santa”, o que não corresponde à realidade quando se sabe que o termo significa para o muçulmano simplesmente sua luta menor (a guerra) ou sua luta maior (o domínio de si mesmo). Estes são os reais significados do jihad. Aos detratores do Islã só lhes restou, por ignorância ou maldade, diante do milagre de que em apenas um século a nova religião estendeu o seu domínio, da China ao Sul da França, atribuir ao jihad outro sentido contrário também à verdade histórica.

            Se jihad não é “guerra santa” o que então vem a ser? Jihad (do árabe: esforço) também se costuma enunciar como “jihad fi sabil Illah” (esforço pelo caminho de Deus) e literalmente significa esforço ou luta, em várias formas – interna e externa – e graus, sendo a de guerra a mais extrema. Em sua forma interior, jihad é a luta do muçulmano consigo mesmo praticando a disciplina moral e prometendo continuar no compromisso com o Islã. Já o jihad externo é aquele que tem interessado à crônica. O termo jihad tem sido usado com maior frequência para falar de luta armada dos muçulmanos contra os infiéis, em suas missões para fazer expandir o Islã ou para reagir a um perigo contra a Religião.  Há várias menções ao jihad no Corão tais como: “E, quando os meses sagrados passarem, matai os idólatras, onde quer que os encontreis, e apanhai-os e sediai-os, e ficai a sua espreita, onde quer que estejam. Então, se se voltam arrependidos e cumpram a oração e concedem az-zakkah, deixai-lhes livre o caminho. Por certo, Deus é Perdoador, Misericordiador” (Corão 9:5). Note-se que infiéis para o Islã são os idólatras e não os cristãos e os judeus, portadores dos Livros, que devem ser tratados “da melhor forma” conforme determina o Corão e não como se costuma erroneamente acreditar no Ocidente ou ainda pelos muçulmanos que renegaram a Religião e se desviaram do caminho correto, como é o caso dos seguidores do Estado Islâmico.

            A verdade é que sempre que obstáculos ou restrições são postas à liberdade de adorar a Deus, a exemplo de ataques à pessoa muçulmana ou à Umma – a coletividade de muçulmanos – no passado e na atualidade, é considerado dever do crente a luta – o jihad para e até o restabelecimento pleno da condição anterior. Pouco se dá conta, fora do Islã, no Ocidente, que esta é uma forma de jihad, de um esforço coletivo. No entanto, aqueles que interpretam mal a Charia – muçulmanos que a praticam de forma pecadora, como é o caso do Estado Islâmico – e aqueles de fora do Islã que não cansam de interpretar mal os seus mandamentos, só deveriam contar com aquilo que está no Corão e no Hadith e não com ideias e ações infundadas.

            É com este espírito de luta pela liberdade que as potencias coloniais, através do mundo, encontraram o verdadeiro sentido do jihad, como reação a dominações e ocupações estrangeiras. Vale a pena salientar que é por isto que a França, por exemplo, nunca entendeu a reação argelina à ocupação que durou decênios já que a Argélia praticava o jihad, enquanto a França procurava dominar os argelinos e suas terras. É também o jihad o que praticam os muçulmanos residentes na França contra a discriminação a que estão sujeitos.

          Aos judeus e cristãos, entre outros versículos do Corão, e são muitos, há aquele que diz: “E, com efeito, concedemos a Moisés o Livro, e fizemos seguir, depois dele, os Mensageiros. E concedemos a Jesus, Filho de Maria, as evidências e amparamo-lo com o Espírito Santo” (Corão: II:87). Há também um versículo assaz claro na ausência de fanatismo e na prática do jihad como o entendem aqueles que não conhecem o Islã e suas regras que reza: “E não discutais com os seguidores do Livro senão da melhor maneira – exceto os que entre eles, são injustos – e dizei: ‘Cremos no que foi descido para nós e no que fora descido para vós; e nosso Deus e vosso Deus é Um só. E para Ele somos submissos” Corão: XXIX:46. Só aqueles que de propósito ou com um objetivo escuso, podem ver fanatismo religioso em outras palavras do Livro do Islã a respeito de judeus e cristãos e os versículos são a prova quando se lê: “E, por certo, há, dentre os seguidores do Livro, os que creem em Deus, e no que fora descido para eles, sendo humildes para com Deus, não vendendo os sinais de Deus por ínfimo preço. Esses terão seu prêmio junto ao Senhor. Por certo, Deus é Destro no ajuste de contas” (Corão III:199).

            Encerremos a discussão em torno do fanatismo e do jihad com uma citação corânica que diz: “E quem luta [pela causa de Deus] apenas luta em benefício de si mesmo. Por certo, Deus é Bastante a Si mesmo prescindindo de toda a humanidade” (Corão: XXIX:6).

            O que acabamos de ver pode ser considerado como fanatismo do qual o Islã é acusado inapropriada e injustamente, pelo tratamento que obriga o muçulmano a dar aos judeus e cristãos. Ninguém está autorizado a agir de outra forma, a menos que prefira o pecado da desobediência às regras determinadas pelo Corão que é a base principal da Charia, a Lei Canônica islâmica que rege a vida religiosa, política, social e individual de toda a Umma.

José Farhat é cientista político e arabista.

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Quando surgiu o terrorismo?

Até em blog no Estadão surgiu a pergunta: “Porque não havia terrorismo associado ao Islamismo, antes dos anos 1980”. Respondi há mais de um ano e até hoje minha resposta não foi publicada. Talvez eu não tenha visto a resposta ou não responderam mesmo, mas pouco importa. O artigo do Estadão ia além ao dizer: “Uma pergunta que poucos fazem é sobre quais seriam os motivos de quase todas as organizações terroristas dizendo agir em nome dos muçulmanos terem sido formadas nos últimos 30 anos. Mais interessante, por que algumas das mais radicais, como Boko Haram e o Estado Islâmico (considerado extremista até pela Al Qaeda), foram fundadas apenas neste século?

De fato, em minha opinião, poucos fazem esta pergunta e, então, vamos raciocinar a respeito.

O Hizbullah é chamado pelos inimigos do Líbano como uma organização xiita terrorista, fundamentalista retrógrada cujo líder é um “rato que vive escondido no esgoto”. A realidade, no entanto, é outra e não agrada aos sionistas, pois o líder do Hizbullah não é bobo para se exibir ‘a descoberto’ ao público a toda hora.

A adjetivação do “Partido de Deus” declarada por seus inimigos está certa ou ele é, pura e simplesmente, um partido nacionalista, criado no Sul do Líbano ocupado por Israel, para defender o Líbano e também outros países árabes da ocupação estrangeira que tem em suas fileiras seguidores de todos os credos reconhecidos no País dos Cedros? O correto é óbvio e só não o vê quem prefere a noite escura aos raios solares?

Já o Hamas, para seus inimigos, não passa de uma organização terrorista que ataca pacíficos cidadãos civis israelenses que vivem calmamente adorando a D’us em suas casas. A realidade é que se trata de uma organização que existe para defender a sua pátria, cercada por terra, mar e ar, contra intrusos que ocupam as terras onde viviam. As militares que ocupam Gaza e toda a Palestina têm uma força militar milhares de vezes maiores que a do Hamas e assim mesmo querem passar ao mundo a ideia de que os palestinos são os agressores.

Outra indagação seria: quem é mais fundamentalista religioso, o Hamas ou o Yisrael Beitenu e quem dentre os membros dos dois partidos tem mais ligação com a terra palestina, Mughnieh que nela nasceu ou Liberman que nasceu numa das repúblicas da então União Soviética? Que dizer de Gopstein, do Lehava, agremiação conhecida por sua apologia ao ódio e à violência contra os palestinos e dos africanos que pretendem se naturalizar?

Num post anterior, alguém transcreveu um longo trecho do que disse ser o programa do Hamas – e talvez o seja mesmo, pois é só o que resta ao partido palestino quando se vê em face do livro Torat Ha’ Melekh de autoria de diversos rabinos onde está escrito que “se há uma razão de crer que filhos de gentis possam um dia nos prejudicar, é deliberadamente permitido matá-los”.

Isto demonstra, e ficou omitido no citado post, talvez de propósito, a influência negativa que trouxe para os árabes, independentemente de religião, a instalação em suas terras de um organismo político-religioso que em nada se assemelha a eles e que tem em seus partidos de direita, que são atualmente maioria, uma pretensão clara e cristalina de que os árabes devem morrer.

É pura coincidência que os movimentos que provêm de regiões de maioria islâmica e consequentemente têm conotação próxima da religião, mas não tão próxima desta quanto do nacionalismo sejam confundidos com o Islã o qual, diga-se de passagem, prega o contrário do que os movimentos ditos islâmicos pretendem enfiar goela abaixo dos nacionalistas que os cercam.

A incoerência dos sionistas e seus apoiadores, assim como de certos regimes de países de maioria árabe e ou muçulmana e de potências locais, como Turquia, ou potências estrangeiras como Estados Unidos, Reino Unido e França entre outras é evidente: declaram combater o Estado Islâmico, mas fornecem a estes inimigos do Islã condições para que atuem criminosamente contra a segurança dos povos da região, os únicos prejudicados e maiores merecedores da paz que os habilitará para enterrar seus mortos, cuidar de seus feridos, reconstruir a suas terras arrasadas e voltarem a usufruir da liberdade que lhes foi tomada, desde o Iêmen, a Palestina, a Síria, o Iraque e além.

Isto dito, está claro que o ‘terrorismo islâmico’ foi promovido como tal quando o conceito de “umma” e “nação” não atendia mais, por ineficácia, à política externa de Tel Aviv, Washington, Paris e outras, e encontraram na religião um novo modo de tentar dominar árabes e muçulmanos.

Este novo recurso está fadado ao fracasso como o foi o mesmíssimo tentado pelo regime fundamentalista do Império Otomano.

José Farhat

30/10/2016

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Elogiar e xingar

Em 1 de outubro de 2012 publiquei uma nota dizendo: “Eric Hobsbawn se vai e deixa saudade entre aqueles, que como ele. interpretam a História, não como um conto de fadas, e sim naquilo que toca ao povo sob o prisma social e econômico.” Os anos passam e cada vez sinto mais como é triste não ler mais novos escritos de Hobsbawn, mas há um consolo com o qual devemos procurar contrariar o sono que não vem, nestas noites frias paulistanas.

Quatro anos depois que o historiador por excelência nos deixou, minha neta escreveu reclamando da feiura urbana e sobre o que fizeram com o Monumento aos Bandeirantes, que foi pintado noite dessas com tintas de vários tons. Disse-lhe ser verdade que costumamos elogiar pessoas sem olhar para o que fizeram de condenável. Os Bandeirantes desbravaram o interior do Brasil, sim e daí? Eles deixaram um rastro de sangue que a água do tempo não conseguiu limpar.

É o caso das homenagens que se está prestando ao tal Shimon Perez – que há horas atrás estava a caminho do inferno. Todos dizem hoje que ele é o homem da Paz – mentira do tamanho dos crimes que cometeu.

Em uma de minhas viagens ao Líbano, estive em Qana (a aldeia onde Jesus fez seu primeiro milagre, transformando água em vinho, nas bodas de Qana). Lá sentei, no Quartel das Forças de Paz das Nações Unidas, e o Comandante me contou um dos milhares de crimes deste vale-merda. O Comandante já exercia esta missão são e o tal Perez era Primeiro-Ministro e candidato nas eleições do estado patife de Israel e, antes de pedir demissão, ele ordenou as forças aéreas de seu governo para que atacasse o Quartel da ONU em Qana. Sabe por quê? Diante das ameaças israelenses os homens combatentes libaneses se retiraram da aldeia de Qana e as crianças, mulheres, idosos foram se refugiar no Quartel. As mentirosamente autodenominadas Forças de Defesa de Israel então, por ordem do “homem da paz”, atacou o quartel por terra e ar.

O Massacre de Qana, como seria chamado o crime sionista, ocorreu em 18 de abril de 1996, com o lançamento de artilharia por terra e ataque da aviação militar pelo ar. Dos 800 civis que procuraram refúgio no quartel da UNIFIL Forças Interinas das Nações Unidas para o Líbano, 106 morreram e 116 foram feridos. Quatro soldados fijianos das Nações Unidas também foram seriamente feridos.

O ataque foi um desdobramento de uma luta pesada entre o Hizbullah e as forças israelenses durante a operação de tentativa de reocupação do sul do País dos Cedros.

Uma investigação posterior das Nações Unidas confirmou que não seria possível considerar a operação e o ataque por terra, como Israel tentou passar para o mundo, um erro técnico de procedimento, pois provas de vídeos evidenciaram que avião não tripulado do estado patife de Israel estava espionando o quartel da ONU e o pessoal civil que lá se refugiara antes dos bombardeios. É claro que apesar das provas Israel continua negando a verdade.

A mentira é igual aos elogios ao tal Perez – para os sionistas, não há distinção entre elogiar e xingar.

José Farhat

30/10/2016

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Divisão sectária do Líbano

Os impérios que através da História dominaram a região da Ásia ocidental, também hoje conhecida como Oriente Próximo por uns e Oriente Médio por outros sempre procuraram exercer seu domínio através do encorajamento da divisão sectária. O pior é que tiveram êxito, quer sejam os persas através dos xiitas, dos turcos otomanos através dos sunitas, ou dos bizantinos através dos cristãos.

Relativamente mais recente, no Século XIX, esta intervenção no País do Cedro, está em Politics of Interventionism in Ottoman Lebanon, 1830-1861 (Políticas de Intervencionismo no Líbano Otomano, 1830-1861), autoria de Ceasar E. Farah, do Centre for Lebanese Studies (no Reino Unido) publicado pela I.B.Tauris, em 2000 com 816 páginas de riqueza extraordinária em dados e documentos onde se constata que as potências daquela época (atualmente conhecidas como: Alemanha, Itália, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia, Turquia), assinaram acordo protegendo cada uma a seita de sua preferência no Líbano.

O estudo do Professor Farah analisa trinta anos críticos e determinantes na configuração das modernas políticas e padrões da intervenção estrangeira no Líbano. Baseadas nos arquivos das maiores potências europeias, das missões religiosas católicas e protestantes, de documentação otomana e suplementado por manuscritos nunca antes publicados, o livro retrata os eventos que afetaram o relacionamento entre facções clericais e feudais, as Grandes Potências de então, assim como a resistência das autoridades Otomanas ao ver esta sua província crítica sucumbir sob a dominação europeia. O livro também analisa o efeito da rivalidade franco-britânica nas tensões e contendas intersectarias.

Os acordos Sykes-Picot, entre França e Reino Unido, assim como a Declaração Balfour, missiva do Reino Unido para a Federação Sionista além de outros, demonstraram que as potências imperialistas nunca se deram ao trabalho de verificar se tais documentos afetariam ou não a paz na região; a História demonstraria que sim!

Desde o final da I Guerra Mundial, após anos e anos de indefinições, tropeços, guerras, ocupações, independência, o Líbano finalmente escolheu, mês passado, um presidente da república para preencher a cadeira vaga por cerca de dois anos. O escolhido, Michel Aoun, o Velho General como é chamado, aos 81 anos, vem de uma carreira de promotor de guerras, comandante militar, primeiro ministro no final da guerra civil do país, até ser bombardeado pela aviação militar síria em 1990. Como as coisas mudam no Líbano, tais como cores de camaleões, ele voltou do exílio de alguns anos e fez a paz com os sírios, os inimigos de ontem e fundou um partido de maioria cristã maronita. Dia 13 de outubro de 2016 ele foi eleito 13º presidente, após 45 tentativas mal sucedidas de eleição.

Dada a agressão estrangeira que a Síria está sofrendo, Aoun presidirá um Líbano que dá asilo a um milhão de refugiados sírios. A chegada de refugiados ao Líbano sempre causou problemas.

Com os armênios que fugiram do holocausto bárbaro que sofreram por parte da Turquia, o problema foi menor que aqueles causados pelos demais. Isto porque os armênios são cristãos, receberam a cidadania sem demora e reforçaram a proporção cristã no país o que de certa forma jogou para o futuro os problemas que o aumento de muçulmanos e a relativa diminuição de cristão iriam causar.

Os refugiados curdos que fugiam de todo país onde eram minoria já foi um problema e nenhum curdo obteve até hoje a cidadania libanesa. Isto porque são todos muçulmanos.

Os palestinos, com sua maioria muçulmana e minoria cristã, foram recebidos bem ou mal, dependendo de quem opinava: se cristão ou muçulmano. O problema cresceu tanto a ponto de o Líbano passar por uma guerra civil que durou perto de 17 anos. A contribuição dos sionistas, ao lado dos cristãos libaneses de extrema direita, agravaria muito o problema e seria um elemento de prorrogação da guerra civil.

O velho general tem experiência para contornar os problemas sectários libaneses. É uma tarefa hercúlea, mas solucionável.

O que se queria quando o Líbano foi destacado do Império Otomano era tornar o País do Cedro um paraíso para os cristãos. Foi uma verdade aparente por muito tempo, mas os problemas não tardaram a aparecer e a missão de Aoun é encontrar uma solução para que a situação não se agrave e chegue novamente numa explosão.

A bomba prestes a explodir é divisão sectária do Líbano. Edição recente de The Economist traz um artigo demonstrando como o arranjo no qual a política libanesa vem tentando se equilibrar e como milhões de votantes há para confrontos. Os dados tirados do registro de votantes revela que 37% dos libaneses votantes são cristãos. A única unanimidade entre os políticos libaneses é que ninguém quer realizar um recenseamento para mostrar como se encontra hoje a divisão sectária que o censo de 1922, demonstrou. Políticos como o druso Walid Jumblatt, líder do Partido Progressivo socialista, declarou ao The Economist: “Um novo recenseamento mexerá com a ordem das coisas. É uma saída sensível. Os resultados de um novo censo causarão muitos problemas. Ele irritará alguns setores da comunidade. Já existem muitas tensões entre xiitas, sunitas e cristãos. Um censo não é algo que queiramos agora”.

The Economist obteve também uma lista divulgada pelo Ministério do Interior onde os 3.6 milhões votantes apareciam com sua afiliação sectária. Foi aparecer na web do Ministério e começou a causar conflito. O Ministério, mais que depressa, retirou do ar. Os dados demonstravam que os católicos maronitas, no passado a maior seita, representam hoje não mais que 21% dos votantes. A maioria passou para os xiitas, atualmente 29% da lista, estão seguidos de perto pelos sunitas, com 28%. No entanto, a distribuição de assentos no Parlamento não revela a realidade já que os maronitas têm 34 deputados, enquanto os xiitas e Sunitas têm 27 cadeiras cada, de um total de 128 membros do legislativo.

O velho general tem que se preparar e levar em sua bagagem, para o Palácio de Baabda, um carregamento de extintores de incêndios.

José Farhat

07/11/2016

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De quantas ogivas nucleares Israel necessita para se autodestruir?

Se o Lawrence S. Wittner, em seu artigo publicado no dia de finados, 02/11/2016, estivesse escrevendo sobre Israel e não sobre seu país, em vez do título “How Many Nuclear Warheads Does the United States Need?” É abuso de minha parte, mas tenho quase certeza que o título seria aquele que está acima.

O Professor de História, ativista a favor da Paz e da Justiça Social, disse uma vez mais o que pensa das armas nucleares, quando afirmou que “a situação atual é insustentável e estamos vivendo em circunstâncias de perigo enorme, pois, enquanto existirem armas nucleares há uma grande probabilidade de que elas acabem sendo usadas.” É fato, pois guerras têm sido travadas, através da História, quase sempre com as armas mais poderosas ao alcance na época. “As armas nucleares, aponta Wittner, foram usadas com pouca hesitação pelo governo dos Estados Unidos em 1945 e, enbora não tenham sido empregaddas em batalha desde então, por quanto tempo podemos esperar para continuar sem sermos pressionados novamente a serviço de um governo defensivo, um governo agressivo, um ditador implacável, ou um louco”?

Nem só de guerra a humanidade sofreu com acidentes nucleares, a Agência Internacional de Energia Atômica listou os piores desastres já ocorridos, que são: Chernobil, 1986, o pior dentre eles da história cuja radiação foi 200 vezes maior do que a das bombas de Hiroshima e Nagasaki juntas, contaminando 200.000 km² e a morte por câncer de cerca de 4.000 pessoas; além de outros sete acidentes, inclusive o de menor monta de Goiânia, 1987.

Israel guarda segredo sobre o número de ogivas que mantém prontas para serem lançadas, o que coloca o estado segregacionista na lista de países que têm armas nucleares que são (seguida de número provável de ogivas): Rússia (13.000), Estados Unidos (9.400), França (300), China (240), Reino Unido (180), Israel (60 a 80 ou 200), Paquistão (70 a 90), Índia (60-80) e Coréia do Norte (desconhecido).

Se Chernobil contaminou 200.000 km² imagine-se só quantas armas Israel necessita para atingir o Líbano e a si mesmo ou o Irã e o território palestino que ocupam. Matar o inimigo e cometer suicídio é programa sério ou simplesmente uma medida similar àquela dos judeus que se aproveitaram da ausência de Moisés e encarregaram seu irmão Aarão de construir um bezerro de ouro para que o adorassem e ganhassem o fogo do inferno. A resposta é tão infantil quanto o fato.

Muitas vezes o estado racista de Israel teve a oportunidade de levar adiante um projeto de paz e deram as costas à solução pacífica e à negociação. Algumas vezes cogitou-se de dois estados para dois povos, uma verdadeira injustiça para o povo palestino, mas isto ocorreu e nem isto Israel aceitou.

A situação atual, independentemente do arsenal nuclear do estado hebreu parece que este não terá mais a chance de oficialização do crime de ocupação cometido contra o povo palestino e só resta uma saída para a terra palestina: a criação de um único estado palestino para abrigar palestinos de qualquer crença religiosa e cidadãos de boa fé de qualquer origem e qualquer credo.

Novo suicídio coletivo, com armas nucleares ou outro meio, por favor, que seja longe das terras sagradas para judeus, cristãos e muçulmanos e, note-se, os palestinos não são suicidas.

José Farhat

19/11/2016

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