A Declaração Balfour

Em palestra pronunciada na 1ª Jornada do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – Campus Cubatão, indiquei um ponto qualquer no mapa dos países árabes do Oriente Médio a fim de enfatizar que o Império Britânico havia prometido tal lugar, ao mesmo tempo, a quatro grupos diferentes.

De fato, aquele ponto no deserto estava fazia então parte do Reino dos Hachemitas do Hijaz, aos quais fora prometido como parte do território da nação árabe a ser criada quando e se os árabes entrassem em guerra contra o Império Otomano. Como de fato aconteceu.

O ponto acabou como parte da Transjordânia, que destacada de terras palestinas, também prometidas aos sionistas. Estes ganharam a Palestina e o ponto indicado passou para os Hachemitas que se contentaram com a atual Jordânia, enquanto todo o deserto, antes hachemita acabou na mão dos sauditas que formaram o Reino da Arábia Saudita, com a ajuda do próprio Império britânico.

Pelo Acordo secreto conhecido como Sykes – Picot, as terras que circundam o ponto foram divididas entre França, Grã Bretanha, Itália e Rússia. A Rússia, com sua revolução vitoriosa não se interessou pela terra e a Itália continuou com o seu comportamento dolce far niente que caracterizou sua atitude durante as negociações de paz da I Guerra Mundial.

Pode tudo parecer confuso, mas a verdade é que o Império Britânico que prometeu o mesmo ponto para quatro pretendentes diferentes só poderia mesmo assim querer que fosse. Aliás, as próprias negociações foram confusas e ninguém menos que o britânico Marechal de Campo, presente nos campos de batalha, comentou a respeito dizendo: “Depois de ‘a guerra para pôr o fim à guerra’, parece que eles foram bem-sucedidos em Paris em celebrar ‘a paz para pôr fim à paz’”.

No último dia de finados, 2 de novembro de 2019, a Declaração Balfour completava 100 anos de sua assinatura e divulgação. Desde os primórdios da I Guerra Mundial, o lobby do movimento sionista na Grã Bretanha começou a assediar o governo britânico a fim de trazê-lo para o lado de sua causa e encontraram em Mark Sykes (o mesmo dos acordos Sykes-Picot) um entusiasta que professava, em suas próprias palavras: “um interesse em libertar os desvalidos povos da terra, inclusive os armênios, árabes e judeus”.

O documento, uma carta em papel oficial do Ministério do Exterior, datada, de 2 de novembro de 1917, endereçada a Lionel Walter Baron Rothschild (1868-1937), é assinada por Arthur James Lord Balfour (1848-1930), Secretário do Foreign Office, diz textualmente:

“Prezado Lord Rothschild,

Tenho muito prazer em retransmitir-lhe, em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia para com as aspirações dos judeus sionistas que foram submetidas ao e aprovadas pelo Gabinete: ‘O Governo de Sua Majestade vê com favorecimento o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e usará seu melhor esforço para facilitar a realização deste objetivo, ficando claramente entendido que nada será feito o qual possa prejudicar os direitos civil e religioso das comunidades não-judias existentes na Palestina ou os direitos e status usufruídos pelos judeus em qualquer outro país’.

Ficarei grato se levar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.

Sinceramente,

Arthur James Balfour.”

Para que se tenha uma ideia da repercussão que teve a assinatura desta carta, o The New York Times já publicava a notícia, do outro lado do Atlântico, seis dias depois e já dava conta do comentário do The Jewish Chronicle, o mais antigo e mais influente jornal judeu, baseado em Londres, onde se lê:

“Com um passo a causa judia fez um grande salto palpável de que o judeu, condenado por dois mil anos por um erro sem paralelo – está finalmente chegando a seu direito. A ele é dada a oportunidade e os meios pelo qual no lugar de ser hifenizado ele pode se tornar uma nação, em vez de ser um errante em todo clima haverá um lar para ele em sua antiga terra. O dia deste exílio será terminando”.

Não faltam afirmações ou até vaticínios sobre porque a Grã Bretanha aceitou emitir e publicar a Declaração Balfour. É provável que a Declaração fosse intencionalmente capciosa a fim de permitir aos britânicos que renegassem suas promessas anteriores à França e aos Árabes, a respeito da Palestina. Atribui-se ao Primeiro Ministro à época, David Lloyd George (1863-1945) uma frase elucidativa de que “o controle britânico sobre a Palestina evitaria que ela caísse nas mãos daqueles franceses agnósticos e ateus”.

A mais provável hipótese é que a Declaração tinha o propósito de agradar aos judeus, para que as comunidades judias dos Estados Unidos e da Rússia influenciassem seus governos para que apoiassem a Grã Bretanha na Guerra. Isto apesar de o Foreign Office saber que o lobby judeu havia feito proposta semelhante ao campo oposto: Alemanha e Turquia, para ganhar a Palestina independentemente de quem fosse o vencedor da Guerra. Seja lá como for, a declaração servia aos interesses imperialistas britânicos e notadamente para garantir uma base judia amigável, para defesa do Canal de Suez, contrabalançando um eventual levante árabe não amigável.

José Farhat

14/11/2017

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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