A Feira Internacional de Damasco

Raros são os meios de comunicações que noticiaram uma boa nova a respeito da Síria; se de uma má notícia se tratasse, o fato estaria estampado em muitas primeiras páginas, inclusive, entre nós: Estadão, Folha, Globo et caterva.

Felizmente, nada está perdido. Ouvimos, como poucos, vozes amigas, algumas de velhos amigos, vindas da própria Síria, de que em seguida ao acordo de cessar-fogo entre os combatentes, legais e ilegais, os refugiados sírios começaram a voltar para suas casas, grande parte das quais transformadas em ruínas a serem reconstruídas, com o ímpeto que não lhes faltou quando tudo abandonaram em busca da sobrevivência e não seria agora que lhes iria faltar.

A grande notícia é que Damasco, onde o Barada corre faceiro balançando ao ar sereno e doce, inaugurou sua primeira moderna Feira Internacional, após uma paralisia de cinco anos, desde 2011, poucos meses antes do início dos acontecimentos terríveis que se seguiriam.

Estive na inauguração da Feira Internacional de Damasco sob os auspícios do então Presidente Hafiz Al-Assad, em 1954. Eu era Oficial de Chancelaria da Missão Diplomática do Brasil – que se tornaria Legação e depois Embaixada do Brasil na Síria. Participei anos depois, já como representante de firmas brasileiras e, apesar de viajar a cada três meses para Bagdá durante dezessete anos e meio, passei por Damasco várias vezes, sempre e enquanto havia voos da SAS entre as duas capitais, com destino à Escandinávia e até quando a rixa interna entre o Partido Baath da Síria e o do Iraque o permitiu.

A reabertura da Feira é fato plenamente relacionado com a capacidade do Exército sírio de recuperar províncias ocupadas pelos inimigos da Nação Árabe e das Religiões minoritárias e majoritárias regionais, portadores de bandeiras pecaminosas e ideias assassinas, sob a falsa cobertura de uma Religião que os desconhece e os condena!

Este é um renascer da Síria? Acho que sim. A tentativa de sabotar a Feira, horas após a inauguração foi um fracasso e os inimigos do povo sírio só conseguiram matar alguns ciadãos civis inocentes, como fizeram sem cessar durante os últimos anos de luta armada na Síria.

É bom ouvir o Ministério da Defesa da Síria confirmar que suas forças e combatentes aliados liberaram a Usina de Gás de Tuweiyan, no campo produtoir do mesmo nome, o campo de gás de Akram e o de Ghadur, removendo dezenas de minas plantadas nestas localidades por aqueles que atuavam a soldo de potências estrangeiras e, lamentavelmente, árabes também.

A repercussão da inauguração da Feira e informações sobre a atual situação na Síria, foi dada pela Global Research, um centro canadense de pesquisa sobre a globalização que costuma pesquisar o que a imprensa mal intencionada nem pesquisa e nem tampouco divulga.

Não só a Global Reasearch divulgou o discurso pronunciado por Bouthaina Shaaban, consultora de política e imprensa do presidente sírio Bashar al-Assad. A rede libanesa de televisão al-Mayadeen transmitiu o discurso de Shaaban e também uma entrevista exclusiva.

São dignas de nota ambas as falas da Consultora presidencial. Ela afirmou que “a inauguração da Feira Internacional de Damasco e a participação regional no evento provam uma reviravolta concluída na crise patrocinada desde o exterior”.

            Ela disse também que “a guerra chegou a seu penúltimo estágio com a mudança de atitude das forças estrangeiras que apoiaram militarmente a crise e suas mudanças de políticas”. Shaaban disse também que “ a Feira é uma derrota para seus projetos, mas isto não significa que ganhamos totalmente a guerra [pois] estamos apenas começando a trilhar o caminho da reconstrução da Síria”. A principal consultora criticou a Turquia por apadrinhar o terrorismo dizendo sempre uma coisa e fazendo outra.

Quanto aos Estados Unidos ela deixou bem claro que “o Governo estadunidense não terá sucesso na implementação de qualquer plano de partição da Síria”.

Ao final de seu discurso Disse Shaaban: “Assim como derrotamos o terrorismo, combateremos a presença ilegítima em nossa terra, quer sejam dos Estados Unidos ou da Turquia”.

Por outro lado, Adam Garrie, redator no canal informativo cipriota The Durant, uma publicação que incomoda a imprensa que não respeita verdades, escreveu a respeito da inauguração da nova Feira de Damasco o seguinte: “Já que ganhar a guerra contra o terrorismo salafista […] é crucial, assegurando a paz que é básica e essencial à futura prosperidade do povo sírio. O Governo sírio, os estados seus parceiros e os negócios privados estão cuidando disto.”

Quem sabe um dia, observador que sou da situação na Síria, ainda irei matar a saudade e irei à Feira Internacional de Damasco – vale a pena !

José Farhat

08/09/2017

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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2 respostas para A Feira Internacional de Damasco

  1. torresinc disse:

    Olá Farhat!
    Como sempre, as suas análise são lúcidas e cheias de experiência e conhecimento.
    Obrigado por nos esclarecer sobre este conflito cheio de detalhes que escapam aos mortais desavisados como eu. 🙂

    • José FARHAT disse:

      Prezado Ed Torres, agradeço seu comentário e os elogios nele embutidos. A Síria ainda tem muitos degraus a galgar, mas acredito que atingirão a Paz e a Reconstrução.

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