Divisão sectária do Líbano

Os impérios que através da História dominaram a região da Ásia ocidental, também hoje conhecida como Oriente Próximo por uns e Oriente Médio por outros sempre procuraram exercer seu domínio através do encorajamento da divisão sectária. O pior é que tiveram êxito, quer sejam os persas através dos xiitas, dos turcos otomanos através dos sunitas, ou dos bizantinos através dos cristãos.

Relativamente mais recente, no Século XIX, esta intervenção no País do Cedro, está em Politics of Interventionism in Ottoman Lebanon, 1830-1861 (Políticas de Intervencionismo no Líbano Otomano, 1830-1861), autoria de Ceasar E. Farah, do Centre for Lebanese Studies (no Reino Unido) publicado pela I.B.Tauris, em 2000 com 816 páginas de riqueza extraordinária em dados e documentos onde se constata que as potências daquela época (atualmente conhecidas como: Alemanha, Itália, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia, Turquia), assinaram acordo protegendo cada uma a seita de sua preferência no Líbano.

O estudo do Professor Farah analisa trinta anos críticos e determinantes na configuração das modernas políticas e padrões da intervenção estrangeira no Líbano. Baseadas nos arquivos das maiores potências europeias, das missões religiosas católicas e protestantes, de documentação otomana e suplementado por manuscritos nunca antes publicados, o livro retrata os eventos que afetaram o relacionamento entre facções clericais e feudais, as Grandes Potências de então, assim como a resistência das autoridades Otomanas ao ver esta sua província crítica sucumbir sob a dominação europeia. O livro também analisa o efeito da rivalidade franco-britânica nas tensões e contendas intersectarias.

Os acordos Sykes-Picot, entre França e Reino Unido, assim como a Declaração Balfour, missiva do Reino Unido para a Federação Sionista além de outros, demonstraram que as potências imperialistas nunca se deram ao trabalho de verificar se tais documentos afetariam ou não a paz na região; a História demonstraria que sim!

Desde o final da I Guerra Mundial, após anos e anos de indefinições, tropeços, guerras, ocupações, independência, o Líbano finalmente escolheu, mês passado, um presidente da república para preencher a cadeira vaga por cerca de dois anos. O escolhido, Michel Aoun, o Velho General como é chamado, aos 81 anos, vem de uma carreira de promotor de guerras, comandante militar, primeiro ministro no final da guerra civil do país, até ser bombardeado pela aviação militar síria em 1990. Como as coisas mudam no Líbano, tais como cores de camaleões, ele voltou do exílio de alguns anos e fez a paz com os sírios, os inimigos de ontem e fundou um partido de maioria cristã maronita. Dia 13 de outubro de 2016 ele foi eleito 13º presidente, após 45 tentativas mal sucedidas de eleição.

Dada a agressão estrangeira que a Síria está sofrendo, Aoun presidirá um Líbano que dá asilo a um milhão de refugiados sírios. A chegada de refugiados ao Líbano sempre causou problemas.

Com os armênios que fugiram do holocausto bárbaro que sofreram por parte da Turquia, o problema foi menor que aqueles causados pelos demais. Isto porque os armênios são cristãos, receberam a cidadania sem demora e reforçaram a proporção cristã no país o que de certa forma jogou para o futuro os problemas que o aumento de muçulmanos e a relativa diminuição de cristão iriam causar.

Os refugiados curdos que fugiam de todo país onde eram minoria já foi um problema e nenhum curdo obteve até hoje a cidadania libanesa. Isto porque são todos muçulmanos.

Os palestinos, com sua maioria muçulmana e minoria cristã, foram recebidos bem ou mal, dependendo de quem opinava: se cristão ou muçulmano. O problema cresceu tanto a ponto de o Líbano passar por uma guerra civil que durou perto de 17 anos. A contribuição dos sionistas, ao lado dos cristãos libaneses de extrema direita, agravaria muito o problema e seria um elemento de prorrogação da guerra civil.

O velho general tem experiência para contornar os problemas sectários libaneses. É uma tarefa hercúlea, mas solucionável.

O que se queria quando o Líbano foi destacado do Império Otomano era tornar o País do Cedro um paraíso para os cristãos. Foi uma verdade aparente por muito tempo, mas os problemas não tardaram a aparecer e a missão de Aoun é encontrar uma solução para que a situação não se agrave e chegue novamente numa explosão.

A bomba prestes a explodir é divisão sectária do Líbano. Edição recente de The Economist traz um artigo demonstrando como o arranjo no qual a política libanesa vem tentando se equilibrar e como milhões de votantes há para confrontos. Os dados tirados do registro de votantes revela que 37% dos libaneses votantes são cristãos. A única unanimidade entre os políticos libaneses é que ninguém quer realizar um recenseamento para mostrar como se encontra hoje a divisão sectária que o censo de 1922, demonstrou. Políticos como o druso Walid Jumblatt, líder do Partido Progressivo socialista, declarou ao The Economist: “Um novo recenseamento mexerá com a ordem das coisas. É uma saída sensível. Os resultados de um novo censo causarão muitos problemas. Ele irritará alguns setores da comunidade. Já existem muitas tensões entre xiitas, sunitas e cristãos. Um censo não é algo que queiramos agora”.

The Economist obteve também uma lista divulgada pelo Ministério do Interior onde os 3.6 milhões votantes apareciam com sua afiliação sectária. Foi aparecer na web do Ministério e começou a causar conflito. O Ministério, mais que depressa, retirou do ar. Os dados demonstravam que os católicos maronitas, no passado a maior seita, representam hoje não mais que 21% dos votantes. A maioria passou para os xiitas, atualmente 29% da lista, estão seguidos de perto pelos sunitas, com 28%. No entanto, a distribuição de assentos no Parlamento não revela a realidade já que os maronitas têm 34 deputados, enquanto os xiitas e Sunitas têm 27 cadeiras cada, de um total de 128 membros do legislativo.

O velho general tem que se preparar e levar em sua bagagem, para o Palácio de Baabda, um carregamento de extintores de incêndios.

José Farhat

07/11/2016

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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