O prêmio Nobel da Paz de 2015

Desde a premiação do ano passado, de 2014, o Comitê Nobel Norueguês vem preferindo organizações a indivíduos para a premiação da Paz. Isto não significa que não existam indivíduos que atuaram em favor da paz, mas o Quarteto do Diálogo Nacional tunisiano tem méritos que ao serem premiados encorajam outras organizações, em vários países, a imitarem estas organizações.

A homenagem ao Quarteto inclui os indivíduos que acenderam os fósforos da luta pela liberdade e pelo pão, tendo à frente e como símbolo a imolação de Muhammad Buazizi, no dia 17 de dezembro de 2010, que se estendeu por todo o ano seguinte de 2011, representando um tsunami colossal clamando por cidadania e dignidade, que provocaram manifestações populares massivas de erupção espontânea.

Muhammad Buazizi, um indivíduo portador de diploma universitário que não encontrava emprego, como milhões de outros tunisianos e outros cidadãos dos 22 países árabes, vendia verduras e legumes numa pequena banca em praça pública e foi submetido à humilhação e chicotadas da polícia de um governo islâmico fundamentalista influenciou organizações como o Quarteto recebedor do Prêmio Nobel de 2015.

Não esqueçamos que a UGTT – União Geral dos Trabalhadores Tunisianos, inspirado por Muhammad Buazizi, prendeu no palácio governamental da Tunísia todos os membros do governo que queria destruir as reivindicações do povo tunisiano e favorecer os seus ideais de conquista do poder retrógrado e os objetivos das grandes potencias internacionais dominadoras dos países árabes e condicionou sua liberação pela adoção de uma nova Constituição favorável àqueles que lutavam na Tunísia pela liberdade e pelo pão.

Só assim teve êxito o movimento que transformou a Tunísia num país dos tunisianos e um exemplo dos demais países árabes e seus semelhantes através do mundo.

O reconhecimento da luta vitoriosa do Quarteto tunisiano é uma homenagem ao povo lutador da Tunísia e um exemplo para os povos dos demais países árabes.

Este ano, é verdade, personalidades individuais como o Papa Francisco e Angela Merkel foram desbancadas por um coletivo da sociedade civil e isto carrega em si um significado. Papa Francisco e Angela Merkel, com suas ações meritórias em favor dos povos que sofrem devido às ambições e humilhações das grandes potências colonialistas, têm o mesmo mérito que Muhammad Buazizi, este como exemplo de luta e aqueles como partes de organizações que ajudam aqueles que lutam pelos mesmos objetivos.

As notícias sobre o Prêmio ressaltam, em sua maioria, que a Tunísia foi o único país bem sucedido na Primavera Árabe. Só que isto não corresponde à realidade; não passa de mais uma tentativa do chamado Ocidente de estigmatizar os países árabes. Os movimentos populares que se iniciaram como Primavera Árabe ainda têm impactos positivos nos outros países árabes

De fato, a Tunísia foi o único país no qual o povo saiu vitorioso na luta da Primavera Árabe; foi uma vitória dupla: contra os partidos e movimentos fundamentalistas islâmicos internos e um triunfo contra as ambições dos países que lutam pela submissão de todos os povos da terra pela imposição de seus objetivos, a eles favoráveis e aos povos desfavoráveis.

É claro que o movimento da Primavera Árabe, uma vitória do antagonismo entre islamismo e secularismo, povos oprimidos e potências estrangeiras e seus lacaios governantes internos, está em andamento em outros países árabes.

Se tomarmos a Síria como exemplo, podemos considerar que a luta do povo sírio começou e continua acontecendo com inspiração na vitória, na Tunísia, do povo que lutou pela Primavera Árabe. Tanto isto é verdade que tudo se assemelha na Síria à Tunísia na fase inicial de luta: as potencias estrangeiras e os fundamentalistas islâmicos estão do mesmo lado, procurando fazer o que tentaram e não conseguiram na Tunísia: vencer aqueles que na Síria lutam pela liberdade e recusam viver sob a humilhação de ocupação estrangeira.

José Farhat

09/10/2015

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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