Três ditadores ainda vivos em um único país

            Cada Ditador procura justificar seus atos ditatoriais de uma forma. O nosso Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954) escreveu: “O período ditatorial tem sido útil, permitindo a realização de certas medidas salvadoras, de difícil ou tardia execução dentro da órbita legal.” Não estamos julgando aqui o que Getúlio realizou, de bem ou de mal, apenas mostrando como um ditador julga a si mesmo e a seus atos.

            Um ditador é demais para um país, três são demais. Dos três, vivinhos, dois foram desapeados do poder e o terceiro, como diz o gaúcho, viu o cavalo passar selado e montou; haja povo. Tratando-se do Egito, não é esse o problema, pois há abundância de egípcios para lutar pelos seus direitos, o assunto controverso é o excesso de governantes.

            Dois dentre eles, Husni Mubarak e Muhammad Mursi governaram Egitos assaz diferentes – o primeiro foi um líder autoritário egresso da Força Aérea que sucedeu a Anuar al-Sadat quando este sofreu um atentado, a um metro de Mubarak, tomou o poder e governou o país com mão de ferro durante três décadas. O segundo um presidente democraticamente eleito, como nenhum outro presidente da república egípcia, só permaneceu no poder por cerca de um ano.

            Se Mubarak e Mursi têm origens diferentes, um militar e o outro civil, acabaram tendo o mesmo destino: ambos foram arrancados dos palácios presidenciais e terminaram na cadeia para serem julgados pela Justiça de seus próprios países por crimes de violência e corrupção.

           Quando Mubarak foi derrubado foi constatado que sua fortuna, roubada do povo que vivia miseravelmente, somava 60 bilhões de dólares, valor igual à dívida do Egito junto a órgãos internacionais. O sofredor povo egípcio também sabia que pagava preço alto elo gás de seu país, enquanto o regime vendia o mesmo gás para os israelenses a preços vis.

         Mubarak, conivente com aqueles que o cercavam e apoiavam, diante da insustentabilidade de seu governo, pediu demissão, nomeou alguém de sua confiança para sucedê-lo, capaz de esconder sua perda de senso moral, de honestidade, de honra, de corrupção e, quando a situação permitisse, voltar ao poder ou forçar a entrega da presidência a seu filho.

          Mubarak tornou-se o primeiro e único líder árabe a ser julgado pelo sistema judicial egípcio pelo desfalque de fundos públicos, aquisição ilícita de riqueza, camuflagem de sua fortuna e assassinato de participantes em demonstrações reivindicando a mudança do regime realizadas na Praça Tahrir, no centro do Cairo, que focalizaram o mundo inteiro sobre as revoluções da Primavera Árabe que influenciaram todo o Oriente Médio e Norte da África.

          O fato não é inédito, mas a mulher de Mubarak e seus dois filhos também foram acusados de receberem rendas ilícitas. A esposa ficou presa durante 15 dias e foi liberada por um acordo nos termos do qual ela devolveu toda a fortuna da qual se apoderara e foi comprovada pela Justiça. Os dois filhos de |Mubarak demoraram mais tempo na cadeia, mas acabaram imitando a mãe e tão logo devolveram as respectivas fortunas, foram soltos.

            Mursi foi julgado culpado dia 21 de abril deste ano por haver ordenado a prisão e a tortura de manifestantes durante as manifestações de dezembro de 2012 no Cairo e escapou por pouco da acusação de assassinato de participantes de manifestações públicas. O líder da Irmandade Muçulmana foi empossado algumas semanas após um juiz egípcio pronunciar a sentença de prisão perpétua para Mubarak, em 2012, e qualificando os 30 anos de exercício do poder “um pesadelo negro” para o Egito.

            Em novo julgamento por mandar assassinar 800 participantes de protestos ele foi mais uma vez condenado.

            Mubarak, aos 86 anos, cumpre diversas penas cumulativamente por seus crimes num presídio hospitalar das forças armadas e, devido a várias brechas legais, é bem possível que tenha suas condenações reduzidas e deixe a prisão dentro em breve.

            Mursi foi julgado culpado dia 21 de abril deste ano por haver ordenado a prisão e a tortura de manifestantes durante as manifestações de dezembro de 2012 no Cairo e escapou por pouco da acusação de assassinato de participantes de manifestações públicas o que o levaria à condenação à morte.

           O líder da Irmandade Muçulmana foi empossado algumas semanas após um juiz egípcio pronunciar a sentença de prisão perpétua para Mubarak, em 2012, e qualificar os 30 anos de exercício do poder “um pesadelo negro” para o Egito.

           Mursi foi o primeiro presidente egípcio eleito em pleito livre; nenhum outro, desde que a monarquia foi derrubada, assumiu o poder através de eleições livres.

           O grande problema de Mursi, para os donos do poder, era pertencer à Irmandade Muçulmana, uma organização que há decênios se dedicou a atuar nas mais recônditas aldeias dos confins do Egito rural, fornecendo orientação religiosa e civil, unidades médicas, escolas e registro eleitoral; o que causava imensa preocupação às autoridades que se impunham ao povo egípcio. O resultado é que Mursi foi eleito livremente como se temia.

          Mursi é acusado de vários crimes capitais, inclusive o fornecimento de informações sigilosas de segurança para o Qatar e para grupos armados rotulados de pró-Egito. O Hamas e o Hizbullah teriam se beneficiado com informações altamente secretas. Leia-se nas entrelinhas, informações que comprometiam não somente o Egito, mas também Estados Unidos e principalmente Israel.

          Ele foi acusado de difamar o judiciário em 2013, em discurso em 2013, quando acusou 23 juízes de falsificar as eleições parlamentares de 2005 e estranhamente também é acusado de fugir da prisão durante os levantes contra Mubarak, em 2011, em julgamento pouco antes de sua eleição para a presidência da república. Tudo indica que queriam condená-lo de qualquer forma e por qualquer fato real ou não.

          Chegou a hora do terceiro, o Ministro da Defesa Abdul Fattah al-Sissi que deu um golpe contra Mursi, o presidente constitucional, junto com milhares de apoiadores deste, pertencentes à Irmandade Muçulmana. Foram todos presos e acusados pelo governo de plantão. Em julho de 2013 centenas foram assassinados por agentes de segurança durante manifestações silenciosas a favor de Mursi.

          Mursi e 12 companheiros foram sentenciados e ouviram suas sentenças prestando continência em homenagem aos correligionários assassinados nas demonstrações a favor de Mursi que declarou em corte ser o presidente de fato e de direito da república.

          Os condenados membros da Irmandade Muçulmana sinalizaram sua esperança de que al-Sissi seja o próximo líder árabe a ser submetido à Justiça pela morte de civis.

José Farhat

23/04/2015

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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2 respostas para Três ditadores ainda vivos em um único país

  1. Alan Uemura disse:

    Bom dia. Meu nome é Alan Uemura, sou estudante de Relações Internacionais do primeiro semestre na Anhembi Morumbi.. Estamos escrevendo um artigo para a faculdade sobre as Relações Diplomáticas do Líbano. Será que posso enviar por e-mail algumas perguntas para que possa retirar nossas dúvidas? Agradeço desde já.

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