Terras dadas por D-us aos hebreus

            “O verme do vinagre é dele e está nele” é um provérbio árabe cuja história se perde nos tempos que passaram, e perdurará. Ele sintetiza um conceito a respeito da realidade ou de uma regra moral ou social. Exemplos não faltam e um desses exemplos é apresentado aqui, demonstrando que a falácia da dádiva de terras por Deus ao Povo Judeu é combatida internamente, no próprio meio do povo hebreu. Já nos referimos a isto em outros locais de nossa série de artigos sobre Falácias em torno de Israel e do Sionismo, mas voltamos agora e voltaremos tantas vezes quanto necessário for. Já que falaremos de Deus, nada melhor que introduzir o tema citando o cientista Albert Einstein (1879-1955) quando disse: “Eu não consigo imaginar um Deus que recompensa e pune os objetos de sua criação e é apenas um reflexo da fragilidade humana.”

            Em blog do jornalista Guga Chacra, no Estadão, um leitor chamado Alan Freire de Lima, recentemente escreveu: “Todos gentis desde o Império Romano até hoje sob o ‘império islâmico’, devem muitas Terras dadas por D-us aos hebreus conforme está no Velho Testamento (Tora). É um direito e respeito religioso aos israelitas (iehudim caraitas, rabínicos, sefaradim, ashkenazim, miszahi, beta jews, bnei anussim, bene menasse etc) Am Israel Chai”. Seria, segundo o mapa que Lima também publica da “Península de Israel” já que a terra pretendida limita-se a oeste pelo rio Nilo até o mar Mediterrâneo e vai subindo até a atual Alexandrete na Turquia e, ao encontrar o Eufrates, desce rumo sul, indo até o golfo Arábico/Pérsico e, daí, numa linha reta feita a régua ocupa parte da atual Arábia Saudita até novamente se encontrar com o rio Nilo.

            Entender-se-á agora a razão da citação do provérbio árabe, pois é nas palavras de Naomi R. Wolf, uma escritora feminista estadunidense, nascida na Califórnia em 12/11/1962, de ascendência judia, que buscamos uma contestação ao que diz Lima e seus asseclas fundamentalistas judeus. Diga-se de passagem, Naomi descende de uma família de escritores: sua mãe, a antropóloga Deborah Goleman Wolf, autora de livros famosos entre os quais se destaca The Lesbian Community e de Leonard Wolf, poeta, autor, professor, conhecido por suas edições oficiais de novelas clássicas góticas de horror, inclusive Dracula, Frankenstein, The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde e The Phantom of the Opera assim como obras críticas sobre este tópico, além de traduções para o ídich de trabalhos que vão desde Isaac Bashevis Singer (1902-1991), escritor judeu-estadunidense, a Winnie-the-Pooh (O Ursinho Pooh, em português). É inegável portanto que ela não somente é judia e intelectual, como também está sempre disposta a discutir suas ideias com todo o mundo.

            É com este pano de fundo familiar, encorajada por seus pais, ativista política, desafiadora, bonita e inteligente que ela, através principalmente de seu livro The Beauty Myth: How Images of Beauty Are Used Against Women ( em português: O Mito da Beleza (Ed. Rocco), se tornou referência do que acabou sendo chamado de a terceira onda do feminismo ao analisar a exigência das mulheres ao poder político e social.

            Tal como ela é, Naomi foi contestada e lhe disseram na Sinagoga: “Leia a Bíblia! D-us deu a terra de Israel para o povo judeu.” E então disse ela, “eu poderia ser crucificada por isto, mas comecei a declarar — há pouco tempo (aterrorisada, tremendo) em resposta a uma recepção calorosa numa sinagogoa em Los Angeles: ‘Na realidade, se vocês lerem Gênesis, Êxodus e Deuteronômio em hebraico – como eu faço – verão que Deus não “deu” Israel para os Judeus/Israelitas’”. É importante lembrar aqui e enfatizar que os cristãos e muçulmanos que abusam de suas religiões, em busca do poder, também cometem crimes com base em leituras deturpadas de seus livros sagrados, usando-os de forma fundamentalista recriminável.

            Voltando a Naomi, ela continua seu discurso dizendo: “Nós, como judeus, somos educados com o credo de que ‘Deus nos deu a terra de Israel no Gênesis e que etnicamente somos o povo escolhido’, mas na realidade, e eu não queria acreditar em meus próprios olhos quando vi isto, e conferi minha leitura com grandes sábios e eles o confirmaram igualmente, na realidade os ‘pactos’ de Deus no Gênesis, Êxodus e Deuterononômio, com o povo judeu não é sobre etnia e não se trata de acordo, e é, isto sim, sobre o modo de comportamento”.

            De fato, como afirma Naomi, mais uma e outra vez, “[N]a linguagem do “pacto” Deus nunca disse: ‘Eu lhes darei, ó etnia israelita, a terra de Israel’, mas Ele disse algo muito mais radical – muito mais subversivo – muito mais parecido com Deus. Ele disse: ‘Se vocês visitarem aqueles que estão presos … fizerem atos de misericordia para a viúva e o órfão … acolherem o estranho entre vós … pacientarem o doente … fizerem justiça e amarem a misericórdia e cumprirem várias outras tarefas … aí então vocês serão meu povo e esta terra será sua terra.’”

            “Então, afirma Naomi, ‘meu povo’ não é etnicidade, é transacional e, não se é ‘povo de Deus’ por nascimento, mas pela forma de comportamento, isto é pela eticidade, gentileza e justiça. Por isto, deixaremos de ser ‘povo de Deus’ quando deixarmos de ser éticos, gentis e justos”.

            E continua Naomi: “qualquer um um que é ético, gentil e justo é, de acordo com Deus em Gênesis ‘povo de Deus’ e o ‘contrato’ para ‘dar’ a nós Israel é condicional – podemos viver na terra de Deus se formos ‘povo de Deus’ conforme segue: justos, misericordiosos, compassivos.”

            Naomi também afirma mais: “Nunca jamais está dito que esta é sua terra exclusiva; até mesmo quando passagens determinam fronteiras ‘geográficas’ como se Deus fizesse tal coisa, nunca está dito que esta é exclusivamente sua terra.”

            A briguenta Naomi diz mais: “Nunca está dito, Eu lhes darei esta terra somente para vocês” e continua “lembrem-se eles eram nomades que haviam deixado a escravidão no Egito e estavam vagando em voltas no deserto e na maioria das passagens é-lhes dito: acomodem-se aqui, mas nunca é dito acomodem-se aqui com exclusividade; de fato, mais e mais vezes fala-se em acolher bem os ‘zarim’ – que se traduz como ‘estrangeiros’, mas também pode ser traduzidas como ‘povos/tribos que não são vós’ – em vosso meio.”

            O discurso de Naomi na Sinagoga termina com uma exclamação: “Isto fundiu minha cabeça e espero que funda a sua.”

José Farhat

25/12/2014

Anúncios

Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
Esse post foi publicado em Falácias em torno de Israel e do Sionismo e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s