Respeito tem quem por ele faz

                  Reda Mansour, novo embaixador de Israel, em sua entrevista à FOLHA, em 12/09/14, afirma que Brasil e Israel precisam ter um diálogo mais respeitoso; esquecendo-se de que a Casa de Rio Branco sempre praticou o respeito em suas relações diplomáticas. Levantar este assunto só serve para desviar a atenção, mais uma vez, do âmago da questão – aquela que interessa aos brasileiros de origem árabe e aos palestinos – que é o condenável e persistente comportamento de Israel.

                O Hamas, lembremos ao Embaixador, luta contra a ocupação de sua terra por gente alheia à região e é um partido que ganhou as eleições em processo democrático internacionalmente supervisionado por pessoas e organizações insuspeitas, mas Israel e seus aliados e patrocinadores não reconheceram o resultado numa demonstração que renega a própria democracia.

             Como a escola israelense que forma diplomatas não ensinou o que significa democracia, lembramos a Mansour que democracia é um sistema conduzido e controlado por cidadãos de um país e que uma democracia é formada por representantes eleitos e requer que as medidas governamentais sejam votadas pelos referidos representantes eleitos ou pelo povo. A democracia, Embaixador, não tem caráter universal, é realizada e se faz cumprir de diferentes maneiras, desde a primeira democracia concebida pela Grécia Antiga em todos os países democráticos através do tempo e do mundo. Não basta bater no peito dizendo que Israel é uma democracia porque seus cidadãos elegem seus representantes. Para ser uma democracia, Israel deveria convidar a todos os seus cidadãos a participar em seu governo, inclusive os palestinos e deixar de alegar que se trata de um “estado judeu” relegando aqueles que não são judeus a cidadãos de segunda classe, numa prática de discriminação étnica. Para ser uma democracia, Israel deveria parar de praticar crimes de lesa-humanidade, não exclusivamente contra os palestinos (muçulmanos, cristãos ou ateus), mas também contra judeus de origem não asquenaze.

               Repetindo, para que fique bem claro, afirmamos que ao não reconhecer a votação democrática que deu vitória ao partido Hamas, considerando-o uma organização radical e até mesmo terrorista por Israel e Estados Unidos, estes países abandonam sua própria democracia e praticam o terrorismo de estado contra os palestinos que escolheram livremente seus representantes.

                O Embaixador afirma que os “israelenses vivem sob um perigoso ambiente em que foguetes estão chegando a todo momento” omitindo o fato de que os palestinos têm suas terras ocupadas há mais de seis décadas e vêm continuamente sofrendo agressões do estado que se diz democrático. Os palestinos foram mortos ou expulsos de suas propriedades senhor Mansour e se supõe que seus parentes lhe tenham contado o drama da nakba. As terras palestinas estão até hoje, contrariando os tratados internacionais, sob ocupação e seus proprietários, que não foram expulsos, estão sofrendo humilhações sem trégua e não fica bem para um diplomata negar verdades.

             É insignificante o fluxo comercial entre o Brasil e Israel e há pressão sobre o governo brasileiro para que assim continue. O governo do Rio Grande do Sul entendeu isto e cortou pela raiz contratos de cunho militar pretendidos por Israel, numa tentativa de se introduzir e espionar os interesses brasileiros que não lhe dizem respeito. Já com os países árabes o comércio vem crescendo em ritmo acelerado e os árabes têm seus defeitos, mas jamais cometeram crimes contra a Palestina e os palestinos. Os brasileiros estão boicotando, como acontece com os povos de todo o mundo, os produtos provenientes de terras palestinas ilegalmente ocupadas, motivados por uma questão de justiça e coerência.

             Além de dizer que “a ONU é política” quando conta mortos e feridos palestinos vítimas da agressão israelense, o novo Embaixador, tal qual seu antecessor, diz que “a ONU dividiu a Palestina entre dois países, um árabe e outro judeu” o que é uma falácia, pois a Assembleia Geral das Nações apenas aceitou um relatório encomendado aconselhando uma partilha de terra alheia, sem consulta à população proprietária das terras doando mais da metade da Palestina histórica a estranhos à região. O diplomata deve saber que a AGNU não tem poderes para dividir a terra de ninguém, mas no máximo recomendar assunto votado ao Conselho de Segurança. Este órgão da ONU não tomou conhecimento, pois os sionistas temiam o veto de algumas das cinco potências membros permanentes e correram e declararam a independência sem a ela ter direito.

             O Embaixador nega sua profissão ao dizer que os “israelenses querem a paz e querem viver com os vizinhos [e] se chegarmos a um acordo podemos mudar a fronteira, dar aos palestinos algum território alternativo”. Primeiro não quer a paz quem ocupa ilegalmente a terra dos outros e anda humilhando a seus vizinhos e prendendo crianças de até oito anos por jogarem pedras contra homens fortes e armados e, colocando-se em posição de força, ainda poder dar aos palestinos as terras que não são dos israelenses e sim dos próprios palestinos.

             É intolerável ouvir um israelense dizer que “a comunidade internacional deve dar uma resposta muito forte” ao Estado Islâmico quando igual a este Israel também deveria receber uma resposta às crueldades que comete contra os palestinos “em genocídio sistemático”. Nada é igual ao Estado Islâmico que Israel.

             Cinismo tem limites e respeito tem quem por ele faz!

José Farhat é cientista político e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe.

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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