Saudade da Praça Tahrir

            Os protestos explodiram através das universidades egípcias, e em todo o país, após o anúncio de que uma Corte havia sentenciado a exclusão das acusações criminais contra Hosni Mubarak, o presidente cuja expulsão do comando do Egito, em 2011, havia criado esperança de uma era de abertura política.

            Centenas de estudantes reunidos na Universidade do Cairo balançaram cartazes de Mubarak atrás de grades, reivindicando “a queda do regime”, o famoso grito da Primavera Árabe que fez tremer governos desde a Tunísia até os países do Golfo Arábico/Pérsico na primavera de 2011. A Polícia compareceu e se posicionou nas portas da Universidade para barrar os estudantes de sair e levar a demonstração às ruas. A segunda mais importante demonstração estudantil ocorreu na Universidade de Zagazig, no Delta do Nilo. Onze estudantes que queriam entrar no campus foram presos. Há notícia não confirmada de que o operariado estava pronto para ir às ruas tão logo os estudantes saíssem.

            A centelha desta vez, já que a Primavera Árabe não morreu no Egito e nem tampouco em outras terras árabes, foi o pronunciamento da Corte egípcia isentando Mubarak de todos os crimes cometidos durante os 30 anos de seu governo. A decisão judicial foi vista pelos ativistas egípcios, estudantes e operários à frente, como o mais recente sinal de que os direitos adquiridos durante a revolta estavam sendo pisoteados por uma nova ditadura.

            O maior indício de que a Primavera Árabe está viva e florescendo é que já na noite do sábado (29/11/14), o mesmo dia da decisão vergonhosa da Corte, cerca de 1.000 pessoas já tentaram entrar na Praça Tahrir – o coração simbólico da revolta que expulsou Mubarak do poder. As forças especiais, pertencentes às forças armadas e à polícia, fecharam as estações do metrô das proximidades, as pontes do centro e as ruas vizinhas e atuaram criminosamente matando dois manifestantes desarmados e ferindo nove.

            Um empresário egípcio que viveu ao longo do período militar de Mubarak descreveu para mim o regime do oficial da aeronáutica como “o período áureo da autocracia e capitalismo de compadrio” e aduziu: “Esta não é opinião exclusiva minha, é aquela de todo o empresariado, dos operários e dos universitários, como demonstraram as eleições, as únicas livres, na história de nosso país”. De fato, esta é a opinião de todas as pessoas com as quais conversei naquela ocasião na Praça Tahrir.

            A Irmandade Muçulmana trabalhou durante anos as suas bases, nas cidades e no campo, nas fábricas e nas universidades e ganharam as eleições. O presidente eleito, no entanto, não soube ser fiel aos ideais que o elegeram e se confundiu no atendimento das reivindicações populares com os das aves de rapina de sempre; não agradou a ninguém e a caserna, mandando no país e se locupletando com o poder desde a derrubada do regime corrupto e vendido da monarquia se aproveitou, fingiu atender às reivindicações do povo egípcio e Abdel Fattah al-Sisi, mais um militar, derrubou o presidente eleito Mohamed Mursi e forçou a sua eleição para a presidência para que os militares continuassem acumulando poder e dinheiro e preferissem atender aos interesses estrangeiros e não os de seu próprio povo.

            Os novos militares no poder prenderam Mursi e milhares de seus apoiadores, membros da Irmandade Muçulmana, sentenciando milhares deles à morte em julgamentos coletivos sem direito de defesa.

Enquanto isto as figuras da era Mubarak que juraram apoio a al-Sissi e seu bando armado, foram liberados das prisões, para que continuassem a escamotear os lucros que os militares acumularam através dos regimes anteriores. A decretação de leis cerceadoras de todo tipo de liberdade fizeram com que os ativistas tivessem certeza de que o antigo regime estava de volta.

A campanha de chamada à resistência, uma das importantes armas que derrubaram o regime de Mubarak está de volta nas redes sociais, a todo vapor.

Uma lei à beira de aprovação pelo Parlamento egípcio é motivo de preocupação dos ativistas egípcios. A lei limita enormemente, quase proíbe, candidatura às próximas eleições legislativas a filiados a partidos políticos, encorajando candidaturas individuais, o que nada mais é do que abrir as portas para candidaturas do antigo regime.

Enquanto os militares e seus asseclas tramam contra o povo, o povo vai esquentando a Primavera Árabe.

José Farhat

30/11/2014

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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