A terra é azul

            Em 12 de abril de 1961, Iuri Alekseievitch Gagarin,  o primeiro cosmonauta gritou do espaço, de uma altitude de 300 km acima do planeta, para sua base terrestre: “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível.” O tenente da força aérea soviética, filho de um agricultor, estava concluindo um feito extraordinário, mas não estava dizendo algo inesperado.

            Nestes dias atuais, outro russo chamado, Vladimir Vladimirovitch Putin, presidente da Rússia, dona de uma base naval na costa síria e muito envolvida na luta armada que destroi a Síria há três anos, vem repetindo sem cessar algo bastante esperado para o chamado Ocidente. Putin fez uma advertência, por escrito, quando os representantes das cinco potências com poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas não conseguiram chegar a um acordo, na noite de quarta-feira, 11/09/2013, sobre um projeto de Resolução para a Síria.

            O presidente russo, na mesma noite, escreveu um artigo publicado no site de The New Times no qual responsabilizou os rebeldes que atuavam em território sírio pelo suposto uso de armas químicas no qual declarou: “Temos todos os motivos para acreditar que [o gás químico] foi utilizado não pelo Exército sírio, mas por forças da oposição, para provocar uma intervenção de seus poderosos apoiadores internacionais”. Estes teriam se colocado “do mesmo lado que os fundamentalistas”, adicionou. Os Estados Unidos, a Rússia e todos os Estados-membros das Nações Unidas “deveriam aproveitar” o fato de que “o governo sírio está disposto ao controle internacional e posterior destruição de suas armas químicas” escreveu o chefe do Kremlin e alertou que um ataque militar contra Damasco, sem um mandato das Nações Unidas poderia levar ao desmantelamento da ONU, provocando “uma nova onda de terrorismo” e desestabilizando toda a região. Além disso, um ataque “levaria somente a novas vítimas inocentes”, advertiu Vladimir Vladimirovitch.

            Se toda a humanidade aceita as palavras de Gagarin, alguns não quiseram ler as de Putin e vão sofrer as consequências de seus atos. Deixando de lado a mídia que propositadamente deturpou o que disse a presidenta Dilma Rousseff em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 25/09/2014, quando ela disse que o Brasil não aceita intervenção sem mandato da ONU e a imprensa abriu manchetes do tipo: “Dilma é contra ataque aos terroristas” vejamos o que lamentavelmente vem acontecendo.

            A Frente Nusra, afiliada síria da Al-Qaida, está sofrendo pressão crescente de seus próprios membros em favor de uma reconciliação com seu rival Estado Islâmico para que os dois confrontem o inimigo comum após os ataques aéreos empreendidos esta semana pelos Estados Unidos que atingiram ambos os grupos.

            Esta ação exigirá certamente uma manifestação de lealdade ao Estado Islâmico, que estabeleceu um califado em áreas sob seu controle, na Síria e no Iraque, o que significará o fim da Frente Nusra, segundo alguns se queixam dentro do grupo.

            Estado Islâmico e Nusra têm a mesma ideologia retrógrada e as mesmas crenças fundamentalistas islâmicas, mas quando se trata de poder Abu Bakr al-Baghdadi (chefe do estado islâmico), Ayman al-Zawahiri (al-Qaida) e Abu Muhammad al-Gulani (Nusra) largam a religião deturpada e o credo corrompido e lutam por todos os meios para derrotar os demais servindo aos interesses das grandes potências.

            Os Estados Unidos e seus sequazes estão bombardeando as posições do Estado Islâmico, mas não se pode confiar que não possam mudar de lado, como já o fizeram antes com al-Qaida e a Nusra, é tudo questão de petróleo, de quem o produz e de quem o compra.

            O mundo ouviu Gagarin e já começa a perceber o que diz Putin e, acima de tudo, a Síria continua a lutar contra todos e vencendo.

José Farhat

18/11/2014

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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