Desviando a atenção do massacre para a semântica

          Sempre que erram, os sionistas procuram desviar a atenção. Diga-se que eles ocupam a terra da Palestina e lhe dirão que eles são os donos da terra e os ocupantes são os árabes. Critique-se o cerco de Gaza e responderão que estão defendendo seu território dos ataques do Hamas; quando se sabe que a maioria dos habitantes do enclave da Palestina ocidental são os habitantes das terras vizinhas expulsos pelos sionistas. Eles defendem o cerco, mas calam quanto à ocupação da terra contígua e expulsão de seus habitantes.

          É o caso do artigo de Claudio Lottenberg: Antissionismo é Antissemitismo (FOLHA 29/07/2014) só pode ter uma finalidade. É uma tentativa de desviar a atenção mundial crescente para o que acontece principalmente em Gaza e em toda a Palestina. Interessam o massacre em Gaza e os crescentes atos desumanos na Cisjordânia não a semântica. O mundo está contando mortos e assistindo a destruições e não folheando dicionários à busca de dois vocábulos. Os mortos em números desproporcionais é o que hoje se lamenta. O senhor Lottenberg deveria se alarmar quando o primeiro ministro de Israel promete destruição total, pois isto soa como “solução final”.

          O antissionismo nega, desaprova, condena o movimento internacional judeu que resultou na formação do Estado de Israel, em maio de 1948, e sua posterior evolução, começou com falácias e perdura com crimes contra a humanidade. A falácia de “uma terra sem povo para um povo sem terra” não é problema dos palestinos e é direito de qualquer grupo procurar uma terra para se estabelecer, desde que não interfira e negue o mesmo direito a outros povos.

          O sionismo não se confunde com o Judaísmo, assim como a al-Qaida não é o Islã. Ambas são manifestações políticas que abusam da religião para subjugar a outros e tomar-lhes o que lhes pertence, de fato e de direito, em sequências de crimes que são manchetes e ninguém ignora.

          Declaro-me antissionista porque este movimento me toca de perto e, para que o senhor Lottenberg saiba das minhas razões, uso de boa vontade para explicar a principal delas. O ramo palestino de minha família formava a quase totalidade dos habitantes de sua aldeia ancestral, de nome Tarbikha, na Galileia. A aldeia sumiu do mapa quando chegaram as gangues sionistas, matando, derrubando e arrasando tudo, até oliveiras e gado. Alguns conseguiram se refugiar no Líbano. Os tarbikhanos que restaram podem demonstrar sua ligação com a terra que lhes foi tomada, os sionistas que os atacaram, e até figuras ilustres de hoje dentre eles, não consegue comprovar que ascendente seu residiu dentro de um círculo com raio de 200 km de Jerusalém durante os últimos 200 anos. Ser antissionista é pouco!

          Já antissemita não posso ser. Minha família pertence ao grupo étnico e linguístico o qual se atribui Sem, filho de Noé, como ancestral, que compreende hebreus, assírios, aramaicos, fenícios e nós árabes. Só que há em minha família pessoas que de cor e salteado recitam os nomes dos ancestrais até perto de quando Saladino nos expulsou de Alepo, no século XII. Para evitar constrangimento não pedirei aos sionistas que façam o mesmo.

          Isto dito fico livre para responder alguns tópicos do artigo do senhor Lottenberg, até mesmo por ser este um direito que nossa Constituição me garante.

          A Palestina não foi dividida pela Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), esta apenas aprovou e votou um parecer de partilha da Palestina. A AGNU deveria submeter o ato ao Conselho de Segurança da ONU (CSNU), o que não fez, para evitar o veto de alguma das grandes potencias. De qualquer forma, a leitura da Carta das Nações revela que nem a AGNU e nem tampouco o CSNU têm poderes para dividir a terra de alguém e presenteá-la a terceiros. Seria um absurdo se tivessem.

          Aquele que diz reivindicar a “autodeterminação nacional do povo judeu em sua terra ancestral” deveria lembrar que todo povo tem estes direitos, que não são privilégio de apenas um povo. Os palestinos têm também os mesmos direitos sem necessidade de apelar para ancestral, pois eles já lá estavam quando chegaram os sionistas.

          Os palestinos jamais sofreram ou assistiram em sua terra “a dramáticos e trágicos deslocamentos populacionais”, o que houve de dramático e trágico foram os crimes cometidos contra eles pelos sionistas que se deslocaram para a Palestina.

          Para que se tenha uma terra para dois povos ou duas terras para dois povos, não vem ao caso aqui, bastaria que Israel não torpedeasse todas as negociações tentadas durante os últimos decênios, inclusive a última.

          Os palestinos ficariam felizes, e muitos israelenses também, se o senhor Lottenberg largasse os dicionários nas estantes e reparasse nos atos criminosos que os sionistas estão cometendo e que as Nações Unidas qualificaram de crimes de guerra.

José Farhat

31/07/2014

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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