Liberdade para Pollard et caterva

Apresentação:

Este artigo foi escrito em 16/07/2005 e sua republicação é essencial para se entender a razão da insistência do governo do Estado de Israel, em condicionar a sua continuação na tentativa de estabelecer negociações de paz com o Estado Palestino à concessão, pelos Estados Unidos da América, cujo governo é o patrocinador da iniciativa de paz, da liberdade para o traidor estadunidense condenado a prisão perpétua, em favor do estado hebreu: Jonathan Jay Pollard.

 São Paulo, 06/04/2014

Jose Farhat

Em Jerusalém, ao visitar o Muro das Lamentações[1], na primavera de 2005, o mais sagrado local do judaísmo, a senhora Laura Welch Bush[2], então primeira-dama dos Estados Unidos, foi confrontada por israelenses irados, exigindo “Liberdade para Pollard, já!” É pouco provável que ela não soubesse de quem se trata, apesar do espanto que demonstrou e foi visto nas fotografias estampadas nos jornais.   Não tivesse tal capacidade de entender o que ocorre e não discursaria na segunda etapa de sua viagem, quando chegou ao Egito, louvando o corajoso passo dado pelo Presidente Husni Mubarak[3], ao planejar eleições multipartidárias, enquanto ali, ao alcance de sua vista, manifestantes eram presos por protestarem contra a não aceitação de candidaturas independentes.

O caso Pollard é uma viva confirmação daquilo que veio à tona com a divulgação de cópia de relatório elaborado pela Central Intelligence Agency (CIA), intitulado “Israel: Foreign Intelligence and Security Services”, de fevereiro de 1979, encontrado em novembro do mesmo ano, por militantes iranianos que ocuparam a Embaixada dos Estados Unidos em Teerã (entre os quais o Governo Bush[4] insiste em dizer que estava o recém-eleito Presidente do Irã: Mahmud Ahmadinejad[5], apesar de a maioria dos reféns estadunidenses não o terem identificado na fotografia que plantaram na imprensa mundial).   A autenticidade do documento foi reconhecida pelos estadunidenses.   O relatório sublinha que os países árabes são o alvo primeiro da coleta de informações dos serviços de espionagem de Israel, mas “a coleta de informações sobre inteligência científica nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos são os alvos, segundo e terceiro”.   O relatório prossegue: “Os israelenses devotam considerável porção de suas operações secretas à obtenção de informações científicas e técnicas [e] isto inclui tentativa de penetrar em certos projetos de defesa dos Estados Unidos e de outros países ocidentais.”

Esta revelação fez com que o jornal The Washington Post comentasse na época: “As agências de inteligência israelenses chantagearam, grampearam, gravaram e subornaram funcionários públicos do governo dos Estados Unidos num esforço de obter segredos sensíveis e informações técnicas.”

 Paul Findley[6], em seu livro “Deliberate deceptions: facing the facts about U.S. – Israeli relashionship” (1993) sublinha que Israel rotineiramente espionou os Estados Unidos por décadas e que a prisão e condenação do espião israelense, estadunidense de nascimento, Jonathan Jay Pollard[7] e sua mulher Anne Henderson Pollard[8], em 4 de março de 1987 é tão somente a mais dramática evidência das atividades de Israel contra os Estados Unidos. Réus confessos, para evitar a pena de morte, ele foi condenado à prisão perpétua e ela a cinco anos (tendo sido liberada após cumprir dois anos e meio) por terem passado para Israel informações secretas sobre os alvos nucleares dos Estados Unidos, segredos estes que o Primeiro Ministro israelense Yitzhak Shamir[9], em plena guerra fria, passou para Moscou, não se sabe a troco de quê.   Pode-se afirmar, no entanto, que tudo se poderia esperar dele, pois enquanto a Alemanha nazista mandava os judeus para as câmaras de gás, ele negociava com a Embaixada alemã em Ancara o apoio alemão contra a ocupação britânica na Palestina.

Durante os dezoito meses que Pollard confessou ter espionado para Israel, enquanto ocupava um posto de analista civil na sede da Marinha dos Estados Unidos, ele roubou mais de mil documentos secretos, mais de oitocentos deles classificados como altamente secretos, alguns destes documentos com mais de cem páginas cada, a maioria dos quais consistindo de detalhados estudos analíticos com cálculos, gráficos e fotografias tiradas de satélites e outros mais continham detalhes das posições dos navios de guerra estadunidenses, suas táticas navais e operações de treinamento.   Não bastassem, os documentos surrupiados continham análises do sistema soviético de mísseis e a forma como os Estados Unidos coletavam suas informações, completinhas com indicações para localizar os agentes estadunidenses em território soviético e seus espiões locais.   Os documentos revelavam os nomes dos estadunidenses autores dos estudos, transformando-os em alvos vulneráveis dos serviços secretos.

Pelo volume e importância dos documentos, suspeita-se até hoje que Pollard tinha dois ou mais estadunidenses altamente posicionados ajudando-o e que também cometeu crime de formação de quadrilha.

 Caspar Willard Weinberger[10], Secretário de Defesa do Governo Reagan (de 1981 a 1987) informou posteriormente que o roubo foi tão extenso a ponto de a correção dos sistemas de segurança e a neutralização das operações expostas terem custado entre 3 a 4 bilhões de dólares.

A demonstração em Jerusalém, diante da Primeira-dama, foi um dos episódios de uma campanha iniciada por orientação do governo israelense desde 1988 e que continuou sem interrupção de todas as formas que a fértil imaginação israelense pode conceber.   Sem resultado.

Pollard recebeu a nacionalidade israelense em 1985 e sua mulher vive hoje  Israel a custa de entidades que pagam suas despesas a título ‘humanitário’.

Pollard não é o único cidadão estadunidense que cometeu estes crimes, pois a lista de roubos é extensa.   Um sujeito ligado ao Estado de Israel foi pego tentando vender equipamento avaliado em 2,5 bilhões de dólares ao Irã, contrariando a política estadunidense de cerco à República Islâmica; outro tentando embarcar para Israel componente de detonadores de bombas nucleares, destinados a enriquecer o arsenal israelense, conseguidos por métodos semelhantes, contrariando os acordos internacionais que regem a matéria; mais um terceiro tentando comprar tecnologia para a fabricação de canhões para tanques e bombas cluster, provavelmente para atacar civis em territórios ocupados; além da apropriação de uma verba militar de 40 milhões de dólares, um roubo puro e simples.

 Mas como as trapaças não têm fim e o Espionage Act (Lei de Espionagem dos EUA) não pode caducar, o jornal israelense Haaretz de 16/06/2005, estampa artigo de Nathan Guttman, enviado de Washington, intitulado “Justice Department to indict two AIPAC staffers under U.S. Espionage Act”.   AIPAC é a sigla da famosa entidade de lobby a favor de Israel denominada American Israel Public Affairs Committee.   Os dois espiões acusados são Steve Rosen e Keith Weissman, ambos até pouco tempo atrás exerciam altos cargos na AIPAC.   O crime é o de sempre: envolvimento no recebimento de documentos secretos, neste caso específico, comprados do funcionário do Pentágono Larry Franklin, transferindo-os para o representante de um país estrangeiro, o diplomata Naor Gilon, da Embaixada de Israel em Washington.

 A campanha contra a condenação de Julius e Ethel Rosenberg[11], espiões nucleares a favor da União Soviética não cessou, nem mesmo depois da execução dos dois na cadeira elétrica, na prisão de Sing Sing, pois a tentativa de inocentá-los continuou até mesmo após a queda da União Soviética e a publicação de documentos secretos que os implicava.   É um exemplo de persistência.

 Os crimes de Israel e dos sionistas certamente continuarão e outros relatos virão, pois como diz o ditado árabe, “a corda está na carretilha” e a Primeira-Dama estadunidense, de plantão lá pelo ano 2023, será confrontada por manifestantes pedindo “Liberdade para Rosen, Weissman, Franklin e Gilon, já!”

 José Farhat

16/07/2005

[1]O Muro das Lamentações, ou Muro Ocidental, é o segundo local mais sagrado do judaísmo, atrás somente do Santo dos Santos no Monte do Templo.

[2]Laura Lane Welch Bush é a esposa do 43º presidente dos Estados Unidos George Walker Bush.

[3] Muhammad Hosni Said Mubarak, é um militar egípcio que governou seu país de 14 de outubro de 1981 a 11 de fevereiro de 2011, quando foi derrubado pelo povo egípcio, que se levantou contra a continuidade de seu governo ditatorial, entreguista e corrupto.

[4] Trata-se do governo de George Walker Bush, que levou seu país a várias guerras fracassadas, cujo governo durou de 2001 a 2009. É filho do também presidente George H. W. Bush.

[5]Mahmoud Ahmadinejad, foi presidente do Irã de 2005 a 2013 e que certamente não foi o melhor dos presidentes de seu país pós- revolução e estabelecimento da República Islâmica.

[6]Paul Findlley, 93 anos, foi membro da Câmara dos Representantes dos Estados (deputado federal) durante 11 mandatos, de 1961 a 1982. Talvez tenha perdido as últimas eleições devido à sua intransigente defesa da Palestina e dos palestinos e crítica a Israel e do apoio de seu país ao estado sionista. É autor de várias obras sobre o assunto.

[7] Jonathan Jay Pollard, nascido em 07/08/1954, em Galveston TX, EUA, cidadão estadunidense analista civil da Defesa foi sentenciado a prisão perpétua em 1987 por ter vendido informação classificada como altamente secreta a Israel. Apesar de o governo israelense ter demonstrado embaraço quando de sua detenção, acredita-se, pela insistência israelense em libertá-lo, que o processo e a condenação não revelaram tudo aquilo que foi repassado e que o governo de Israel teme que sejam revelados.

[8] Anne Henderson Pollard viveu muitos anos com Jonathan Jay Pollard e somente em 1985 casou-se com este e passou a participar de sua espionagem contra os Estados Unidos, a favor de Israel. Foi condenada a poucos anos de prisão, divorciaram-se e vive atualmente em Israel.

[9] Yitzhak Shamir(1915-2012), nascido Icchak Jeziernicky, na atual Bielorússia, foi um político israelense, membro do partido conservador Likud, tendo sido primeiro-ministro de Israel por duas legislaturas. Terrorista, foi integrante do Lehi, grupo armado sionista que operava clandestinamente na Palestina Mandatária entre 1940 e 1948. Shamir foi um dos autores intelectuais do assassinato do diplomata suéco Conde Folke Bernadotte (1895-1948), nomeado pelas Nações Unidas para mediar o conflito entre árabes e judeus em 1948, no final do Mandato Britânico da Palestina, talvez o primeiro torpedeamento sionista de negociações entre israelenses e palestinos.

[10] Caspar Willard Weinberger (1917-2006) foi secretário de defesa dos Estados Unidos de 1981 a 1987. Foi redator de um extenso relatório a respeito do Caso Pollard a partir do qual o assunto ficou considerado altamente secreto. Foi implicado confesso no caso Irã-Contras, mas perdoado dias antes do seu julgamento.

[11] Julius Rosenberg (1918-1953) e Ethel Rosenberg (1915-1953) foram os primeiros civiís estadunidenses condenados à morte e executados, por espionagem contra os Estados Unidos, a favor da URSS.

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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