Uma mulher decidida e um moleque danado

            Falemos hoje de aviação. Pesquisando para comemorar o primeiro voo solo de Amelia Earhart, de Hawaii à Califórnia, em 11 de janeiro de 1935, distância mais longa que aquela que separa os Estados Unidos da Europa, pousei na Encyclopaedia Britannica e acabei voando na lembrança de minha própria ligação com a aviação, desde o dia da chegada do primeiro avião que pousou em águas de Rio Branco, no Acre, um ano e quatro meses após o voo de Earhart, o que me levou ao site Alma Acreana onde encontrei alguns detalhes deste último fato histórico.

             A narrativa do acontecimento pelo site Alma Acreana mereceu alguns reparos e escrevi para os editores do site e eles publicaram a minha versão sobre quem primeiro gritou ao ver um avião no céu, um pontinho no horizonte.

             Um primeiro avião, da estadunidense Panair, fracassou numa tentativa de amerissagem em Rio Branco e, meses depois, a companhia alemã Condor teve sucesso.

               Era o dia 5 de maio de 1936 quando eu, nos meus 8 anos e 7 meses, gritou olhando para o horizonte: “Lá vem ele” e o hidroavião Junker-W-34, monomotor, apelidado de Taquary, amerissou “com dois botes de alumínio pendentes de seu delgado corpo e com asas largas e compridas no Estirão de Bagé” relata o Alma Acreana. Seu prefixo era PP-CAP. Larguei a mão de meu irmão Hechem e fui pulando até a beira do rio Acre e, moleque danado – que surripiava (para mim era pedir emprestada para aprender a remar) canoas dos seringueiros que vinham entregar borracha para seu pai – pulou em cima do bote, antes mesmo de um soldado amarrar o avião num toco de madeira afundado à margem. A impressão com a qual fiquei e guardo sempre, além obviamente do avião, é como era gigante o piloto alemão Frederico Hoepken e como minúsculo era eu com meus poucos palmos de estatura; comparo-me hoje ao Petit Nicolas de frente para os adultos que fizeram parte de sua vida em casa, na rua e na escola.

             A aventura aeronáutica acreana não ficou por aí e, junto com Otávio Bonfim de Oliveira, exemplo de garoto bem comportado, construímos um avião com duas caixas, nas quais eram importadas do outro Brasil para o Acre as cervejas produzidas em Belém, e duas folhas de zinco formando as asas. Otávio arrumou um quepe e se tornou o comandante. O avião decolava voava, voltava amerissava ou pousava, para nós, enquanto não saia do chão, nos baixos da residência de Dr. Mário de Oliveira.

             Minha vida seguiu seu rumo e, quando cresci, vendi aviões comerciais durante 12 anos, já tinha um brevê do Líbano e tirei outro aqui mesmo, no Campo de Marte em São Paulo, e continuo, aos 86 anos, interessado em tudo o que se refere a avião e aviação. Para que se tenha uma ideia do quanto estou ligado, passei o dia chateado porque uma transportadora aérea da Arábia Saudita comprou uma dezena de aviões Bombardier do Canadá preterindo os aviões da Embraer que tanto sucesso têm apresentado na região; reminiscência de vendedor que perdeu uma venda, talvez.

             Voltemos, e já é hora passada, à primeira homenageada de hoje, a esta mulher decidida e corajosa que foi Amelia Earhart (nome completo: Amelia Mary Earhart), nascida em 24 de julho de 1897, no estado do Kansas, nos Estados Unidos, e desaparecida no dia 2 de julho de 1937 perto da Ilha Howland, no oceano Pacífico Central. Esta aviadora estadunidense, afirma a Britannica, foi “uma da mais celebradas em todo o mundo, sendo a primeira mulher a voar solo sobre o Atlântico”.

             Earhart mudou-se de cidade em cidade frequentemente, com sua família, e completou o colegial em Chicago em 1916. Foi enfermeira militar no Canadá durante a I Guerra Mundial e assistente social na Denison House, em Boston, depois da guerra.

             Contrariando o desejo de sua família, aprendeu a voar em 1920-1921 e em 1922 comprou seu primeiro avião, um Kinner Canary de segunda-mão, biplano de dois lugares, pintado de amarelo vivo que Earhart apelidou de “Canário”, com o qual registrou o primeiro recorde feminino em altitude, voando a 14.000 pés (4.267,2 m).

             Earhart tornou-se, entre 17 e 18 de junho de 1928, a primeira mulher a voar sobre o Atlântico, entre os continentes que o oceano separa, americano e europeu, mas era somente como passageira em um avião Fokker trimotor, pilotado por Wilmer Stultz e Louis Gordon. Ao voltar, e no mesmo ano, publicou suas memórias deste voo num livro intitulado 20 Hrs., 40 Mi, referência ao tempo de duração do voo.

             Nem seu casamento, em 1931, com o publicitário George Palmer Putman, impediu-a de continuar sua carreira sob o seu nome de solteira corroborando o que me disse um velho lobo do ar certa feita no aeroporto de Bauru onde fui treinar: “Voar, é cachaça”.

             Mulher determinada e para justificar a fama que lhe trouxe o voo sobre o Atlântico, ela entrou na cabine de seu Lockheed Vega e voou sozinha, de Newfoundland para a Irlanda, um voo que estabeleceu o recorde de tempo de 14 horas e 56 minutos. Depois deste voo, ela escreveu outro livro: The Fun of It (1932).

             Intrépida, ela empreendeu uma série de voos através dos Estados Unidos, o que a colocou à testa de um movimento que encorajou o desenvolvimento da aviação comercial.

             Como era de se esperar, ela também tomou parte ativa no esforço de abrir a aviação para as mulheres e acabar com a dominação masculina no setor; o que de certa forma as mulheres ainda lutam e quando conseguem brilham.

             Foi em 11 de janeiro de 1935 que ela fez o voo solo a que nos referimos no início deste artigo, de Hawaii à Califórnia, superando, devido à maior distância o seu voo da América à Europa. Corajosa, ela foi a primeira pessoa a ousar tomar esta rota perigosa onde muitos morreram e ter sucesso.

             Não contente com as realizações, até então, a arrojada Earhart, acompanhada de Fred Noonan como navegador, ela iniciou, em 1937, a bordo do bimotor Lockheed Electra, para um voo ao redor do mundo. Completados mais de dois terços de distância de seu objetivo, seu avião desapareceu no Pacífico central, próximo à Linha Internacional da Data.

             Seu desaparecimento misterioso levantou muitas questões e especulações a respeito dos acontecimentos que o cercaram, mas a única verdade é que os fatos continuam desconhecidos.

             Hoje temos aviões que voam de qualquer lugar, percorrem continentes e voltam a pousar nos pontos de partida e voar para e de Rio Branco é comum, o que não tira a importância dos dois fatos aqui apontados.

 José FARHAT

11/01/2014

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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Uma resposta para Uma mulher decidida e um moleque danado

  1. Aélico Alves disse:

    Texto maravilhoso, adoro tudo sobre a aviação, obrigado e um grande abraço.

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