Duas mulheres filhas de generais

            Quando Henry Kissinger, Secretário de Estado dos Estados Unidos, entre outros crimes, ordenou a execução do golpe que planejara junto com os serviços secretos e as forças aramadas dos Estados Unidos e do Chile que resultou no Golpe Militar de 11 de setembro de 1973 matou a esperança mediata de um Chile socialista, sonho de chilenos e sul-americanos. A derrubada e assassinato do socialista Salvador Allende (1908-1973), fez com que o Chile vivesse 14 anos (de 1973 a 1990) de terror sob as mãos manchadas de sangue de Augusto Pinochet (1915-2006) tornado presidente-ditador, através do Decreto Lei Nº 806 editado pela junta militar (Conselho do Chile), autora do Golpe.

            Do Golpe participaram dois Generais da Força Aérea chilena: Fernando Matthei e Alberto Bachelet. O primeiro participou desde o planejamento até a execução do golpe e se tornaria membro da Junta Militar e tem no curriculo a mancha de ter assassinado, ou no mínimo, ordenado o crime contra o segundo que apesar de preso no dia do golpe foi torturado até morrer, leal que ficou a Allende e ao socialismo.

            As filhas dos dois: Evelyn Matthei e Michelle Bachelet, cada uma defendendo as bandeiras de seus respectivos pais, se enfrentaram em 17 de novembro, dias atrás, nas eleições presidenciais chilenas. Esperava-se a vitória no primeiro turno de Bachelet que obteve 46,68% dos votos contra os 25% de Matthei dos quais 10 pontos a mais do que previsto, creditados à pressão governamental sobre os eleitores. Uma miniaturização, pode-se dizer, da luta dos respectivos pais das duas candidatas que se conhecem desde crianças.

            Os socialistas chilenos esperam a vitoria de Bachelet no segundo turno no próximo dia 15 de dezembro.

            Os trabalhadores e estudantes prometem estar nas ruas após a declaração dos vencidos.

            De seu lado, a imprensa chilena demonstra surpresa por Michelet não ter vencido na primeira rodada. O diário La Tercera lançou na primeira página no dia seguinte às eleições: “Michelle Bachelet era tão favorita nesta eleição presidencial que a imprensa chilena parece pensar que sua vitória tem um gosto amargo, porque a socialista não ganhou as eleições no primeiro turno”. Desolado de seu lado, El Mostrador lança: “A tempestade Bachelet finalmente não passou”; e, responde em manchete o La Tercera: “… mas Matthei conseguiu subir para o segundo lugar”. Enquanto isto, El Mercurio reproduz declarações das duas candidatas, cada uma prevendo seu sucesso no próximo escrutínio. Já o The Clinic nota que o triunfo foi apesar de tudo um pouco “amargo”, “apesar do fato de Michelle Bachelet obter o dobro dos votos de Evelyn Matthei, ninguém destampou nenhuma garrafa de champagne”. Segundo El Mostrador: “O discurso de Matthei, logo após os resultados do primeiro turno, tinha não mais que uma centena de pessoas, todos funcionários públicos”.

            A leitura dos jornais pode ser resumida assim: “Michelle Bachelet deverá vencer no segundo turno”.

            O mais importante, no entanto, foi ouvir os trabalhadores e estudantes: “Estaremos nas ruas após a declaração da vencedora”. Para bom entendedor, poucas palavras bastam!

            A composição do Congresso mudou pois quatro líderes do movimento estudantil que empolgou o país em 2011 foram eleitos deputados neste 17 de novembro de 2013, e lá no Legislativo a presença dos trabalhadores é grande e, como canta Milton Nascimento: “Sei que nada será como antes, amanhã”.

            Para governar, Bachelet contará com a coalizão que a elegeu e obteve maioria na Câmara e no Senado. Esta mudança na composição das forças políticas chilenas e, no Senado, onde era defendido a ferro e fogo a manutenção do sistema econômico e político criado pela ditadura, veremos o sucesso de duas grandes reformas relativas à educação e ao sistema fiscal com facilidade e urgência. A reforma da Constituição, no entanto, dará mais trabalho.

            Que chore o Dr. Kissinger e seus sucessores e seus escravos que habitam entre nós, queremos mais mulheres no governo, e quanto mais à esquerda melhor!

José Farhat

19/11/2013

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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