Diálogo de mudos

O Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Forbes Kerry anda por aí, mundo afora, justificando o seu cargo. Visitou-nos, no Brasil, para justificar o injustificável ao dizer que a espionagem de seu governo contra o nosso país e nossos cidadãos, era necessária para combater o terrorismo; o mesmo que eles criaram ao patrocinarem Saddam Hussein e Usama Bin Ladin, para mencionar apenas duas pessoas. – que eles acabaram matando, como se joga um lenço de papel usado no cesto de lixo.

Kerry se esforçou, e sabe-se lá o que prometeu a palestinos e israelenses, para que sentassem à mesa de negociações. As chances de sucesso das negociações, iniciadas em uma reunião noturna, em Washington são mínimas e, por isto, talvez todos procurassem o abrigo de um esconderijo, na calada da noite, instados pelo fator vergonha para que parecesse que alguma ainda há. O sucesso vai depender em concessões de grande porte, dos dois lados; mas também em elementos críticos. Do contrário, o fracasso será uma repetição das tentativas anteriores. Sempre que se chegou a um tipo de consenso, Israel arranjou um meio de derrubar as esperanças; seria cansativo e inútil enumerá-los mais uma vez.

Custa acreditar que os dois que presidem um e outro lado, Mahmud Abbas pela Palestina e Benyamin Netanyahu por Israel, tenham vontade e poder para fazer com que as negociações atuais cheguem a um resultado positivo.  Eles começam sem uma proposta ou agenda e, apesar disto, declararam que só chegarão a resultados dentro de nove meses. É certamente um chute, ou melhor, um parto.

Abbas é politicamente fraco e falta-lhe apoio maciço, mas sobra-lhe desaprovação por parte do Hamas. O Hamas é, não se pode esquecer, o grande vencedor das eleições limpas que lhe deram a maioria dos votos, mas que não conseguiram governar porque os arautos da democracia condicionada, Estados Unidos e Israel, para quem se o voto não a favor de seus interesses não vale, não aprovaram sua vitória. Se o Hamas teve a maior quantidade dos votos que representa a maioria dos palestinos, é óbvio que consequentemente para as negociações serem sérias e aceitáveis é obrigatório que tenha a possibilidade de comprometer o Hamas.

Abbas conseguiu uma vitória parcial nas Nações Unidas, mas está morrendo perto da praia, devido à falta de apoio dos grandes mandantes de qualquer assunto relacionado com a Palestina e os palestinos: novamente Estados Unidos e Israel. Para que não falte justiça a Abbas, podemos afirmar que ele aspira de coração, a chegar a um acordo de paz, mas as circunstâncias lhe são desfavoráveis.

Nenanyahu tem a força, mas não tem a vontade de discutir algo no qual ele, com toda evidência dos fatos, simplesmente não quer e não crê: a solução de dois estados. Ele é um ideólogo de cuja perspectiva Israel tem que ser estabelecido na “terra de Israel” conforme consta na Bíblia e que inclui toda a Cisjordânia. Para ele, Israel é uma dádiva divina e nenhuma alteração pode ser dada naquilo que Deus deu. Israel para ele é desde o Rio Nilo até o Eufrates e este é, para Netanyahu, assunto encerrado, por mais que parcialmente minta para quem ele acha que deve ouvir. Ele simplesmente não está disposto a qualquer concessão, por menor que seja, a não ser que isto lhe garanta voltar atrás logo em seguida. Esperava-se que ele escondesse isto por algum tempo, mas logo que se iniciaram as negociações ele paralelamente autorizou a construção de perto de mil assentamentos novos em Jerusalém.

Se Abbas pudesse e Netanyahu quisesse uma negociação tranquila que levasse a uma paz duradoura, eles teriam que seguir alguns passos absolutamente indispensáveis.

O primeiro ponto deveria ser não irem à mesa de negociações armados, dos dois lados, de evidente falta de confiança recíproca e, a este respeito, Netanyahu já começou contrariando uma das reivindicações do lado palestino, que sempre foi o congelamento das novas construções em territórios ocupados.  Ainda há tempo para que Israel finja que se tratava apenas de uma demonstração de força. O lado palestino tem que ser muito ingênuo para aceitar ou esquecer o episódio. Do lado palestino haveria, pois o Hamas simplesmente não reconhece que Israel existe, mas poderá ir à mesa de negociações, com certeza. A objeção virá do lado israelense e estadunidense, pois sabem que com o Hamas não se brinca.

Um segundo ponto já foi de certa forma explicado acima: sem trazer o Hamas para as negociações o lado palestino, o povo palestino, jamais acreditará nas negociações e seus resultados. Sem o engajamento do Hamas, não haverá paz na terra das centenas de vilas e aldeias destruídas por Israel decênios atrás, até hoje ocupadas, a mesma terra dos hoje milhões de refugiados. Quem poderá acreditar numa negociação a qual, sem o Hamas, omitirá parte substancial dos palestinos a não ser Israel e os Estados Unidos? É claro que alguns países árabes estão do lado destes dois inimigos da causa palestina.

As negociações poderiam começar de forma mais objetiva, com base num documento a ser posto à mesa para discussão. Todos os estados árabes, sem exceção, assinaram, em reunião extraordinária da Liga dos Estados Árabes, uma proposta de reconhecimento unânime de Israel. O documento foi entregue em mãos do Ministro do Exterior de Israel e não há como negar sua existência. O argumento que o retorno dos refugiados não é aceito por Israel, que Jerusalém é indivisível, que o Monte sírio do Julan já foi incorporado por decisão israelense, que as fronteiras propostas são indefensáveis e outros mais, são argumentos israelenses para não se engajarem em negociações sérias que poderão resultar numa fixação de fronteira que não seja a do Eretz Yisrael e que simbolicamente consta da bandeira do estado patife: as duas faixas azuis representam o Nilo e o Eufrates.

Fora sincero e não persistente na mentira de sempre, Israel constataria que tudo no documento dos estados árabes é discutível e é melhor começar de algo escrito, do conhecimento dos dois lados, do que da ausência de um “para começo de conversa”!

Logo a seguir vem o papel dos Estados Unidos. Os dois lados têm que ter confiança na real vontade dos Estados Unidos de que estão de fato interessados numa solução. Israel nem tanto, pois os Estados Unidos sempre estiveram do seu lado, apoiando as maiores barbaridades e crimes de Israel contra a Palestina e os palestinos. Estão os Estados Unidos, de fato, honestamente com vontade de forçar uma solução? Os palestinos desconfiam e querem provas, pois até hoje os Estados Unidos só deram provas do contrário e qualquer árabe desconfia deles.

Uma coisa é certa: os palestinos não suportam a ocupação de sua terra; a população está crescendo a um ritmo muito maior que a dos israelenses e não existem mais europeus orientais para se fingirem de judeus para irem a Israel para poderem emigrar livremente para os Estados Unidos. As crianças de oito anos que apanham hoje de soldados sionistas armados até os dentes vão crescer e os refugiados estão aí para pressionar, mas ninguém mais trabalha pela destruição do estado sionista que ele próprio pelas suas ações ignóbeis e criminosas as quais nem mesmo os Estados Unidos apoiarão ad eternum sem prejuízo de sua própria política interna onde as populações não wasp estão crescendo em ritmo palestino e está se tornando evidente que sustentar crimes no exterior tem limites já que as necessidades internas crescem sem trégua.

Qualquer que seja o resultado das negociações, se é que os sionistas permitam que vá até ao final, o povo palestino sairá vencedor.

José FARHAT

18/08/2013

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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