Fundamentalismo que envergonha

            O jornal libanês editado em francês L’Orient-LeJour de 11/02/2013, sob o título Arábia: o hijab para as menininhas a partir de dois anos? Relata o artigo a proposta de um pregador saudita para que esta regra seja integralmente seguida, desde os dois anos de idade, a fim de coibir o assédio sexual. O hijab (do árabe: esconder, eclipsar, ocultar, colocar ou jogar um véu sobre, impedir de ver, encobrir dos olhares, mascarar algo, separar de e, simplesmente: cortina), é um dos problemas ampliado pelo fundamentalismo islâmico; aquele que interpreta mal um texto ou uma tradição ou situação, para torná-lo objeto de disparate, como foi o caso do pregador ao qual nos referimos aqui. Tratando-se de algo que pode ser assacado contra as centenas de milhões de muçulmanos nas quatro direções cardeais do planeta, logo a imprensa mundial abriu manchetes para a notícia, vinda de um analfabeto funcional desconhecido.

            Ainda bem que não veio outro mais com uma fatwa (édito religioso) como já aconteceu em outras ocasiões.

            Outros da mesma laia existem aos montões e um dentre eles, pregador através de um canal de televisão, falando bobagens aos montões, acabou reconhecendo que violentou sua filhinha de cinco anos e o crime acabou matando-a. Ele só foi condenado a uma curta pena de prisão e multa insignificante.

            Já no jornal árabe Al-Hayat da mesma data, em editorial, a escritora Badria al-Bicher admirou-se e lascou: “[O pregador] apela para uso do véu pelas menininhas em vez de propor a adoção de uma lei contra as agressões sexuais e uma campanha de sensibilização nas escolas e através da mídia”.

            Não ficou por aí e a pretensão do pregador foi violentamente criticada no Twitter (tanto em árabe quanto em outras línguas, inclusive em português) e um dos críticos não deixou por menos ao dizer: “É a vítima quem é censurada”.

            Felizmente a opinião pública na Arábia Saudita demonstrou revolta tanto pelas pregações quando pelas penas aplicadas e ainda mais com a frequência com a qual ocorrem tais fatos.

            Outras ocorrências no Reino dão conta de que nem tudo está perdido e que há uma esperança. Eis algumas manchetes recolhidas dos jornais da região: “Os poderes da polícia religiosa saudita são limitados”, “O Rei nomeia 20% de mulheres para o Conselho Consultivo saudita” e “Uma saudita vai à Justiça em busca de seu direito de dirigir [automóveis]”.

            Melhor que tudo foi notícia divulgada pela BBC e agências de notícias, meses atrás, dando conta de que “na Arábia Saudita as mulheres não podem dirigir automóveis e trabalhar com homens, mas uma cidadã saudita tornou-se a primeira pessoa a dirigir um filme no país. Haifa al-Mansour dirigiu um longa metragem – intitulado “Wadjda” – que vem recebendo boas críticas fora do país mas não pode ser exibido na Arábia Saudita porque lá não há cinemas e poucos filmes são vistos em público. O filme inova por ter sido filmado no reino árabe com um elenco inteiramente saudita que inclui, surpreendentemente, duas mulheres em papéis principais”.

          “Wadjda” deverá ser lançado neste ano. O filme obteve permissão oficial, foi parcialmente financiado por um príncipe saudita e filmado em locações durante seis semanas. Mas a diretora e sua equipe enfrentaram obstáculos que não são comuns em produções além dos limites do Reino do Petróleo. Na Arábia Saudita, as mulheres não têm permissão de trabalhar ao lado de homens ou de conviver com eles fora do âmbito da família. Elas também não podem ser vistas andando desacompanhadas pelas ruas. Portanto, durante as filmagens em áreas mais conservadoras da capital, Mansour teve de se esconder em uma caminhonete. “É um desafio, especialmente para as filmagens externas”, disse ela e acrescentou: “Alguns bairros são conservadores, então tive de ficar em uma caminhonete e dirigir os atores por telefone ou walkie talkies”.

              O desafio é conseguir que mais pessoas vejam a produção. Sem exibições públicas, as alternativas são DVDs ou TVs por satélite. Quem sabe o Instituto da Cultura Árabe (Icarabe) possa exibí-lo no próximo Festival de Cinema Árabe aqui no Brasil.

             Ainda é pouco, convenhamos, mas é um bom começo!

            Mas voltemos ao véu. Em artigo publicado já lá se vão anos, explicamos a origem da “cortina” que o Alcorão ordenou que se antepusesse entre a família que lá residia e o povo que frequentava cada vez mais a pequena casa do Profeta Muhammad, transformada de residência em casa de oração e até também em sede de governo, onde as pessoas entravam sem bater, desde aquele que vinha para simplesmente pedir conselho até aqueles inoportunos que vinham fazer suas refeições, chegavam cedo e saiam tarde. A família de Muhammad ficava exposta e as mulheres foram perdendo cada vez mais a intimidade familiar.

           Porém, nem de perto chegamos à explicação dada por Karen Armstrong, a este respeito quando escreveu: “Maomé, […], não tinha um quarto próprio na mesquita; ele simplesmente dormia nos aposentos de suas esposas. Mas à medida que se tornava mais importante em Medina, sua casa, inevitavelmente, se tornou um local público e mais e mais pessoas vinham consultá-lo sobre problemas pessoais ou religiosos ou pedir-lhe que julgasse uma disputa. Alguns muçulmanos gostavam de se aproximar dele por meio de suas esposas, com a esperança de serem escutados. […] O hijab, ou cortina, não foi planejado para ser algo opressivo. Foi pensado para prevenir uma possível situação escandalosa, passível de ser usada pelos inimigos de Maomé para desacreditá-lo.” (ver: Armstrong, Karen – Maomé: uma biografia do Profeta – São Paulo, Companhia das Letras, 2002, pg224).

          Para evitar constrangimentos e proporcionar conforto a Muhammad e sua família, Deus ditou-lhe o seguinte versículo através do Arcanjo Gabriel: “Ó vos que credes! Não entreis na casa do profeta – a menos que vo-lo seja permitido – para uma refeição, sem esperardes por seu tempo de preparo; mas, se sois convocados, entrai; então, quando vos houverdes alimentado, espalhai-vos, e não vos demoreis vos recreando em conversações. Por certo, isso molestava o Profeta, e, ele se peja de ter de fazer-vos sair. E Deus não se peja da verdade. E, se lhes perguntais por algo, perguntai-lhes, por trás de um véu. Isso é mais puro para vossos corações e os corações delas”. (ver: Corão, Suratu al-Ahzab, Parte XXXIII, Versículo 53):

          Nada mais, além deste versículo corânico existe, quer no Livro Sagrado, quer no Hadith (ditos e comportamentos do Profeta, de veracidade comprovada). A distância do que diz a fonte primeira da Sharia (a Lei Muçulmana), o Corão, e o que vociferam, os pregadores é aquela que separa o céu da terra.

           O Corão deixa clara a preocupação com a família de Muhammad, o que não significa obrigá-las e a todas as crentes, a usarem vestimentas do tipo que os ignorantes Talibãs impõem a suas mulheres, que além de serem de mau gosto são insanas. Quem lê outro versículo: “Ó Profeta! Dize a tuas mulheres e a tuas filhas e às mulheres dos crentes que encubram em suas roupagens. Isso é mais adequado, para que sejam reconhecidas e não sejam molestadas. E Deus é Perdoador, Misericordiador.” (ver: Corão, Suratu al-Ahzab, Parte XXXIII, Versículo 59), igualmente usado pelos pregadores para contrariarem a Lei de Deus.

            Estes pregadores erráticos tentam também desfigurar o objetivo e o sentido moral de mais uma determinação divina quando Deus, o Senhor do Universo, ordenou dirigindo-se a seu Profeta: “E dize às crentes que baixem suas vistas e custodiem seu sexo e não mostrem seus ornamentos – exceto o que deles aparece – e que estendam seus cendais sobre seus decotes. E não mostrem seus ornamentos senão a seus maridos ou a seus pais ou aos pais de seus maridos ou a seus filhos ou aos filhos de seus maridos ou a seus irmãos ou aos filhos de seus irmãos ou aos filhos de suas irmãs ou a suas mulheres ou aos escravos que elas possuem ou aos domésticos, dentre os homens, privados de desejo carnal, ou às crianças que não descobriram, ainda, as partes pudendas das mulheres. E que elas não batam, com os pés, no chão, para que se conheça o que escondem de seus ornamentos. E voltai-vos, todos, arrependidos, para Deus, ó crentes, na esperança de serdes bem-aventurados!” (ver: Corão, Suratu an-Nur, Parte XXIV, Versículo 31):

            É mais fácil procurar ver nestas palavras a verdadeira intenção divina, ditando recomendações necessárias para coibir hábitos imorais vigentes entre os árabes antes do Islã e não encontrar nelas desculpas para, em pleno Século XXI, subjugar as mulheres, como se suas mães, mulheres, irmãs e filhas fossem dignas de tais tratamentos.

            O que este versículo recomenda, conforme comenta o Professor Emérito Hilmi Nasr é “não exibir as regiões corporais que, usualmente, recebem ornamentos”. Algo necessário na alvorada do Islã e absolutamente questionável na atualidade, como também o são os vestidos, meias e lenços de cabeça pretos das mulheres de toda a bacia do Mediterrâneo, ancestrais de quase todos os brasileiros. No fundo, o que prega o Islã, com base no Corão e na Sunnah é modéstia e recato e o que abomina é desprestigiar a mulher tornando-a nada mais que um objeto a ser usado e descartado. O Islã, que fique claro, não é a ignorância talibã que proíbe as mulheres de irem à escola e determina que devam se esconder embaixo de uma burqa que se assemelha a uma tenda circulante.

            Os pregadores deveriam ler também aquilo que Deus lhes ordenou fazerem e que não está muito distante da última citada, quando se dirigiu ao Profeta com estas claras palavras: “Dize aos crentes que baixem suas vistas e custodiem o seu sexo. Isto lhes é mais digno. Por certo, Deus é Conhecedor do que fazem” (ver: Corão, Suratu an-Nur, Parte XXIV, Versículo 30). O que claramente significa que sejam recatados, não andem por aí se exibindo, e não desejem a mulher do próximo. Eles deveriam lembrar também de outra determinação divina, antes de se acharem donos da verdade, lendo: “Com efeito, bem-aventurados os crentes […] E que são custódios de seu sexo.” (ver Corão, Suratu al-Muuminun, Versículos 1 e 5). Em outras palavras, os homens devem cuidar de seu comportamento, ao que acrescentamos: antes de exagerar ditando regras comportamentais às mulheres com a intenção óbvia de subjugá-las, considerá-las necessitadas de custódia. Pregadores, vão cuidar de suas vidas! E o exemplo do saudita que violentou sua filha diz tudo a respeito.

            Estes infelizes pregadores, aquele que infelizmente motivou este artigo, não levam em consideração nada além de querer chamar atenção para suas inúteis pessoas, aproximando-se daqueles que tão somente prejudicam o Islã como um todo e todos os muçulmanos. Se tivessem algum valor intelectual teriam verificado que seus países necessitam urgentemente de reformas. É por esta razão que estamos ao lado das mulheres que lutam por seus direitos, quer nas praças públicas da Tunísia ameaçada de uma marcha à ré, quer gritando por trás de seus véus na Arábia Saudita, todas clamando por seus direitos inalienáveis.

Jose Farhat

02/05/2013

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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