Canetas tupiniquins a serviço de fuzis sionistas

            Ampliou-se tanto o debate em torno de artigo do Primeiro-Secretário da Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil, Ali Mohaghegh, intitulado O Futuro do Oriente Médio, publicado na edição de 20/08/2012 da Folha de São Paulo, como sempre fazem os defensores do Estado de Israel, que já abrangeu terras mediterrâneas, onde nasce e se põe o sol, e desde o ontem até o amanhã da questão palestina, que inegavelmente é o problema central e maior na região.

            Renato Aizenman, Clovis Rossi, Salomão Schvartzmann, Zevi Ghivelder em artigos e outros comentaristas pularam em cima do diplomata iraniano, como se estivessem numa rinha de galo, encorajando a mentes abertas que analisassem o que de fato ativou tanto assanhamento.

            Se eu sou mente aberta – e quem julga é quem lê o que escrevo, aqui e alhures, não deixo de ser tão alinhado quanto os acima defensores do estado judeu, só que me situo do outro lado, para cá da linha de quem pertence a uma família que se orgulha de ser brasileira, por opção e amor, há mais de um século, descendente de libanês cujo ramo palestino perdeu toda a sua aldeia de Tarbikha, onde lá estavam no mínimo e comprovadamente desde o século XII (e nenhum dos articulistas acima pode comprovar que ascendente seu jamais lá esteve, no último século, quanto mais lá plantar uma oliveira). Meus parentes da aldeia palestina foram mortos ou tangidos para desterro por sionistas que vieram de longe e só tinham sobre a terra palestina o relacionamento religioso, não exclusivo, que tem qualquer adepto das religiões monoteístas abrahâmicas: judaísmo, cristianismo e islamismo tem, nada além disto, a não ser pelo plano traçado desde o século XVIII pelo movimento sionista, para a exploração da terra da região e procurar colonizar o território palestino e transformá-lo num grande gueto, à força, por cima dos cadáveres dos donos da terra, apropriando-se das riquezas deixadas pelos habitantes expulsos. Por estas razões, declaro-me parcial com relação à Palestina que a quero livre, nas mãos dos palestinos, seus legítimos donos.

            Falta sublinhar que nada tenho contra os judeus, precursores da fé que segue a senda de Abrahão, a quem as religiões que sucederam ao judaísmo lhes devem o caminho. No entanto, sou contra os sionistas que usam, e abusam da religião, para justificar os crimes que vêm cometendo contra os palestinos.

            Aizenman repete o chavão de que o Irã quer destruir Israel. Na verdade, “retórica do ódio e da pregação de extermínio” de um país é muito mais ouvida da parte de Israel contra o Irã do que o inverso. Rossi oportunamente indicou, em seu artigo, haver em Israel uma histeria coletiva encorajada pelo governo com segundas intenções de isto também “funcionar como pressão sobre os Estados Unidos para que se decidam a atacar o Irã sem que Israel se antecipe”. Então, é o governo israelense quem aterroriza sua própria população, não o Irã, e é o mesmo governo israelense quem incita os Estados Unidos a atacar o Irã, não o Irã.  Ouve-se a toda hora as autoridades israelenses falando que devem atacar o Irã. Muitas vezes os Estados Unidos já dissuadiram Israel de atacar o Irã, a mídia abunda com detalhes de como Israel atacará o Irã e isto, todos nós sabemos, como também jamais registramos que algum país teve que impedir o Irã de atacar Israel. Aliás, a bem da verdade, o Irã nunca atacou país algum e nem existem publicações relatando tais planos e nem provocou histeria internamente. Não adianta os defensores de Israel negarem: quem faz ameaças concretas é Israel e o que escreveu o diplomata iraniano ou até o que disseram meia dúzia de vezes autoridades iranianas fica muito distante da aludida “pregação de extermínio”.

            A repetição de que existem “claros indícios de [o Irã] tentar produzir armas atômicas” é um segredo de Polichinelo. Todo mundo sabe que o Irã desenvolve um programa nuclear. O governo iraniano diz tratar-se de um programa para fins pacíficos e, mesmo admitindo que o Irã simultaneamente esteja querendo chegar à produção de armas nucleares, qual o problema? Israel é detentor de centenas de ogivas, os Estados Unidos têm em todos os lados do Irã dezenas de bases militares e forças navais com capacidade nuclear, o Paquistão e a Índia têm armas nucleares, a China e a Rússia, assim como a Coréia do Norte também. Todos estes têm e qual o problema de o Irã também ter? Israel representa certamente muito mais perigo para seus vizinhos que o Irã, mesmo que não tivesse armas nucleares. Será que Israel, com esta ladainha de programa nuclear iraniano não está querendo esconder seus verdadeiros problemas?

            Quando o diplomata iraniano diz que “Sem dúvida, não haverá nenhum lugar na região para os sionistas no futuro” é difícil pescar, como fez Aisenman, uma pregação da destruição de Israel. É útil lembrar que o primeiro levante de agricultores palestinos contra agricultores imigrantes sionistas aconteceu muito tempo antes do estabelecimento de Israel e foi exatamente porque eram, em tudo, absolutamente em tudo, diferentes dos habitantes da terra. Os palestinos sentiam uma concorrência lhes ser imposta e não se conformam com o que continua acontecendo há decênios a fio.  Israel já perdeu a oportunidade de conviver com seus vizinhos e a razão disto foi a forma como foi implantado e a realidade de como tem se comportado. A força, a de Israel e daqueles que o apoiam, pode manter o estado enxertado na região por um tempo, decênios talvez, mas sinceramente é difícil acreditar que o estado hebreu se mantenha por séculos. O Terceiro Reich queria e não conseguiu dominar o mundo por mil anos, a força, como Israel quer dominar a região, armas em punho e só tem conseguido angariar inimizade onde deveria procurar amizade. A diferença entre Alemanha e Israel é que aquela necessitou de força externa para derrotá-la e Israel, da forma como vem levando a sua vida, não encontrará quem lhe venda uma apólice de seguro. Boas lições, Israel sabe onde encontrar basta reler a história da Apartheid na África do Sul ou, quem sabe, a da colonização europeia no continente africano, ou a queda do muro de Berlim; exemplos não faltam.

            Pior ainda é aceitar o exagero de Rossi ao comparar a falta de aceitação de Israel por seus vizinhos a uma “solução final” e ainda mais quando traz desnecessariamente a um local onde ideias são debatidas uma figura como a de Adolf Hitler e compará-lo sem o cuidado que um colunista de sua categoria deveria ter, ao Líder Supremo do Irã. É um fato gratuito. Ninguém está pregando o extermínio de judeus, Clovis Rossi, não gostaria que alguém o chamasse de leviano, pois sei que não o é, mas é triste ler tais letras vindas de sua caneta.  Releia a Carta das Nações Unidas Rossi e verá que errou ao dizer que o lugar na região “[d] o Estado de Israel foi determinado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas”, pois este órgão da ONU não tem poderes para determinar nada, principalmente dividir a terra de alguém sem consultá-lo e muito menos dá-la de presente para um forasteiro. O máximo que a AGNU tem é poder para propor ao Conselho de Segurança aquilo que foi votado. Essa história da carochinha já foi contada tantas vezes que até um Rossi a repete e isto é péssimo. Rossi, já que despertei a sua curiosidade para reler a Carta das Nações Unidas, veja lá as atribuições do próprio Conselho de Segurança e constatará que lá não existe historinha semelhante à de Salomão, a criança, a mãe e a intrometida. Nem uma gleba de poucos alqueires pode ser dividida sem consentimento de seus donos, mesmo que não sejam donos e nela pacificamente habitam há séculos, pacifica e incontestavelmente. Os palestinos não vieram deslocar, até matar, ninguém, não foram eles, foram os sionistas quem empreenderam tal façanha odienta.

            Necessário é que repisemos este ponto: os defensores de Israel – e os articulistas acima mencionados não são, e nem poderiam ser, exceção, repetem ad nauseum uma falácia agigantada que se constitui num escárnio a qualquer pessoa bem informada, ou até mesmo inocente; refere-se ela ao argumento, ao qual lhe vestem roupagem de verdade absoluta, inquestionável: trata-se de afirmar, como disseram que “Israel foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas” é mentira. Não há, nas atribuições da Assembleia Geral das Nações Unidas, qualquer referência a um poder de dividir um território de um povo, tirando-lhe parte, para dar a propriedade de 52% do seu todo para o estabelecimento de um estado de alienígenas.

            Os defensores de Israel partem sempre de um erro crasso, quando tratam da parte que lhes interessa da questão palestina: dar à Religião um papel, uma força, que na realidade não existe senão para justificar a criação do estado israelense assim como tudo o que se relaciona a ele, através do tempo seguinte e independentemente do local onde o assunto é levantado. É inegável que do lado palestino é irrelevante dividir aqueles que têm suas raízes em terras palestinas em cristãos e muçulmanos, tendo em vista que a agressão sionista não selecionou este ou aquele adepto de uma ou outra religião para destruir suas casas e seus sonhos de um futuro normal para qualquer habitante deste planeta.

            É fato notório que os mais importantes movimentos palestinos de resistência à tomada da Palestina pelos sionistas são indistintamente cristãos e muçulmanos. Este esclarecimento é importante para se entender o problema palestino, desde o nascedouro do conflito. Os sionistas conseguiram fazer com que as Nações Unidas se referissem, quando a divisão da Palestina foi submetida à AGNU que se tratava de uma partilha entre “judeus” e “árabes” quando, na verdade e na realidade, ou seriam judeus de um lado e cristãos e muçulmanos do outro, remetendo a todos suas respectivas religiões isto é: judeus, cristãos e muçulmanos. A intenção é clara: se os cristãos fossem mencionados traria para a questão palestina um apoio ponderável dos seguidores desta religião, através do mundo, prejudicando a questão sionista. O tempo se encarregaria, como queriam os sionistas, de fazer pensar que os “árabes” eram “muçulmanos” e, com a campanha que se seguiu mostrando ao mundo que os muçulmanos eram fundamentalistas e terroristas, ganhariam mais apoio por mais esta razão (não se deve esquecer que os muçulmanos, árabes ou não, que seguiram o caminho do fundamentalismo e do terrorismo estiveram sempre, com suas ações, favorecendo ao Israel que dizem combater). Além disto, são conhecidas as ações terroristas sionistas antes do estabelecimento de seu estado, através de bandos de destruição e terror e, depois e até os dias atuais, pelas atuações de terrorismo de estado.

            Então, a divisão da Palestina ou foi ente judeus, de um lado, e cristãos e muçulmanos de outro; ou, entre árabes de um e alemães, poloneses, checos, russos ET catervas do outro, uma situação que retiraria do sionismo o caráter religioso, e que escondesse o caráter colonizador. Não é por outra razão que Israel quer hoje se apresentar como estado judeu, justificando a sua própria existência, correndo o risco de ser desmascarado e mostrar sua cara real de praticante da apartheid racista.

            Convenhamos que não tenho procuração para defender o diplomata iraniano, mas apenas pretendo colocar em evidência as afirmações tendenciosas dos defensores de Israel. O iraniano poderia ser indiano, não faria diferença para mim. Se existem “calúnias fantasiosas” a respeito da extensão de Israel desde o rio Nilo até o rio Eufrates, ele não as inventou. O planeta inteiro sabe que os sionistas defendem direitos divinos sobre Israel porque a Bíblia menciona em diversos versículos os limites das terras prometidas: do Nilo ao Eufrates. Até mesmo Theodor Herzl, o fundador do sionismo, em seus Diários Completos (vol. II pg. 711 da versão inglesa) menciona “desde o rio do Egito até o Eufrates” e, tempos depois, em 09/07/1947, em seu testemunho prestado à Comissão Especial de Inquérito das Nações Unidas, o representante da Agência Judia para a Palestina, Rabino Fischmann declarou: “A Terra Prometida se estende desde o Rio do Egito para cima até o Eufrates e inclui parte da Síria e do Líbano”. Se a redução das terras para pouco mais de cinquenta por cento do que restou da Palestina (por decisão discriminatória da potência mandatária que lhe retirou o território que denominou Transjordânia) está sendo ampliada à medida que as oportunidades aparecem ou são criadas, pelo uso da força, e já chegaram hoje a setenta e oito por cento do território palestino (excluída a Jordânia), talvez ninguém melhor que Aizenman poderá confirmar e não Mohaghegh ou o autor destas linhas qual o objetivo dessas ampliações.

            A prova da extensão da pretendida Terra Prometida pode ser encontrada também em From coexistence to conquest: international law and the origins of the Arab-Israeli conflict, 1891-1949 (de Victor Kattan, Londres, Pluto Press, 2009), onde o autor indica ser este um dos problemas com a coexistência entre árabes e israelenses, dizendo: “De fato, em seus Diários, Herzl descreveu a área do estado Judeu ele o visionou se estendendo ‘desde o rio do Egito até o Eufrates’”. Porém, caso os articulistas prefiram outra citação, vale indicar-lhes o que disse o grande herói (para os sionistas) e o maior traidor da causa palestina (para os árabes), Anwar Sadat em seu diário: The public Diary of President Sadat: The Road of Diplomacy, 1978-1979, quando escreve: “Se tivéssemos permanecido em silêncio por um momento ou [tivéssemos] fechado os nossos olhos, Israel teria realizado o sonho sionista – a Grande Israel, do Nilo ao Eufrates. Nós no Egito, que é o trampolim da Nação Árabe na História, Civilização, geografia e população, devemos contrariar este plano. A estratégia árabe nos permitirá confrontar a duradoura estratégia hostil rascunhada há muito no Congresso de Basle, chefiado por Herzl”. O leitor certamente concordará que negar evidências e contornar verdades é “um esporte nacional” para Israel e seus defensores, entre eles incluído Sadat, o primeiro árabe a reconhecer Israel, ele sozinho e seus asseclas, pois ninguém mais, a não ser o Rei da Jordânia cometeu tamanha traição contra seu povo.

            Concordo com Aizenman que a Palestina não deva se transformar num “estado radical islâmico” e sim num estado onde todos os palestinos, muçulmanos ou cristãos ou judeus tenham seu quinhão de deveres antes de vantagens, pois a construção do Estado Palestino, livre e soberano, é tarefa árdua, mas os palestinos saberão como construí-lo, só eles sabem.

            As “divergências internas” em Israel, a que se refere o diplomata, talvez não sejam as mesmas que eu aponto, mas também nada têm com “o caráter democrático de Israel” mencionado por Aizenman. De minha parte, em minha opinião, a tal tão cantada democracia de Israel é não mais que uma das muitas falácias, pois não existe democracia onde reina a apartheid e a discriminação, até mesmo contra judeus de origem não europeia e não somente com relação aos palestinos. O que ocorre atualmente contra os judeus etíopes é notório; chegam a ser escondidos em aldeias distantes, para que não se diga que há judeu negro.

            É a realidade que vem demonstrando que Israel não quer negociar com os palestinos.  Sempre que se avança um passo Israel tem repetidamente criado condições adversas. Há anos, o então Secretário Geral da Liga dos Estados Árabes e o então Ministro do Exterior do Egito levaram e entregaram, em mãos, ao governo de Israel uma proposta de negociações, aprovada em reunião dos vinte e dois chefes de estado, monarcas e presidentes árabes, oferecendo basicamente o reconhecimento coletivo de Israel por todos os países árabes e nem resposta o governo israelense deu. Todas as condições constantes da decisão árabes são negociáveis; algumas talvez nem fossem aceitáveis, mas assim mesmo Israel nem acusou recebimento do documento. Não há então como Aizenman se admirar quando Mohaghegh disse que “os povos perceberam que são inúteis e frustrantes as negociações”. Agora, quando ele sugere que esta atitude se deve ao respaldo do Ocidente, também é verdade; só que a este respaldo vem faltando qualquer tipo de entusiasmo com o passar dos anos. Ninguém aguenta mais as manhas de Israel, já ultrapassaram os limites do tolerável. Evidências não faltam até mesmo no âmbito das Nações Unidas, onde a Palestina caminha para se tornar membro pleno e vem sendo admitido em órgão após órgão e é pena que Aizenman e os demais não tenham ouvido o relato do chefe da UNRWA recentemente, aqui em São Paulo, para tomar conhecimento de mais uma faceta do comportamento israelense e do que causa aos palestinos através das décadas que se passaram desde o estabelecimento de Israel.

            Os movimentos da Primavera Árabe estão ocorrendo não somente por razões econômicas – obviamente distribuição de renda gerando desemprego desenfreado à frente ocorreram também por questões políticas, internas e externas. Os ditadores de plantão não somente se mantinham no poder à força, mas também trabalhavam para perpetuar seus mandos através de herdeiros de suas próprias casas; e todos tinham sido colocados no poder pelos sucessivos imperialismos que os vinha mantendo em governos subservientes. Quem a não serem os Estados Unidos, e por trás destes seus aliados entre os quais o sempre mais privilegiado Israel, manteve no poder por decênios: Saddam Hussein, Husni Mubarak, Bin Ali, o Saleh e outros, mortos e não chorados ou à beira dela, fora os ainda sobreviventes? Só os aqui nominalmente mencionados seriam capazes de alimentar o ódio dos povos árabes.  O próprio estabelecimento do Estado de Israel em terra palestina já é, de per se, o ponto mais importante do temor “[d] as ondas crescentes de sentimentos antiamericanos e antissionistas” motivo para “tentarem insinuar ao mundo uma interpretação falsa deste movimento” de libertação nacional árabe. Há alguma dúvida de que “os governos derrubados na região eram amigos dos Estados Unidos da América e do regime sionista”, como disse o iraniano autor do artigo? Alguém acredita que Mubarak foi derrubado pelo egípcio por ser amigo de seu próprio povo ou porque o privava de gás para uso doméstico enquanto o vendia a preço vil para Israel, para citar uma só entre suas façanhas?  Schvartzman e Ghivelder usam um argumento fraquíssimo para comprovar que a Primavera Árabe não teve em seu bojo “um movimento contra Israel e Estados Unidos” pelo simples “fato de que não houve, no Cairo, em Trípoli ou em Tunis, por ocasião das rebeliões populares, queima de bandeiras americanas ou israelenses”.

            Os articulistas estão esquecendo-se de algo mais grave que a queima de bandeiras estrangeiras. Eles aparentemente não acompanham os acontecimentos no Egito: a embaixada de Israel foi atacada, o embaixador fugiu e não mais deu as caras, o contrato de fornecimento de gás foi revogado, as fronteiras com a Palestina (Ghaza) foram abertas, as forças armadas estão se deslocando para o deserto do Negueb pisando por cima do Acordo de Paz, o presidente egípcio demitiu os militares amigos dos Estados Unidos e indiretamente de Israel, o presidente reatou com o Irã e tem tomado atitudes favoráveis ao povo egípcio as quais invariavelmente contrariam as dos sionistas.

            O ataque à Embaixada de Israel no Cairo não foi, como mencionam Schvartzman e Ghivelder “ataque cometido por um pequeno grupo de vândalos” ele foi, isto sim, uma manifestação popular contra um estado com o qual o regime mantinha relações contrariando a vontade do próprio povo. Não há um só egípcio que aceite manter o acordo de paz com Israel, enquanto durar a ocupação da Palestina. A revisão do acordo não é somente vontade do povo, mas o atual governo já se manifestou a respeito e ocorrerá logo que chegar o momento adequado; não existem dúvidas a respeito e, para constatá-lo, não é necessário ir à Praça Tahrir, é só perguntar a qualquer egípcio. Não há “pequeno grupo de vândalos” fazendo qualquer movimento no Egito; o povo egípcio, de mãos vazias e peito aberto, durante seus movimentos de libertação do jugo de Mubarak, pelo que fez contra seu povo e a favor de Estados Unidos e Israel, chegou a derrotar as forças policiais e fazer as forças armadas pensarem antes de atacar os manifestantes. Dourar pílula, Schvartzman e Ghivelder, não transforma mentiras em verdades. A revolta do povo egípcio não se manifestou apenas pelo ataque à embaixada do estado hebreu já que a embaixada saudita, como sabem os articulistas, árabe e de maioria muçulmana, também o foi, pelas razões que podem mandar seus estagiários pesquisarem.

            A propósito, Schvartzman e Ghivelder, também não enganam a ninguém as frases aparentemente civilizadas e educadas de seu artigo e vamos repassá-las. Conforme dito acima, o artigo de Mohaghegh não sugere “de forma explícita, [que] um país soberano exorta a erradicação de outro país soberano” e a ideia inventada só serve de desculpa para o uso do chavão de sempre que diz “Nem o nazismo se atreveu a tanto”, mesmo porque a Alemanha nazista não exortou, ela cometeu um crime contra a humanidade eliminando milhões de pessoas por serem judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e outros. Maldita hora que o regime nazista foi mencionado, pois isto traz à mente os crimes que hoje Israel comete contra os palestinos que muito se assemelham àqueles dos nazistas. Lembrar este fato irrita os escribas defensores dos sionistas, mas o tratamento que estes dão aos palestinos e outros árabes, tem se demonstrado pior do que aquele que os nazistas deram àqueles que eles os elegeram como seus inimigos.

            Fica estranho Schvartzman e Ghivelder quererem negar que Israel não respeita as resoluções das Nações Unidas, tanto da Assembleia-Geral quanto do Conselho de Segurança. O pior é fingirem esquecer que o desrespeito à organização não se limita à desobediência às resoluções, mas também ao conluio dos Estados Unidos que usam o poder de veto sempre que Israel é condenado no Conselho de Segurança. É inadmissível ainda que os dois queiram justificar este comportamento de Israel porque, e aí vem a ladainha de sempre, “o desrespeito maior aconteceu quando a Assembleia-Geral aprovou a partilha da Palestina e, no ano seguinte, logo após a proclamação do Estado de Israel, a nova nação foi invadida por seis exércitos hostis”.

            Como a questão da divisão da Palestina já foi mencionada aqui mais de uma vez resta comentar a outra balela de Israel ter sido invadido “por seis exércitos hostis”, pois quem lê pensa que o recém-criado estado era um pequeno David contra inúmeros Golias, o que é mentira. A verdade é que os planos israelenses de guerra começaram a ser executados no dia que passou a Resolução da partilha, em 29 de novembro de 1947, quando todos os judeus entre dezessete e vinte cinco anos foram convocados. Em 5 de dezembro o líder sionista David Ben-Gurion ordenou “ação imediata” para expandir os assentamentos judeus nas três áreas determinadas pela Assembleia-Geral ao Estado Palestino. Em meados de dezembro começaram as ações militares organizadas contra os árabes palestinos de acordo com o Plano Gimmel criado a intenção de ganhar tempo para organizar os ataques militares. Em 19 de dezembro a ordem de Ben-Gurion era clara: “Em cada ataque, um golpe decisivo deve ser alcançado, resultando na destruição de casas e na expulsão da população(Palumbo, Michael – The Palestinian Catastrophe: The 1948 Expulsion of a People from Their Homeland (Boston: Faber & Faber, 1987, pg 40).

            É muito triste ouvir e ler falácias em torno de Israel, sua criação e seu inexorável caminho rumo à autodestruição.

José Farhat

03/03/2013

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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