Triste aniversário de uma situação criada na Síria

            O serviço de imprensa das Nações diz que as o número de mortos na Síria, dois anos pós o início da rebelião, sobe a 70.000. Diz a oposição – e é só esta que aparece na imprensa internacional, que este número excede os 100.000 mortos, o que a habilita a receber auxílios árabes e internacionais, sem que ninguém atente para as causas da tragédia. Números não confirmados pelo governo sírio afirmam que 2.000.000 de pessoas foram deslocadas internamente e outro 1.000.000 se refugiaram no exterior.

            Do ponto de vista militar, político e diplomático, ao completar dois anos, a situação continua tão imutável quanto o Monte Hermon (o ponto culminante no território sírio), tudo está bloqueado.

            O território sírio está divido em dois; um sob o controle do governo legítimo sírio – e esta legitimidade é incontestável, mesmo pelos padrões, ditos ocidentais, forçado a se defender daqueles que não querem negociar e nunca quiseram participar de eleições, para que não seja revelada a sua falta de apoio popular e excesso de apoio daqueles que não se preocupam com os interesses sírios e sim com a eliminação do único país árabe que efetivamente resiste à imposição de uma política favorável à falsa democracia dos Estados Unidos, Israel e seus anões obedientes ou a um credo deformado pelo fundamentalismo religioso.

            É inegável que o país está sob duas dominações: a do governo legítimo que o povo elegeu e a dos territórios ocupados por fundamentalistas religiosos e grupelhos de origem suspeita, escondidos por trás de armas. Não se trata de uma divisão que corresponda a duas regiões com limites definidos e sim bolsos tomados e ocupados pela oposição situados no nordeste, nas cercanias de Alepo e Idlib e o território desde sempre sob domínio do governo sírio. Tivessem os rebeldes domínio de um território definido, as bruxas que habitam a Casa Branca, o 10 Downing Street, o Elysée e similares teriam formado uma região satélite dos interesses gringo-sionistas.

            É fato que alguns membros das forças armadas sírias têm desertado – são aqueles eternos pretendentes a serem alçados a posições de mando político na remota eventualidade da vitória dos rebeldes. Políticos ambiciosos – pleonasmo flagrante – também têm seguido o mesmo caminho, só que indo morar em capitais europeias. Ocorre que nem as forças regulares sírias e nem tampouco o governo sofreram com estas debandadas. Algumas armas pesadas foram também tomadas pelos rebeldes, mas nada que abale as vantagens incontestáveis das forças legais sobre a oposição e seu armamento leve. Nem o apoio de forças mercenárias conseguiu pender a balança para o lado rebelde.

            A propósito do fornecimento de armas pela Rússia à Síria, a imprensa internacional está inundada de críticas, mas não são mencionados os fornecimentos clandestinos de armas para os rebeldes feitas por países, vizinhos ou distantes, árabes ou não. É a “liberdade de expressão” de uma mídia vendida ou que não se dá ao trabalho de investigar e se contenta em copiar.

            As forças contrárias ao governo sírio têm outra característica peculiar de rebeldes aspirantes ao poder: estão divididas. Sem a existência de um comando integrado, ficam uns prejudicando as ações dos outros. Aquilo que é comumente chamado de Exército Livre Sírio nem chega a ter um comando efetivo sobre a multitude de brigadas de diversas correntes, algumas de orientação salafista religiosa e outras representando os interesses externos, não os da Síria. Estas divisões entre os rebeldes impede qualquer organização militar de ordem nacional ou mesmo regional, tornando impossível a elaboração de uma estratégia militar contra as forças regulares governamentais.

           O número destes rebeldes dificilmente pode ser estimado, mas os serviços secretos ocidentais (uma das fontes de sempre) falam de “alguns milhares de homens que podem parecer mais numerosos em razão de sua boa comunicação”. Cabe a pergunta: se são milhares de homens e nunca foram eleitos, como Estados Unidos, Reino Unido, França e outros os reconhecem como representantes legítimos do povo sírio?

             Do ponto de vista político, Bachar al-Assad, não por ter herdado o poder de seu pai, como alegam alguns, mas por ter sido eleito por seu povo, recusa deixar o poder, como querem os rebeldes que ninguém elegeu e as potencias estrangeiras que os apoiam. Assad ofereceu diálogo, iniciou reformas, nova constituição, retirou do partido Baath a existência exclusiva que lhe era constitucionalmente atribuída, mas “alguns milhares de homens” jogaram o país num banho de sangue sem igual. A oposição repete que luta pela liberdade, mas não tem coragem de enfrentar seus adversários em eleições livres a se realizarem com supervisão internacional isenta. Esta a democracia que se alardeia que a oposição luta por ela.

            Os arautos da democracia já nos deram provas de como o princípio é respeitado: a maioria do povo palestino votou livremente e escolheu o partido Hamas, mas valeu o veto do imperialismo estadunidense e do regime sionista, em detrimento do voto do povo palestino. Na Síria, optou-se pela distância de eleições que iriam derrotar a chamada oposição e aqueles que os apoiam externamente. Eles preferem as armas aos votos.

           O alvoroço da oposição contrasta com a atitude inflexível de Assad, consciente do mandato que o povo lhe atribuiu, mas o governante continua sereno, como atestou o ex-ministro libanês Wiam Wahhab, em entrevista à AFP, quando disse: “[Constatei em meu recente encontro com ele que] o chefe de Estado está sereno, certo de que ele não pode ser derrotado”.

           A oposição tem realizado manifestações pacíficas através do país, com participação reduzida, às vezes simultaneamente em várias localidades porém, por serem ordeiras e pacíficas, o governo sírio deixou que elas ocorressem livremente. Poucos dias atrás, dia 13 de março, pelo terceiro dia consecutivo, os habitantes de Mayadine, no Leste do país, se manifestaram, também livremente, pedindo a retirada dos jihadistas da Frente al-Nusra, para que desocupassem a região onde estão obrigando os habitantes a adotarem comportamentos e práticas ultrapassadas. Comportamento e práticas não muito diferentes daquelas que o Talibã aplica no Afeganistão.

          Como não interessa à oposição e seus apoiadores reconhecerem que o governo permite manifestações pacíficas, a mídia árabe e internacional pouco falou a respeito e, quando o fez, não mereceu as raivosas manchetes dizendo que o regime matou, como se ele tivesse o monopólio das mortes.

          Há também a chamada Coalizão Nacional Síria, tentando se estruturar como representante legítima do povo sírio, mas apesar de assim já ser reconhecida por diversos países tem dentro de si divisões de alguns de seus componentes que acreditam ser ilegal formar um governo no exílio, o que é verdade.

           Não há quem não tenha notado que o chamado Ocidente, ao apoiar os rebeldes, está se colocando do lado da organização al-Qaida, aquela que trilhões de dólares foram gastos para combatê-la e, o que é pior, centenas de milhares de vidas humanas foram sacrificadas. Falta vergonha ao Ocidente apoiar os fundamentalistas islâmicos na Síria e lutar contra eles no Afeganistão e alhures. No fundo, trata-se do comportamento padrão do imperialismo desumano e ambicioso, procurando alcançar seus objetivos sem se importar com os meios.

          Todos esses problemas remetem aos jogos internacionais. Economicamente prejudicado, devido às sanções econômicas da União Europeia (autora do desastre da Líbia), por alguns países árabes (que se posicionam do lado oposto quando se trata de Bahrein) e Estados Unidos e seus seguidores (inclusive indiretamente Israel), o atual regime sírio fica na dependência de Rússia e Irã e o apoio diplomático da China.

            A Rússia que havia garantido certo tempo atrás, de somente continuar fornecendo armas encomendadas antes do conflito, durante os dois últimos anos, continuou a entrega de armamento e a prestação de serviços pós-venda.

            Por outro lado, os fornecimentos de ajuda financeira e militar, de armamento leve, que está sendo fornecido aos rebeldes por Arábia Saudita e Qatar, mesmo juntando aquisições de vitórias mínimas e apreensão de armas do exército regular, não têm sido suficientes para avanços significativos. O que os rebeldes têm mais feito não passam de gritos de terror e desespero pedindo ajuda militar ao Ocidente.

            O chamado Ocidente tem tentado de todas as formas ajudar os rebeldes, apesar dos vetos da Rússia e China, procurando caminhos alternativos. Semana passada França e Grã Bretanha falaram claramente em fornecer armas aos rebeldes para capacitá-los a enfrentar o exército regular. Baseiam-se estas potências coloniais na experiência líbia, quando forneceram armamento aos rebeldes. Estes conseguiram deter as forças regulares e o resultado não foi diferente daquele das intervenções, na própria Lìbia, no Iraque, Afeganistão e até Vietnã, Coréia Bósnia e outros.

José Farhat

17/03/2013

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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Uma resposta para Triste aniversário de uma situação criada na Síria

  1. Fuad Achcar disse:

    Companheiro Farhat, excelente artigo, mostrando a real situação na Síria que sofre com a invasão de mais de 40 mil mercenários de 26 países, podendo esta ser considerada uma guerra mundial travada contra a única nação árabe que não se submeteu às vontades das potências ditas ocidentais. A Síria sairá vencedora porque tem o povo unido em torno de seu exército e de seu Presidente.

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