Israel estava despreparado para a guerra

          Golda Meir (1898-1978), nascida Golda Mabovitch em Kiev, Império Russo, depois chamada de Golda Meyerson, foi a terceira Primeira-Ministra de Israel e era apelidada de “Mãe de Israel”. Em suas memórias My Life. (New York: Putnam, 1975) página 211 disse: “Estávamos, com certeza, totalmente despreparados para a guerra”.

          O que ela disse passou a ser uma das falácias em torno do que aconteceu naqueles dias após a partilha da Palestina. Os planos de Israel para a guerra certamente começaram no dia seguinte à aprovação do plano de partilha, em 29 de novembro de 1947.   Todos os judeus com idade entre 17 e 25 anos foram obrigados a se apresentarem para o serviço militar. O líder sionista David Ben-Gurion, no dia 05 de dezembro, ordenou “ação imediata” (Michael Palumbo em The Palestinian Catastrophe: The 1948 Expulsion of a People from Their Homeland. Boston: Faber & Faber, 1987) para expandir os assentamentos judeus em três áreas destinadas pelas Nações Unidas ao estado árabe da Palestina.

          Em meados de dezembro os sionistas começaram uma ação militar contra os árabes na Palestina, de acordo com o Plano Gimmel, destinado a ganhar tempo para que as forças judias tomassem pontos estratégicos abandonados pelos britânicos, para aterrorizar as populações árabes e subjugá-las. Já em 18 de dezembro as tropas Palmach atacavam, acobertados pela escuridão e calada da noite, a aldeia palestina de Khissas, no norte da Galiléia, matando cinco adultos e cinco crianças. Este fato foi o primeiro dos ataques que iriam arrasar centenas de aldeias palestinas.

          Dia 19 de dezembro, Ben-Gurion ordenou que as forças judias atuassem agressivamente, declarando: “Em cada ataque, deve haver uma explosão decisiva, resultando na destruição de moradias e na expulsão da população” (ver Palumbo, obra citada acima, página 40).

          Então, quando as forças de cinco exércitos árabes entraram na Palestina, no dia 15 de maio de 1948, os sionistas já estavam bem adiantados na execução de seus planos de guerra.   É mentira amplamente divulgada, ao estilo de Joseph Paul Goebbels (1897-1945) de que uma mentira deve ser repetida à exaustão, até que as pessoas acreditassem que os exércitos árabes atacaram no dia seguinte à proclamação do Estado de Israel. Se a proclamação de Israel foi em 29/11/1947 e o ataque árabe foi tão somente em 15/05/1948, este “dia seguinte” foram 168 dias depois. Outro erro é a afirmação de que eram sete os exércitos árabes, com a intenção de magnificar a importância dos atacantes.

          Outra afirmação goebbelsiana é que o ataque dos exércitos árabes forçou a saída do povo não judeu da Palestina. Isto fica cabalmente desmentido quando se lê o relato pessoal do líder judeu David Ben-Gurion gravado em sua história pessoal de Israel: “De 1946 a 1947 escassamente ocorreu qualquer ataque árabe contra o Yishuv” [a comunidade judia na Palestina] (David Ben-Gurion, Israel: A Personal History. New York: Funk & Wagnalls, 1971, página 63). Enquanto isto os ataques entre árabes e judeus se multiplicavam, porém os judeus tinham uma supremacia incontestável e o número de seus ataques era tremendamente maior que os mirrados ataques árabes. O relatório do britânico Major R. D. Wilson, de 1948, amplamente encontrado em diversas publicações da época e outras mais recentes, afirma sem rodeios: “[Eles fizeram] ataques bestiais às aldeias árabes, nos quais não mostraram a menor discriminação a mulheres e crianças, os quais mataram à medida que a oportunidade se apresentava” (Ver in John Quigley, Palestine and Israel: A Challenge to Justice. Durham: Duke University Press, 1990, página 41).

          A fuga dos palestinos foi devida a este tipo de ataque a suas aldeias, tais como a já citada Khissas, a Deir Yassin (254 homens, mulheres e crianças árabes massacradas a tiros de metralhadoras e em seguida esmagados por buldozeres), relato pessoalmente ouvida de palestinos refugiados na aldeia libanesa de meus antepassados, e a de Dawayima (ninguém sobrou para contar a história). Estes massacres foram comandados por Menachem Begin, liderando o Irgun e Yitzhak Shamir, liderando a Stern Gang. Não se pode chamá-los de assassinos e criminosos de guerra, pois ambos assumiriam depois o cargo de Primeiro-Ministro de Israel e, consequentemente, daqueles que chegaram a tão alto posto, só se pode dizer deles, aquilo que proclamou ironicamente Anthony, na peça Julius Caesar de William Shakespeare (1564-1616): “Temo ser injusto com os homens honrados cujos punhais esfaquearam César, eu temo isto”.

          A “Mãe de Israel” tem a primazia de inaugurar uma série de mentiras que são repetidas enquanto o tempo passa, na tentativa de justificar os crimes israelenses contra os palestinos. Alguns destes iremos contar aqui.

José Farhat

12/12/2012

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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