A verdadeira Primavera na Tunísia

           A luta política na Tunísia continua, até o presente momento, contida e civilizada, mas há apreensão de que possa, a qualquer momento, se converter em discórdia civil, como resultado da radicalização entre as duas agremiações que mais se aproximam do novo momento da verdade que vive a revolução presente, cujas realizações poderão se espalhar sobre o Mundo Árabe.

          A manifestação realizada dias atrás, em Tunis, pelo movimento laico civil que deriva do caminho traçado por Habib Bourguiba teve presença de tantos tunisianos a ponto de parecer se tratar de uma indenização pelo fracasso eleitoral obtido na indicação de representantes na Câmara dos Deputados, diante do movimento islamita salafista que conquistou mais da metade dos assentos parlamentares aos quais se juntam os apoiadores do governo atual. A luta presente é para angariar votação majoritária que possa influenciar a comissão encarregada da redação da nova Constituição.

          Esta manifestação foi também uma resposta à outra, realizada semanas atrás, pelo movimento islamita salafista que defende a adoção da Lei Islâmica (a Sharia) e a formação de um governo islâmico, com tudo o que deriva de seu entendimento do que é o Islã e sua forma de governo e sua aplicação à política, à economia, à sociedade, à mulher, sem se preocupar com o fato de estar provocando a discordância com os revolucionários tunisianos somados àqueles retornaram do no exterior.

          As duas manifestações encorajaram discussões entre as duas partes, nas ruas e praças, nas universidades e toda a mídia a respeito da identidade nacional que a própria revolução lançou como assunto de debate e que derivou ultimamente para o levantamento de prós e contras de assuntos que dizem respeito à fé. Os movimentos islamitas, com toda a força de sua radicalização, propõem a inclusão na Constituição de fatos tais como o tratamento a ser dado à queima do Alcorão sagrado alhures e outros atos praticados por inimigos do Islã e dos muçulmanos; o que contraria totalmente e de forma inusitada e põe em perigo uma sociedade tunisiana conhecida como a mais firme fortaleza árabe do laicismo que se confrontaria com uma experiência sem igual de governo islamita.

          A revolução começou para tirar o povo tunisiano do jugo de seus opressores, internos, guardiões de interesses externos, e tirá-lo do desemprego e falta de liberdade. O que se discute e se combate agora é a devastadora ocupação islamita da sociedade e dos órgãos governamentais a qual, se assim continuar, transformará a revolução popular e espontânea que se tornou um movimento liberal e organizado numa movimentação, sob o manto de partido político ou aliança entre partidos que propugnam por interesses iguais, aliada a elementos opressores do regime anterior.

          O povo tunisiano nada tem contra o Islã e o tem como sua fé, mas não quer que comícios pelo estabelecimento de um califado, organizado por elementos que se escondiam atrás do regime anterior e que agora estão sendo financiados com dinheiro de outra cor, lhe tomem a bandeira revolucionária transformados, da noite para o dia, em defensores da liberdade e da democracia.

          As flores e as borboletas da Primavera Árabe pertencem ao povo tunisiano, dono de sua revolução, não aos vira-casacas que usam o Santo Nome de Deus em vão.

José Farhat

em 14/08/2012

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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