O Egito numa encruzilhada

Não deve existir uma só pessoa interessada nos assuntos egípcios para a qual não lhe tenha ocorrido perguntar por que o Conselho Superior das Forças Armadas do Egito (CSFA) – detentor de todos os poderes nos bolsos de suas fardas, ordem unida por corneta, clarim, apito, gestos e voz do Marechal de Campo Muhammad Tantawi – acabou aceitando o resultado das urnas as quais, apesar de mãos invisíveis, elegeram presidente da república o Dr. Muhammad Mursa, representante da Irmandade Muçulmana. Ninguém, igualmente, ignora que os interesses dos membros CSFA, desta forma, foram certamente contrariados.

A resposta, no entanto, é muito clara, tão clara quanto o brilho do sol nos desertos egípcios: o Egito após o 25 de janeiro de 2011 não é mais o mesmo e quem teve o privilégio de, como eu, ir à praça Tahrir por duas vezes, até dois dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, e conversar com aqueles que lá estavam de plantão, passou a ter certeza que uma volta ao antigo regime não é tolerado pelo povo egípcio.

Os militares do CSFA até tentaram e lutaram por isto de diversas maneiras: mandando aceitar candidatos inaceitáveis e não aceitar candidatos aceitáveis, trocar ministros e ordenar a dissolução do Parlamento e tudo o mais, mas o povo, na voz do presidente eleito do legislativo e membro da direção da Irmandade, foi lá e comunicou ao sub-chefe do CSFA, General Sami Annan e outros militares presentes à reunião, a rejeição da Emenda Constitucional pela qual o CSFA retoma o poder legislativo. Informou também que o Parlamento se reuniria naquele mesmo dia, como Assembleia do Povo e retomaria suas atividades.

Nem foi necessário o confronto: os miliatares já sabiam disto, que desde o primeiro dia do levante, o povo não admitiria “meia-volta-volver”! O povo egípcio, de seu lado, sabe que ganhar as eleições é apenas uma etapa, e que o caminho a percorrer até a realização de sua vontade é longo e pedregoso. É o que anunciava a espera pela declaração dos resultados das eleições no segundo turno, sob o sol ardente do Egito inteiro, minuto e minuto.

De nada adiantou o recurso do General Ahmad Chafic ou os rumores e desinformações da mídia – que continua nas mãos daqueles mesmos que a dirigiam durante o antigo regime – de que a Irmandade havia manipulado as urnas, que Mursi havia perdido, e que sua organização estaria preparando uma insurreição armada. O General era a última esperança para aqueles que queriam manter o poder que Hosni Mubarak lhes havia concedido, mas a vontade do povo foi mais forte.

O Marechal Tantawi deve ter pensado no que viu quando voltou de sua visita ao Pentágono, em Washington, um dia após o início da revolta e também em tudo o que vem acontecendo desde então, e como militar que quer guardar algum poder, ordenou a capitulação.

O povo egípcio, no entanto, deve ficar atento, pois Chafic e sua claque de homens de negócios e militares, continuarão a fazer de tudo para recuperar seus antigos privilégios e lucros às custas da fome do povo egípcio.

Abre-se agora uma nova etapa, o primeiro presidente civil eleito tomou posse no dia 24 de junho de 2012 e pediu demissão da Irmandade Muçulmana e do Partido da Liberdade e da Justiça, confirmando que governará como presidente de todos os egípcios.

Nas ruas do Cairo e de todas as cidades egípcias basta ouvir o povo e constatar que cada um entendeu o significado de tomar o caminho após passar por esta encruzilhada. É uma alegria constatar que as vozes mais ouvidas são as dos jovens e que o Egito inteiro se transformou numa praça Tahrir, conscientes de que a hora da Ditadura e da subserviência aos interesses estranngeiros passou.

Não importa que a vantagem do prpesidente eleito tenha sido de apenas um milhão, pois o resultado significou uma vitória do povo que anseia por mudança, mãos limpas e sem trabalho, pobre mas honrado, contra toda a a força do regime da corrupção e do entreguismo. É por esta razão que a vitória representou muito mais que um milhão a mais de vozes, é a esperança num futuro melhor.

José FARHAT

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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