O Islã: objeto de dominação

PREFÁCIO

Tenho plena liberdade de falar sobre religião! Meus pais professavam duas das três religiões abrahâmicas: islamismo e cristianismo e, conseqüentemente, a fé não era motivo de discórdia em casa; cada um na sua.

Não se vai tratar aqui dos fundamentos de qualquer religião e sim quando, onde e como esta intervém no político e se transforma em objeto de dominação.

DISCUSSÃO

No verão de 1941, no Líbano para onde tínhamos ido passear e a II Guerra Mundial nos surpreendeu e não pudemos voltar para o Brasil. Os Aliados acabavam de reconquistar o Líbano e a Síria que estavam sob domínio direto da França ocupada de Pétain e indireta da própria Alemanha. Eu estava de férias e fascinado pela presença dos soldados aliados britânicos e a eles atrelados soldados indianos e australianos, e franceses livres do General de Gaulle rebocando soldados dos domínios africanos e asiáticos. Era a chamada Campanha da Síria ou Operation Exporter.

Eu tinha 12 anos e, curioso como sempre, fui à porta de uma caserna e aproximei-me do guarda. Era um soldado senegalês alto como todo habitante do Sahel e eu nem chegava à altura do cinturão dele. Vestia botas, meias, calça curta, cinturão com tudo o que contém um cinturão de soldado, blusa e, na cabeça, um tarbuche. Eu tinha a estatura do fuzil que ele mantinha no chão. Tal um Petit Nicolas olhei para cima, lá nos olhos do negão e disse: “Monsieur, qu’est-ce que vous venez faire ici”? (Senhor, o que os senhores vieram fazer aqui?). E ele respondeu, olhando de baixo para cima: “Nous vient ichi chiviliser vous” (Nós vem aqui chivilizar vocês).

Era o que o escravo senegalês sempre ouviu e aprendeu com seus senhores franceses. Ele, muçulmano como a maioria dos senegaleses (cerca de 94 % da população), certamente não sabia que naquele tempo Beirute já tinha três universidades e o engraxate falava duas línguas além do árabe. Para seus senhores, nós éramos o “outro” a ser conquistado e subjugado. Estratos sucessivos da História contribuíram para formar esta visão, desde o sentimento antigo de uma ameaça ligada à expansão relâmpago do Islã entre os séculos VII e IX; o vestígio de Charles Martel impedindo o avanço dos sarracenos em Poitiers, quem sabe uma imprecisa idéia das Cruzadas tentando reconquistar o túmulo de Jesus Cristo; a fricção entre cristãos e muçulmanos, mais para cá no tempo o Império Otomano potencia européia nos séculos XV e XVI chegando às portas de Viena. Na cabeça deles só cabia: nós, o Ocidente, contra o outro o árabe o muçulmano.

Assim perdura na mente colonial: francesa, alemã, britânica, portuguesa, belga; a memória de uma Europa triunfante, segura de si mesma e dominadora, levando a civilização aos “povos inferiores” uma visão que além de racista é religiosa e que se avoluma à medida que os povos muçulmanos vão atualmente chegando na atual Europa para exercer tarefas que contribuem para o avanço econômico europeu. Só que a sociedade européia olha hoje os bairros das periferias onde ficam os imigrantes muçulmanos com um misto de curiosidade perturbadora, fascinação e medo, como olhavam seus jardins zoológicos humanos da era colonial; tanto faz o taxista turco na Suíça, o metalúrgico argelino na França, o professor universitário paquistanês no Reino Unido, o amolador de facas moçambicano em Portugal; todos úteis, mas muçulmanos, os outros com relação ao ocidente. Enquanto fornecerem mão de obra barata, prestarem serviços que os senhores coloniais não querem prestar, tudo bem, até certo ponto.

Nas décadas de 1990 emergiu “a ameaça islâmica” quando desde o Irã ao Egito, do Afeganistão à Palestina, o mundo muçulmano passou a ser considerado como o lugar onde estão todos os fanatismos considerados uma ameaça ao Ocidente, sem serem levadas em consideração as causas de tais surgimentos.

Com a queda da União Soviética os estrategistas e os aparelhos militares e policiais ficaram tontos à procura de “um novo inimigo” capaz de justificar sua sobrevida e os orçamentos que engolem irresponsavelmente.

Foi quando surgiu a idéia do “choque das civilizações”. Construiu-se o “islâmico” e o “árabe” como o Outro, em oposição a “nós, o Ocidente”. Árabe e Islâmico passou a representar o atrasado, o exótico, o ameaçador, o anacrônico, o terrorista a ser perseguido e dizimado com todos os seus.

Diga-se o que se quiser, mas existe realmente uma luta do Ocidente que não é preferencialmente contra o Islã e a favor do cristianismo e do judaísmo, ou vice versa, destas sendas da fé contra o Outro. Esta luta é na realidade uma guerra sem trégua do chamado Ocidente, não no campo das religiões e sim na arena política e econômica contra o Islã e contra os árabes, contra o Outro enfim.

Esta guerra não começou com a publicação em 1990 na The Atlantic do artigo de Bernard Lewis, The Roots of Muslim Rages [As raízes das Raivas do Islã], no qual indaga porque tantos islâmicos têm tantos rancores do Ocidente e porque esta amargura não será facilmente aplacada, concluindo que se deve evitar o perigo de novas guerras religiosas advindas da exacerbação das diferenças entre elas.

Nem tampouco a guerra teve início com o livro publicado por Francis Fukuyama, em 1992, The End of History and the Last Man [O fim da História e o Último Homem], discursando que após a queda do muro de Berlim e a derrocada do “socialismo realmente existente”, em oposição à proposta capitalista de mercado do “mundo livre”, restavam confinados apenas os vestígios de nacionalismos e do fundamentalismo islâmico, concluindo que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, significando, nesse sentido, o “fim da história” da humanidade e o aparecimento de um horizonte único e intransponível e viva a revolução da digitação, do gerenciamento, do sexual até, desde que não seja política.

Também não foi iniciada a peleja com Samuel P. Huntington, que em artigo de 1993 publicado na Foreign Affairs, The Clash of Civilizations [O Choque de Civilizações], retoma a tese de Lewis e conclui que os melhores espíritos prognosticavam um reino longo e pacífico para a hiperpotencia estadunidense que somente um choque entre civilizações, ou melhor, sem rodeios, entre religiões, contra o Islã conseguiria perturbar o fluxo tranqüilo da história. Os neoconservadores já conheciam e já haviam arquitetado uma a solução: uma guerra preventiva contra o terrorismo islâmico que mostrou sua cara no 11-de-Setembro. Que se danem os povos e que continuem condenados a ouvir as ordens policiais presentes em toda tentativa de manifestação: “Vão andando, não perturbem”!

Se quem começou a guerra contra o Islã, política e econômica, porém mascarada de religião, não foram estes intelectuais, muito menos poderia ser obra do analfabeto George W. Bush.

Com o ataque de 11 de setembro de 2011, a New York e Washington, Al-Qaeda prestou mais um serviçozinho ao fundamentalismo cristão estadunidense, às sete irmãs do petróleo e às indústrias de material bélico permitindo que o seu porta-voz de plantão, o presidente Bush filho, pronunciasse um discurso dizendo que “Esta cruzada, esta guerra contra o terrorismo vai tomar algum tempo” e após distribuir ameaças para todos os lados, atirando como caubói, declarou que venceria “a primeira guerra do século XXI decididamente”. Quando ele declarou vitória a bordo de um porta-aviões ancorado num porto estadunidense os Estados Unidos estavam já começando a perder a guerra. Esta seria mais uma mentira.

As palavras levianas de George W. Bush após o 11-Setembro sobre a cruzada e o Islã tem raízes mais profundas e têm origem em três estratos separados do Ocidente: o político (governos, agências de inteligência, lobby de interesses tais como petrolíferas e indústrias principalmente de armamentos), certos membros do clero e membros influentes da sociedade (artes, mídia etc.). O mesmo Bush, cinco anos depois, em 10-08-2006, discursou dizendo que “esta nação está em guerra contra os fascistas islâmicos”. Estão com ele, com palavras e ações, seus antecessores e sucessores e assim continuarão até quebrarem ou vencermos, ou ambas.

Bush declarou a X Cruzada justificando-a com a mentira de que o Iraque dispunha de armas de destruição em massa e que os ataques às Torres Gêmeas, ao Pentâgono e ao terceiro alvo não atingido tinham sido levadas a cabo por uma associação de Saddam Hussein com Usama Bin Ladin, o que significa: guerra ao Islã.

O ataque ao Iraque já estava programado e o 11 de Setembro só veio agilizar e dar desculpa, ainda que mentirosa, à guerra. Uma geração inteira de iraquianos já estava comprometida e de nada valeu o fato de Saddam Hussein entrar numa guerra contra o Irã, a serviço e com a ajuda dos Estados Unidos. Hoje, entrando no segundo decênio dos ataques à Mesopotâmia, nenhum benefício foi trazido ao povo iraquiano, muito pelo contrário, pois a potência ocupante encoraja o litígio entre árabes, xiitas e sunitas, e curdos, uma herança maldita da Grã Bretanha

Nada de novo sob o sol, pois as nove cruzadas anteriores tinham sido engendradas, com o financiamento da Igreja, não para reconquistar o túmulo de Cristo e sim para estender as propriedades da Santa Sé e as riquezas vaticanas. Foram todas, desde a Primeira Cruzada, iniciada em 1096, pelo Papa Urbano II, atendendo inicialmente a um apelo do Imperador bizantino Alexios I Komnenos para que fosse socorrido em sua guerra contra o Islã e que se revelou uma forma de reabrir o mercado comercial internacional para o Ocidente, fechado desde a queda do Império Romano Ocidental. As provas de que a reconquista da Terra Santa não passava de pretexto está comprovada de diversas formas: as terras conquistadas não foram devolvidas a Bizâncio e quando finalmente Jerusalém foi conquistada, em 1099, todos os seus habitantes: muçulmanos, judeus e cristãos orientais foram cruelmente mortos.

A Igreja Apostólica Romana nunca deixou de financiar guerras de conquistas, como é o caso das expedições portuguesas para a garantia do domínio do caminho da seda e das especiarias, quando foram construídos fortes em Barein, Ormuz, Omã, Goa, Calecu, Cochim e outras praças com a desculpa de sempre, como cantou Luís de Camões: “Do Mouro ali verão que a voz extrema / Do falso Mahamade ao Céu blasfema” e “Ali, verão as setas estridentes / Reciprocar-se, a ponta no ar virando, / Contra quem as tirou, que Deus peleja / Por quem estende a fé da Madre Igreja”. Ficou no esquecimento do vate lusitano mencionar a conquista das riquezas orientais que buscavam seus compatriotas.

Como nas Américas não havia muçulmanos, a desculpa para as descobertas era levar a fé cristã ao Novo Mundo; mataram os indígenas, roubaram as terras e as riquezas, mataram aqueles que resistiram; Portugal e Espanha ficaram ricos, riqueza que durou pouco e foi parar nas mãos da Inglaterra.

A Grã Bretanha, após a conquista da Índia, encorajou as refregas entre muçulmanos e hindus, incentivou a divisão milenar do povo em castas intransponíveis, para que lhe fosse possível dominar a todos com relativamente poucos soldados e se dedicar a roubar as riquezas do subcontinente indiano.

Por volta da I Guerra Mundial, garantido o caminho da Índia e suas riquezas através do Canal de Suez a Grã Bretanha tinha outros objetivos mais. O Canal de Suez, todo controlado e a margem oeste do Mar Vermelho, com a ocupação do Egito, do Sudão e Aden, do outro lado do estreito de Bab al-Mandeb, na parte setentrional do Iêmen Queriam ocupar também a margem ocidental do Mar Vermelho, mas aí surgiu o problema com os muçulmanos indianos que não iriam gostar que uma potência não-islâmica ocupasse os lugares santos do Islã.

A Grã Bretanha encontrou a saída: fez um acordo com o Cherif Hussein bin Ali al-Hachemi, prometeu-lhe a independência de toda a Arábia limitada ao sul pelo Mar de Omã, subindo por toda a costa oriental do Golfo Arábico Pérsico, toda a fronteira com a Pérsia, ao norte a fronteira turca e descendo pelo Mediterrâneo oriental até chegar ao Mar Vermelho.

Ao mesmo tempo, a Grã Bretanha combinou secretamente coma França algo completamente diferente: a divisão de tudo entre eles e a criação de Iraque, Síria, Líbano, Palestina (da qual retirariam depois a então Transjordânia).

Enquanto isto, em Londres, o Foreign Office, por desconfiar dos muçulmanos árabes, pura e simplesmente viu na reivindicação de um Lar Nacional Judeu na Palestina a oportunidade de criar um estado com população européia confiável e prometeu também a Palestina aos sionistas.

A margem oeste do Mediterrâneo foi ao mesmo tempo prometida aos sauditas, traindo-se o Cherif Hussein por ser a tribo de Ibn Saud mais confiável, pois Abdul Aziz já estava na folha de pagamento do governo britânico há muitos anos, sendo pago à razão de 100.000 libras de ouro por ano e com ela contavam também para apaziguar os xeiques beduínos do Golfo Arábico e dominar o petróleo da região.

Com todas estas trapaças, a Grã Bretanha já estava com seu destino selado e destinada a ser subordinada aos Estados Unidos e tudo por conta da ocupação das terras árabes e islâmicas, com o conluio de árabes e muçulmanos.

 Calouste Sarkis Gulbenkian, nascido armênio otomano, começou a trabalhar no ramo de petróleo para o governo otomano, optando depois por se naturalizar britânico e passou a trabalhar para Sua graciosa Majestade Britânica e organizou a Royal Dutch, hoje Shell. Logo em seguida incluiu em suas fontes de renda também as petrolíferas estadunidenses. Criador da Turkish Petroleum Co., Ltd., depois Iraq Petroleum Co., Ltd. acertou a divisão do petróleo entre esta e a Anglo-Persian Oil Co. (hoje British Petroleum), a Royal Dutch-Shell Group, a Compagine Française des Pétroles, a estadunidenses Standard Oil e Socony Mobil Oil através da Near East Development Corp., dando a cada uma 23,75 % e para ele Gulbenkian 5% e passou a se chamar Mr. Five Percent.

Sabemos como se desenvolveria a história de dois povos islâmicos: o árabe iraquiano e o persa, objetos de dominação.

Os demais, assim seriam também.

CONCLUSÃO

            O Islã visto daqui de fora foi construído como objeto a ser controlado, dominado, domesticado, submetido por potências que estão interessadas em suas riquezas, em seu petróleo.

            O Brasil, que se cuide, seu petróleo parece ser mais abundante do que se poderia imaginar e, como aqui não há Islã, já começamos a sentir o assanhamento ao norte do equador.

José Farhat

08/11/2011

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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3 respostas para O Islã: objeto de dominação

  1. Ed Torres disse:

    Uau! Que beleza de resumo!
    É como se diz aqui: “Follow the money and you will discover the real reason on how things and conflicts happen” – “Siga onde o dinheiro está e descobrirá a verdadeira razão pela qual as coisas e conflitos acontecem”.

  2. Richard de Araújo disse:

    Fui leitor do Brasil no Líbano e adquiri grande respeito e carinho pelo povo daquele país.
    Fazia tempo que não lia uma explicação tão clara e interessante com misto de diário e de história. Meus parabéns.
    Richard

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