Ataque da OTAN à Líbia abre frente em Brasília

A versão eletrônica do jornal O Estado de São Paulo de 19/08/2011 publicou sob o título: “Embaixada da Líbia em Brasília é alvo de protestos”, notícia de uma tentativa de hastear a antiga bandeira líbia, anterior ao regime da Jamahiriya de Kaddafi, em terreno da Embaixada líbia em Brasília. Àquela altura, a representação da Líbia no Brasil estava a cargo da missão chefiada pelo Embaixador Salem Zubeidi. Era uma situação perfeita em sua legalidade plena. A invasão da Embaixada por cidadãos líbios, se é que líbios são, e seus asseclas, se é que os há ou houve não importa, é crime.

Os chamados insurgentes aos quais se refere o Estadão, lá na Líbia ou aqui entre nós, não passam disto, são insurgentes contra um governo que até há pouco tempo atrás era reconhecido por todos aqueles países que hoje o atacam e que apoiavam apenas alguns meses atrás.

A cautela brasileira se justifica e o Embaixador Antonio Patriota, Ministro das Relações Exteriores, a definiu muito bem ao afirmar que não reconhecemos governos e sim estados e, para o Brasil, enquanto a situação líbia continuar caótica e não tivermos segurança de que os investimentos e empreendimentos brasileiros naquele país árabe não forem garantidos, não haverá mudanças.

O governo líbio comandado por Muammar al-Kaddafi nunca foi flor que se cheirasse, mas os países que o atacam hoje são os apoiadores de ontem.

O que teria mudado? É simples, a Líbia é a maior fornecedora de petróleo da maioria dos países europeus que formam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (a OTAN) e o maior investidor em tudo o que é fundo soberano destes países. Como Kaddafi, que se costuma dizer: “é louco, mas tem juízo” pretendeu mudar a política de petróleo e investimentos, passou a ser considerado o que sempre foi: um fora da lei a ser perseguido.

Estes países foram ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, chefiados pelo governo dos Estados Unidos, e com a influência deste país, obtiveram um mandato “para defender o povo líbio contra os ataques do governo líbio” e daí, com esta autorização em mãos, foram matar os cidadãos líbios que diziam pretender defender, salvo os tais rebeldes, por eles financiados, os mesmos que nunca defenderam, durante os decênios de governo de Kaddafi.

Isto lembra Saddam Hussein, igualmente um amigo cujos desmandos deles fechavam os olhos, passou a ser um inimigo a ser perseguido pelas mesmas razões que Kaddafi: alteração nas políticas de investimento e petróleo. Foram lá, chefiados pelos estadunidenses, e ocuparam o país com prejuízo de vidas e o comprometimento de toda uma geração de iraquianos.

No Iraque, os Estados Unidos continuam sua ocupação e hoje estão tratando de “lamber sua assinatura” do tratado que assinaram com o governo iraquiano, democraticamente eleito, assegurando a retirada de suas tropas no final deste ano de 2011.

Conhecedor algum dos meandros das políticas dos governos árabes os está defendendo, e muito menos Kaddafi ou Saddam, mas urge, e é dever, apontar a falta de lógica comportamental e as políticas de conveniência, de dois pesos e duas medidas, praticadas pelos países chamados ocidentais, aqueles que compõem a OTAN, o exemplo máximo de cinismo que uma organização multilateral jamais poderia apresentar.

Apoiaram eles o governo de Husni Mubarak durante decênios e foi necessário o próprio povo egípcio se rebelar com demanda de justiça como armas para derrubá-lo. O regime de Mubarak lá estava apoiado e incentivado porque rezava pela cartilha dos Estados Unidos e asseclas. Não havia diferença entre um Mubarak e um Kaddafi, assim como não há diferença entre estes e os governantes do Iêmen e de Bahrein, o que permite perguntar por que na Líbia é necessária uma intervenção, como também houve no Iraque e nestes dois países não?

José Farhat é cientista político.

São Paulo, 25 de agosto de 2011.

 

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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