Primavera árabe e efeito dominó

por José Farhat

Seja lá qual o nome que se queira dar ao levante que começou na Tunísia e se espalhou pelos países árabes e está sendo imitado pelas manifestações, na França, contra a reunião do G8, o importante é notar que são os jovens – formados, a caminho da formatura ou além dela, ou analfabetos mesmos, geralmente desempregados, que estão levando às praças públicas, o seu desagrado com o destino que se está dando a seus países. Este é um traço comum a todos os levantes.

Nos países árabes, por mais que Barack Obama se esforce para mudar o rumo da política exterior de seu país, o outro traço importante é que os ditadores responsáveis pelos países árabes onde ocorreram levantes e outros onde ainda o haverá, são responsáveis pelos males políticos, culturais e sociais de seus respectivos países. Deve ser notado adicionalmente que todos estes governantes responsáveis pelos regimes ditatoriais dos países árabes que já foram ou serão derrubados, têm traços imorais comuns: acumularam riquezas e provocaram a miséria de seus povos. Além disto, são todos coniventes, direta ou indiretamente, com os Estados Unidos, o seu protegido Israel e os aliados destes dois, favorecem os interesses destes e são indiferentes para com aquilo que é vantajoso para os seus próprios países. Estes governantes primam pela omissão com relação à causa palestina, um angustiante problema para qualquer árabe, um problema que o cinismo não pode solucionar.

No dia 17 de dezembro de 2010, Muhammad Buazizi, um jovem tunisiano desempregado que procurava, na capital, ganhar alguns trocados vendendo verduras produzidas no minúsculo pedaço de terra da habitação rural de sua família teve sua mercadoria tomada e foi espancado pelos guardas municipais que tentavam extorquir-lhe o pouco que tinha no bolso e humilhado ao extremo, comprou gasolina e, ao atear fogo em si mesmo, transformou seu ato na centelha que iria inflamar a Tunísia e todo o mundo árabe.

A Tunísia, o Mundo Árabe e o mundo inteiro foram tomados de surpresa. A notícia de sua morte foi transmitida através da internet e começaram as demonstrações durante o fim de semana de 8 a 9 de janeiro que culminariam com o colapso do governo do ditador presidente Zine al-Abdine Ben Ali que fugiu para a Arábia Saudita, após 23 anos de governo de força.

É importante notar que todas as tentativas posteriores de colocar no governo, ainda que provisoriamente, alguém pertencente governo deposto ou aliado de Ben Ali foram derrotadas pela força das demonstrações populares. O movimento popular propiciou a volta de líderes tradicionais exilados e a libertação de prisioneiros políticos detidos há décadas.

Esta mudança de rumo inesperada, rápida e extraordinária na Tunísia incentivou o aparecimento de outros movimentos semelhantes na África do Norte e no Oriente Médio, num ritmo acelerado.

Quem acompanha a revolta da Praça Tahrir, com todo o seu poder não-violento, nota claramente que a atitude das Forças Armadas egípcias, sob o comando do Marechal Mohamed Hussein Tantawi, foi muito clara: o Exército não vai atirar em seus concidadãos. Quando o movimento tomou a praça e não deixou que a Polícia os dispersasse e não permitiu que indivíduos ou grupos suspeitos tomassem as rédeas do movimento, o Marechal estava, naquele momento, com seus pares e amigos, no Pentágono em Washington e veio correndo para o Cairo.  Logo ao chegar constatou o militar e seus comandados a seriedade do movimento e a determinação dos revoltosos e o Marechal resolveu ir até à Praça, num gesto que foi tomado pelo povo como apoio.

Seguindo os passos de Tantawi cada vez mais compreensível com seu povo pode-se medir a preocupação crescente que tomou conta de Washington e apavorou Tel Aviv. Outros fatos elevariam a intranquilidade de estadunidenses e israelenses ao máximo: silêncio de múmia por parte dos militares, afrouxamento da fronteira com Gaza, a ocorrência controvertida com o gás egípcio que é fornecido a Israel,
culminando com a autorização de passagem de dois navios de guerra iranianos
pelo Canal de Suez, apesar da grita meio surda de Tel Aviv e daí por diante.

A força da praça se fez sentir, influenciando nas decisões do Comando Militar a demitir um Primeiro-Ministro provisório da era de Hosni Mubarak e nomear outro, amigo da Praça Tahrir, o ex-Ministro dos Transportes Essam Sharaf.

Washington e Tel Aviv passaram então a temer pelo destino que a Junta, sob pressão da Tahrir, poderia dar ao Acordo de Paz Egípcio-Israelense, com a possibilidade até mesmo de sua anulação. Este Acordo contraria abertamente todos os povos árabes e traz consigo o que é considerada uma traição à causa palestina e às aspirações do povo árabe em geral e daí o perigo de não subsistir.

Estados Unidos e Israel pensaram imediatamente numa forma de fingir amizade e preparar o isolamento do Egito: Israel e Arábia Saudita de um lado, uma Líbia ocupada do outro lado e a Marinha estadunidense ao norte.

Alinhando estes acontecimentos da aurora e manhã da revolução egípcia constata-se a existência dos mesmos elementos que foram causa para o movimento pioneiro tunisiano e que os efeitos caminham na mesma direção.

A Líbia é nota destoante na harmonia dos levantes árabes. Rico em petróleo e com baixa densidade populacional, foi fácil para o governante líbio comprar o silencio e, às vezes, até mesmo a conivência da população na condução dos negócios do
país.  Uma importante semelhança com os demais países árabes é que suas fronteiras foram traçadas a régua pelas potências internacionais, deixando nesta suposta união o fermento para a dissensão que surgiria tão logo as petrolíferas ameaçadas de desapropriação convencessem a seus respectivos governos que exercessem seu poder para reocupar a Líbia.

Os Estados Unidos conseguiram aqui sub-rogar o seu papel de gendarme do mundo à Aliança Atlântica, por diversas razões, principalmente internas. É possível que o Presidente Obama já estivesse também planejando a sua guinada declarada no seu discurso aos árabes.

A guerra que disfarça a defesa e proteção do povo líbio e na realidade procura dominar o petróleo sem o qual a Europa inteira sofrerá problemas insolúveis ainda está em curso.

Já os demais países têm o mesmo quadro básico daqueles acima citados. Fora o regime monárquico em Barein e o republicano no Iêmen, ambos têm litígios e desavenças internas, nos dois países levadas a cabo por governantes corruptos que ignoram o seu povo e são aliados das grandes potências internacionais que utilizam nos citados países bases de grande importância para o escoamento do petróleo.

Se for fácil entender o que aconteceu na Jordânia e no Marrocos, com seus monarcas atendendo rapidamente reivindicações gritantes da população, não se pode dizer o mesmo da Síria e da Argélia, ambos os países atormentados por tentativas de tomada do poder por elementos de inspiração religiosa retrógrada e governos reagindo impiedosamente aos reclamos do povo.

Líbano e Iraque, o primeiro antes ocupado e o segundo ainda ocupado por forças estrangeiras, têm brigas intestinas entre facções religiosas criadas e alimentadas desde o exterior para criar condições de domínio o que se assemelha a qualquer outro Emirado do Golfo.

A Arábia Saudita, temendo que a revolução chegue a seu território, está até mesmo mandando tropas a outros países no intuito de proteger o seu próprio regime e usando da tática que ensinaram à Líbia: muito dinheiro, população escassa, fácil de comprar.

O que há de positivo em todos estes movimentos é a prova da força dos povos e a fraqueza dos aparentemente fortes governantes que caem com uma rapidez incrível. A tenacidade do povo tem muito a ver com isto, principalmente a dos jovens, e ninguém acreditaria nisto antes de dezembro de 2010.

Com as crises financeiras que grassam principalmente os países da Europa oriental, a primavera árabe não se limitará à juventude que se manifesta contra as grandes potências na França, e não ficará limitada à África do Norte e Oriente Médio.

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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4 respostas para Primavera árabe e efeito dominó

  1. Fabio disse:

    Prezado,
    O Senhor saberia informar quantos países passaram a protestar nos mesmos moldes dos protestos da Tunísia?
    Obrigado.

    • José FARHAT disse:

      Prezado Fabio,
      Sem exagerar, eu diria que todos os países árabes seguirão pelo caminho aberto pela Tunísia; alguns já passaram por ele (Egito, Jordânia), outros estão tomando o mesmo caminho (Síria, Bahrein, Argélia, Iêmen) e alguns estão ensaiando (Iraque) e finalmente todos os demais que completam os 22 países árabes fatalmente chegarão a isto. Os caminhos não são curtos para alguns; a exemplo dos casos de Líbia, Arábia Saudita e Omã, cujos governos reagiram “comprando” os cidadãos de seus países. É diferente do caso da Somália que está há muitos anos sem governo ou do Iraque que apesar de ter um governo eleito continua com os seus problemas internos, raciais e confessionais, atrapalhando o acesso à paz. O Líbano não está conseguindo formar um novo governo, mas assim mesmo está relativamente em paz, atrelado, de certa forma, ao desenvolvimento dos acontecimentos na Síria. Não nos esqueçamos da situação entre Marrocos e Mauritânia a respeito do Saara Ocidental: uma controvérsia que deve ser solucionada antes que se possa ter soluções a exemplo da Tunísia ou recrudescimento da disputa entre os dois. Emirados Árabes, Catar e Kuwait, serão influenciados por aquilo que resultar na Arábia Saudita e Bahrein. O Sudão já tem o seu problema setentrional equacionado e dependerá muito daquilo em que resultar a revolução egípcia. Quanto a Djibuti e Ilhas Comores, certamente irão ser influenciados quando todos os países maiores assentarem no seu novo objetivo. Em setembro próximo a Palestina levará sua reivindicação de aceitação internacional de seu Estado à Assembléia Geral das Nações Unidas e as movimentações pacíficas dos palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e daqueles que estão refugiados em país vizinho, levarão Israel para o meio da refrega. Os movimentos dos palestinos estão sendo acompanhados e apoiados por contingentes do próprio Israel, favoráveis a uma solução para a Palestina. À medida que setembro for se aproximando os movimentos reivindicatórios palestinos vão crescendo e o apoio internacional recrudescendo.

  2. Giulia disse:

    gostaria de saber mais sobre o arquipelago de comoros, e quanto a sua posicao quanto a primavera arabe.

    Obrigada,
    Giulia

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