A esperança se alastrou

Entrevista concedida por José FARHAT ao jornal Brasil de Fato, em 2011-02-03 15:49

Opressão política e caos social explicam onda de protestos no mundo árabe

Eduardo Sales de Lima e Renato Godoy de Toledo

Da Redação

Os povos árabes perderam a paciência. Os protestos contra os respectivos governos extrapolaram a região do Magreb (norte da África) e ganharam proporção em boa parte do mundo árabe. Em vários países, multidões estão indo às ruas como resposta à opressão política, à falta de acesso à alimentação plena e ao desemprego cujos responsáveis, dizem, são os regimes autocráticos apoiados pelas potências ocidentais, sobretudo pelos estadunidenses. Abaixo, uma entrevista com o sociólogo José Farhat fala sobre o assunto. Confira na edição desta semana do Brasil de Fato a cobertura completa sobre os acontecimentos no Egito e na região do Magreb com análises de especialistas Arlene Clemesha, historiadora, Lejeune Mirham, sociólogo, e Mohamed Habib, egipício diretor do Instituto da aultura Árabe.

Brasil de Fato  – Qual o caráter das revoltas no mundo árabe?

José Farhat –  Os ativistas da atualidade, que chegaram a ser chamados de “bin-ladens” por seus adversários nos Estados Unidos e na Europa, não são islâmicos fundamentalistas usando a religião para adquirir poder. Os atuais “bin-ladens” os motores da revolta são os injustiçados, os khobzistas (pãozistas, aqueles que têm fome e a eles nem as brioches de Marie Antoinette se lhes ousa sugerir que peçam) os mahrumin (os miseráveis – Les Misèrables à la Victor Hugo), os eternos sem emprego, privados de moradia, vêem sumir a comida cada vez mais cara, vítimas da autocracia, os marginalizados de hoje na Argélia e Tunísia, amanhã no Egito, Palestina, Yémen e Jordânia, para começar.

A Religião nada tem com a revolta, o islamismo foi trazido à baila como argumentação inválida dos neocolonizadores, os mesmos que inventaram o choque das civilizações e o perigo islâmico contra o Ocidente.

Os potentados orientais que procuram amparo no Ocidente, para permanecerem no poder, só agravam a situação. O Petróleo, onde há, só contribui para concentrar o poder nas mãos de alguns que se cercam de aves de rapina, bajuladores do poder de plantão, inclusive e principalmente os militares.

Nas primeiras manifestações populares, fazem promessas que não cumprem. Daí em diante cresce o descontentamento e nos levantes subsequentes apelam às forças armadas e em curto prazo estas se transformam em carcereiros dos poderosos e fica cada vez mais difícil a luta dos khobzistas para derrubar estes apegados ao poder. A Tunísia iniciou uma nova fase e só se quer que seja duradoura, resolva o problema do povo e encoraje os mahrumin do Maghreb e se estenda ao Mashriq.

É possível comparar esse descontentamento dos povos desses países -Egito, Tunísia, Argélia – (ditaduras, desemprego, inflação) com outro momento histórico essas revoltas?

O problema é o mesmo em todos os rincões árabes, em todos os tempos, desde quando as potências estrangeiras, desde o Século XIX. O leitor poderá notar que todos os países onde as revoltas já começaram e aqueles onde ela acontecerá, são dominados por ditadores e seus asseclas. Todos têm regimes apoiados por um, outro ou todas as potências, ex ou atuais colonizadoras: Grã Bretanha, França, Espanha,  a  União Européia. Todos têm governos que desagradam seus povos por leniência com o inimigo que é o estado sionista que veio se instalar em terras árabes e faz os árabes pagarem pelos crimes do nazismo; uma injustiça que cala fundo é ninguém no Mashriq e no Maghrib pode esquecer.

Essa crise política pode alterar a correlação de forças na região ou mesmo no conflito entre Israel e Palestina?

É claro que sim. Os sionistas estão atônitos à espera de algum milagre que faça parar estes movimentos; e, como eles, seus mentores, principalmente os Estados Unidos. Lembremos que o grande trunfo que jogavam na cara de todo o mundo é que eram um país democrático cercado de regimes autoritários. O cinismo chega ao ponto de apontar alguns regimes ou partidos árabes como fundamentalistas islâmicos, além de autoritários, enquanto eles mesmos exigem dos palestinos que permanecem na Palestina ocupada que se declarem publicamente como leais ao estado judeu para terem direito a cidadania israelense, o que pode ser lido como direito à vida.

O que está em jogo na região é uma luta que até há pouco era estritamente silenciosa, à qual faltava um acontecimento, uma centelha. Esta centelha veio na forma da imolação de protesto de um pobre desconhecido vendedor de rua chamado Mohamed Bouazizi o qual, ao atear fogo em si mesmo, iniciou uma revolta em toda a Tunísia, que se estendeu para o Egito e dali seguirá o caminho do não retorno e se transformará na revolução de todo um povo árabe oprimido contra os seus algozes opressores e estúpidos, clientes do colonialismo selvagem impositor de seus interesses nas costas dos povos de todos os recantos. Esta chama já incendiou todos os países árabes e demonstrou que a vitória é possível. Logo mais os palestinos vão estourar mais uma Intifada, essa sem volta, e chegará a hora de os ocupantes de suas terras fazerem suas malas.

Qual o papel dos países colonizadores (França, Inglaterra), e em especial, qual a responsabilidade dos Estados Unidos, em relação à situação ter chegado onde chegou?

Os Estados Unidos apoiaram o regime de Ben Ali desde o seu nascedouro e até quando não havia mais esperança e o ditador tunisiano fugiu para a Arábia Saudita e salvou sua fortuna resultando da espoliação de seu povo. Só aí, cinicamente, os Estados Unidos, e nisto com maior desfaçatez ainda seguidos pelo estado sionista, pediram calma. A França não se fez esperar e recomendou moderação. Esta mesma França também se achou no direito e, sem ser chamada, deu conselhos ao Primeiro Ministro designado.

O papel mesmo que exercem é mais do que evidente, medido pela atuação de CIA e Mossad, preocupados tentando sabotar ontem o desdobramento da situação na Tunísia e hoje no Egito (a Casa Branca pede relatórios hora a hora). A responsabilidade dos Estados Unidos na situação pode ser medida e comparada com a atuação que tiveram para criar Saddam Hussein e Osama Bin Laden, encorajá-los, dar-lhes apoio, para depois abandoná-los. E assim seguem sem parar. A esta altura pergunta-se: onde está a democracia que deveria se irradiar pela região como resultado das guerras contra o Iraque? Este o papel que exercem os impérios colonialistas sobre os países árabes.

Por que as potências apoiam os governos desses países?

Há uma série de romances policiais franceses que repete a frase do policial quando começa a investigação: “Cherchez la femme” e, para sintetizar o relacionamento das potências que andam rondando o mundo hoje, é só pensar em: “Procurem o petróleo”. Todo o comportamento das referidas potências com relação aos países árabes tem o petróleo como móvel. À procura da exploração do petróleo ou o caminho para obtê-lo exige o conluio de governantes locais por eles colocados no poder, corruptos, lenientes e que relevam o interesse de seus povos às favas.

Quais as características desses governos?

Exemplificando com o Egito, pobre em petróleo. Este país é importante para as potências que o procuram porque têm em mãos uma das mais importantes passagens do ouro negro através do canal de Suez. É ele um país importante  para os interesses internacionais porque é capaz de influenciar os demais países árabes. Daí terem influenciado o Egito a assinar um acordo de paz com o estado sionista, o gendarme lá colocado desde o tempo do Império Britânico,  não somente para garantir o trânsito do petróleo, mas também para assegurar o caminho da Índia. Hoje o estado sionista é força avançada dos Estados Unidos na região. Os governos árabes se mantêm no poder pelo apoio das potências e governam seus países a ferro e fogo e enquanto  tiverem petróleo terão apoio externo.

Essas revoltas tem alguma relação com algum tipo de repressão aos movimentos radicais islâmicos?

Quando os governos ocidentais se referem a “movimentos radicais islâmicos” eles estão, na verdade, tentando camuflar a verdade. O Hizbullah, por exemplo, é um “movimento radical islâmico” ou é um movimento de libertação nacional? Criado originalmente como resistência à ocupação sionista do sul do Líbano, é um movimento político que tem como objetivo a libertação nacional do Líbano. Tanto isto é verdade que este Partido libanês é aquele que mais prega a eliminação do confessionalismo que é a praga da política de seu país. O maior aliado do Hizbullah é um partido formado em sua grande maioria por cristãos. Onde está então o islamismo e o radicalismo? O mesmo pode ser dito do movimento de libertação da Chechênia, também apelidado de radical islâmico cujo único objetivo, desde os tempos do Império Russo e passando pela União Soviética continuará a reivindicar a sua libertação do jugo russo. Taxar e qualificar de islâmico um movimento de libertação nacional atrai, como sempre pensaram os orientalistas e atualmente os políticos interessados, o apoio ocidental.

Qual a importância das redes sociais da internet quanto à organização dos protestos?

A importância das redes sociais é enorme e, no caso do Egito, provaram  servir de meio eficaz para a arregimentação do povo e levá-lo às ruas. Tanto é verdade que foi uma das primeiras reações do governo egípcio: cortar a internet. Outra prova disto é a CIA e o Mossad, quando tentaram recentemente levar o povo iraniano às ruas para derrubar ou ao menos perturbar o poder iraniano recorreram a toda forma de comunicação disponível. Hoje, quando algum político sai de uma entrevista com o Primeiro Ministro designado do Líbano, minutos depois, quem estiver no twitter saberá logo o que foi tratado e também tomará conhecimento das mentiras a respeito. Não é raro vir a notícia e a contra notícia, da imprensa e também dos cidadãos comuns, dentro do mesmo minuto. No Egito foi importante, dada a extensão das redes, na Tunísia também foi, mas também a notícia correu de boca em boca, auxiliando as redes sociais. No Líbano, os dois lados que procuravam o poder arregimentaram aliados e tentaram convencer os adversário através da Internet. Aquilo que se esperava no noticiário da noite já pode ser visto e lido praticamente quando acontecem.

(Original no link http://www.brasildefato.com.br )

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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