Somos “turcos” ou árabes ou libaneses?

Artigo publicado, em árabe, no jornal An-Nahar (de Beirute), em 03-10-2005.
Publico novamente, em 25-01-2011, pois a praga do confessionalismo ainda faz suas vítimas.

 por José Farhat*

Introdução

O assunto tratado neste artigo se refere à tentativa de correntes cristãs e sunitas libanesas, por volta de 2005, que pleiteavam adicionar cerca de doze deputados representantes da diáspora ao Parlamento libanês. A divisão seria feita proporcionalmente entre as confissões. O objetivo oculto era aumentar o número de maronitas e sunitas, segundo acreditavam os promotores, para apoiar as correntes “de direita” contra aqueles “de esquerda”. Como o artigo foi escrito em árabe e publicado em jornal de Beirute, os leitores de lá entenderam o que estava claramente escrito e o que havia nas entrelinhas.

Ocorre que dia 23/01/2011, segundo denúncia do WikiLeakes, publicada em artigo de Samy Adghirni, no site da Folha de São Paulo, deu para entender claramente que em 2008 foi novamente tentada a criação do apoio que fracassou em 2005. O título já diz algo “EUA tentaram aliciar libaneses no Brasil, revela WikiLeaks”, onde se lê todo o empenho de diplomatas estadunidenses atuando junto com funcionários daquele país, aqui no Brasil, principalmente em São Paulo, para convencer os libaneses das vantagens de apoiar o Movimento Futuro de Saad Hariri, por ser aliado dos Estados Unidos, contra a Síria e o Irã.

Dada a semelhança das duas tentativas, que têm o mesmo objetivo, fica muito claro que por trás delas estavam os Estados Unidos para favorecer os seus aliados libaneses.

 –o0o–

Tomei conhecimento, durante esta viagem que realizo ao Líbano, do artigo da lavra do Doutor Mustafá Al-Jouzo intitulado: Ocidentalização dos imigrantes libaneses entre a realidade, o romantismo e o confessionalismo, publicado em 19-07-05 pelo jornal An-Nahar, assunto em discussão atualmente no Líbano, e resolvi dizer o que pode ser útil a respeito.

Nasci no Brasil em 1927 de pai libanês e mãe portuguesa que imigrou com sua família para o Brasil em fins do Século XIX.   Já meu pai, emigrou para o Brasil no início do Século XX.   Em 1938, meu pai voltou ao Líbano trazendo minha mãe e três filhos, sendo que dois permaneceram no Brasil. Estudei no Líbano e, em 1948, passei a alternar minha presença entre o Líbano e o Brasil, estabelecendo-me definitivamente neste desde 1954 e, de tempo em tempo, visito o Líbano onde moram um irmão e uma irmã.

No Brasil tenho uma filha advogada e cinco netos que não conhecem a língua árabe e cujo conhecimento do Líbano se limita àquilo que lhes conto, ocorrendo o mesmo com os demais membros da família brasileira com relação à terra e à língua O que quero afirmar, em primeiro lugar, é que o conhecimento da língua árabe representa a ligação mais forte com a pátria de origem, que os brasileiros não distinguem muito entre os originários do Líbano, da Síria, da Palestina ou outro qualquer dentre os países árabes, pois todos nós éramos “turcos” no passado e somos todos hoje árabes e, se pai e mãe não forem ambos de origem libanesa, a ligação de seus filhos com a origem de seus pais passa a ser simplesmente uma lembrança a partir da terceira geração e caso somente um dos pais for de origem libanesa este fato ocorre a partir da segunda geração.

Daí a necessidade de se cuidar do ensino do árabe na diáspora.   Porém o que venho notando, viagem após viagem ao Líbano, é que a língua árabe vem decaindo dia após dia com favorecimento de línguas estrangeiras das quais duas começam a serem ensinadas desde os primeiros anos do primeiro grau.   Mais que isto, os anúncios que se publicam através da mídia são formulados em inglês ou francês, limitando-se a publicidade em língua árabe àquela dirigida aos tapados.   Como então querem os residentes difundir o árabe entre os emigrantes se esta é a situação da língua no país de origem?

Outro ponto digno de uma parada para meditação é o caso do exagero quando se fala do número de emigrantes libaneses no mundo.   Corre aqui no Líbano que o número de descendentes de libaneses no Brasil atinge seis milhões de pessoas!   Se este “censo” estivesse correto, o número de descendentes de italianos, por exemplo, deveriam ser contados às centenas de milhões.

Depois, vêm as questões da fixação dos libaneses no exterior e a do exercício de direitos políticos pelos seus descendentes.   Há quem sugira a adição de 12 novos deputados ao atual número de deputados na Câmara dos Deputados do Líbano, a serem eleitos à base de meação religiosa entre os libaneses residentes na diáspora.   Este fato é cercado de inúmeros perigos.   Há, por exemplo, países que não permitem a seus nacionais que possuam dupla cidadania, podendo constituir a candidatura e a eleição motivo para perda de nacionalidade.   Já no Brasil, onde a dupla nacionalidade é permitida a seus cidadãos, há casos de membros da Câmara dos Deputados do Líbano, eleitos no Líbano, que são portadores de nacionalidade brasileira (a exemplo de: Carlos Eddé e Faissal Sayegh), mas a situação não será a mesma se cidadão libanês for eleito no Brasil para preencher uma cadeira no parlamento libanês já que a lei brasileira limita aos brasileiros até mesmo o recebimento de condecorações de país estrangeiro sem prévia anuência das autoridades.

Esta sugestão pode causar outro dano representado pelo mal que pode criar no relacionamento entre os descendentes e os outros brasileiros, pois estes poderão olhar aqueles como pessoas de fidelidade política conflitante, exceção feita à cultura e à civilização.   O episódio da criação da Universidade Cultural Libanesa Mundial é ilustrativo.   Os residentes haviam sugerido Universidade Libanesa Mundial, mas os emigrantes recusaram este nome para não prejudicar o relacionamento com os cidadãos dos países hospedeiros.

Já do ponto de vista operacional, são incontáveis as dificuldades.   Tomando-se o Brasil como exemplo, há uma Embaixada libanesa na capital Brasília e dois Consulados Gerais, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro.   O Brasil tem dimensões de um continente, sendo às vezes mais fácil viajar do Brasil para o Líbano do que de certos pontos do Brasil às cidades onde se encontram as missões diplomáticas ou consulares libanesas, para votar: de Rio Branco, no Estado do Acre, onde nasci são 3.105 km até Brasília, 4.120 km até São Paulo e 4.265 km até o Rio de Janeiro, inúmeras horas de avião, isto sem falar nas pequenas cidades e localidades espalhadas pela bacia amazônica e outras regiões de difícil acesso.

Cabe mais uma colocação.   A maioria dos países que permitem a seus cidadãos na diáspora que votem em suas representações diplomáticas o faz para eleições presidenciais e, no Líbano, não há eleição direta para a presidência da república.   Ademais, não havendo no Líbano eleição direta para zonas específicas a serem preenchidas individualmente, é difícil saber como a representação do Líbano organizará as eleições para listas e colégios eleitorais.

O mal maior desta eleição é a sugestão de que tais deputados sejam divididos de acordo com suas religiões.   Há de se pedir que pelo amor de Deus não seja trazida para o Brasil esta odiosa discriminação e seria melhor para vocês se importassem de nós o nacionalismo que nos une e que considerem que qualquer pregação de segregação religiosa ou racial ou sexual é crime combatido com firmeza pelas autoridades brasileiras e renegado pela sociedade brasileira.

A saga da qual falam e vivem com ela lamentavelmente alguns residentes é uma fábula para a qual deve ser posto um limite, para que possamos pensar em passos realistas e proveitosos capazes de estreitar o relacionamento entre o Líbano residente e o Líbano emigrante espalhado hoje nas Américas, Europa, África, Austrália, até mesmo Japão e China, sem esquecer-se dos países árabes da península e do golfo.   A palavra mughtaribun, como se costuma chamar aqueles que emigraram para o ocidente talvez não corresponda mais à realidade, pois é possível que os mustashriqun, aqueles que emigraram para o oriente, sejam hoje mais numerosos.   O problema não se limita às relações entre residentes e emigrantes, pois também se devem levar em consideração as relações com os povos hospedeiros para que não surjam sentimentos racistas contra os libaneses se estes se mostrarem discriminadores.

O que se pede são providências práticas em cooperação com os demais países árabes que também têm colônias nos países de emigração, pois a missão é muito grande para que o Líbano sozinho possa realizá-la.   Já aquelas politicagens que tentam dividir o libanês de seu irmão são não somente perniciosas como também contraditórias com a qualificação que costumamos dar para o Líbano: “A porta do Oriente” e “A porta dos Países Árabes”.   É por isto que não entendemos porque a Câmara de Comércio Brasil-Líbano se recusa a aderir à Câmara de Comércio Árabe Brasileira como se os mercados libaneses fossem auto-suficientes para nos privar do papel que podemos representar como vanguardeiros das relações econômicas e comerciais entre o Brasil e os países árabes por motivos que envergonham quem ousa mencioná-los.

No início do século passado, era grande o número de jornais árabes no Brasil e hoje só existe um e inúmeras sociedades beneficentes árabes já não existem mais.   O Hospital Sírio-Libanês, orgulho de nossos emigrantes, famoso no Brasil e no mundo inteiro, não tem relacionamento estreito, se é que têm, com os Ministérios da Saúde do Líbano ou da Síria.   Acresce que alguns emigrantes libaneses até mesmo tremem de medo ao ouvir esta última palavra.

Sempre que viajamos para o Líbano somos obrigados a seguir rotas aéreas caríssimas e ouvimos dizer que a Middle East Airlines abriria uma linha direta.   A linha mais curta é São Paulo – Beirute, com escala em Abidjan, na Costa do Marfim, onde a colônia também é grande, mas parece que os governantes aqui no Líbano não se interessam por isto.   A Middle East Airlines e a Air France preferem nos obrigar a passar pelo aeroporto de Paris para chegarmos a Beirute, nos fazendo pagar mais caro e sofrer maior número de horas de vôo e assim no caminho de volta.

Porém o que mais nos prejudica é o fato de o Brasil estar hoje presente na mente dos libaneses como o paraíso para os perseguidos pela justiça libanesa, cabendo perguntar: porque as autoridades libanesas negligenciam a assinatura do tratado judicial entre o Brasil e o Líbano, engavetado no Líbano há muitos anos, enquanto que as autoridades brasileiras já tomaram as medidas necessárias para sua assinatura?   E outra pergunta mais: porque as autoridades libanesas ofendem ao governo brasileiro e ao povo brasileiro permitindo esta exportação de perseguidos pela justiça de nossa primeira pátria para nossa segunda pátria, seria esta a tal “vivacidade” que costumamos cantar em prosa e verso?

Resta um ponto que na verdade é o ponto primeiro: qual o motivo da emigração desde meados do Século XIX até hoje e porque só procurar a cura dos resultados sem suas causas?   É chegado o momento de lançarmos para discussão as importantes questões políticas, econômicas, sociais e educacionais que causaram a emigração e deixarmos de lado a inverdade romântica de que a emigração foi motivada pelo esforço individual do libanês empreendedor que conquistou os mares desde os tempos dos fenícios.   Estes construíram suas cidades comerciais em todos os cantos do Mar Mediterrâneo não devido a seu espírito aventureiro e sim, tal qual grego e egípcio e todos os moradores de litorais e pelo mesmo motivo. 

*José Farhat é Cientista Político.

Anúncios

Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
Esse post foi publicado em Assuntos libaneses. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s