Sete aldeias e um Farhat

por José FARHAT*

Em julho de 1990 estava em Bagdá a negócios e lá encontrei um primo de meu avô que visitava seu filho. Na secura da capital iraquiana, 53°C de temperatura à sombra, joguei com Adnan Amin Farhat uma partida de gamão e, sorte das sortes, ganhei daquele que era considerado em sua aldeia natal, no Líbano, o maior jogador de tawlah. Inconformado, convidou-me a jogar novamente e recusei, pois jamais iria repetir a façanha.

Em vez disto, pedi-lhe que contasse a história da família Farhat que eu ouvira dele, quando ainda menino imberbe, e ele contou: “A tribo dos Beni Hamdan (os Hadmaniyin), cuja figura maior foi Shwaib ibn Yashkur, era composta por 13 ramos e viviam na região de Alepo, no norte da Síria. Salahuddin Al-Ayoubi (Saladino) nos detestava mais que aos Cruzados por sermos xiitas e nos expulsou da região. Parte dos Hamdani vieram parar em Kesrouan, no Líbano, na aldeia de Farhat. Quando o Emir Bechir se converteu ao cristianismo (de muçulmano sunita para cristão maronita) os Farhat se mudaram para o sul de Beirute, Bekaa, Mrouj, Arab Salim, Taïba e Tarbikha na fronteira da Palestina. Aqueles deles que permaneceram em Kesrouan se converteram também ao cristianismo. O avô do jurista Joseph Farhat (maronita) chama-se Ali (xiita).”

Voltei para o Brasil e Adnan para o Líbano e nunca mais nos vimos; faleceu logo depois.

Recuando no tempo, por volta de 7 de setembro de 1211, enquanto combatia Ricardo I, Coração de Leão, na Batalha de Arsuf, Saladino conseguiu apenas retardar a marcha do rei cruzado sobre Jerusalém. Se tivesse se dedicado somente aos cruzados, talvez Jerusalém tivesse sido salva, e os xiitas também, da perseguição e do exílio.

Tarbikha, mencionada por Adnan, continuou inscrita na anotação que fiz após seu relato. Encontraria referência a Tarbikha e suas seis aldeias irmãs dois decênios depois, ao ler no The Daily Star artigo do correspondente do The Christian Science Monitor em Beirute, Nicholas Blanford, na edição de 25/08/2009, intitulado “The Seven Villages, another Lebanese-Israeli complication”. No texto ele alerta para o fato de a devolução das Fazendas de Shabaa à soberania libanesa ter se tornado assunto bastante difundido, o mesmo não acontecendo com este não tão conhecido problema de fronteira entre o Líbano e o estado sionista. O artigo incitou-me à pesquisa.

Todas as seis aldeias eram originalmente habitadas por xiitas pertencentes àquilo que a França chamou de Grande Líbano, em 1920, quando assumiu o mandato da Liga das Nações. Mandando e desmandando na terra alheia, em 1924, a França transferiu as aldeias para a Palestina, ou seja, para a Grã-Bretanha. Lembremo-nos que esta não foi a única doação de terras para terceiros: a província de Alexandreta, no norte da Síria, ocupada pela França desde 1916, foi doada por esta à Turquia em 1939.

As potências mandatárias da Liga das Nações sobre o Levante, França e Grã-Bretanha, demoraram anos até chegarem a um acordo a respeito da fixação da fronteira entre o Líbano e a Palestina. A divisão estava a cargo de uma administração militar conjunta com jurisdição sobre a Síria e a Palestina.

O traçado arbitrário da fronteira, aproximadamente uma linha reta desde o mar Mediterrâneo em Ras Al-Nakoura seguindo até o hoje seco Lago de Hula, foi concluído entre março e julho de 1921. Participaram a França e a Grã-Bretanha e nenhum dos habitantes dos territórios divididos interessados. Há suspeitas de que houve consulta por parte do Foreign Office, em Londres, à Federação Sionista, aquela que fora beneficiária da Declaração Balfour. Um relatório e um mapa rabiscado seguiram para as autoridades das duas potências mandatárias e dois anos depois assinaram um acordo.

A França autorizaria eleições para um Conselho Consultivo, embrião do Parlamento libanês. Um até hoje questionável recenseamento, sem qualquer base científica, foi efetuado na área ainda militarmente administrada pela França e que abrigava a Alta Galileia e suas aldeias e fazendas, incluindo aquelas de Metula e cercanias, habitadas por judeus. Àqueles que participaram do recenseamento foi-lhes entregue uma carteira de identidade libanesa e se lhes permitiu que participassem das eleições de abril de 1922.

O mandato sobre o Levante, Síria e Palestina, foi concedido à França e à Grã Bretanha pelo tratado assinado em San Remo, em 1920, mas somente em 1923 foi ratificado pela Liga das Nações, o que permitiu que as referidas potências estabelecessem as fronteiras como lhes convinha.

Em abril de 1924, França e Grã Bretanha cometeriam um de seus inúmeros golpes sujos contra as populações locais. Cerca de 24 aldeias originalmente ao norte da linha de demarcação, portanto sob domínio francês, foram formalmente transferidos para a jurisdição britânica na Palestina. Destas 12 eram habitadas por sunitas, duas por maronitas, uma por greco-católicos, duas por judeus, seis por xiitas e uma dividida entre xiitas e Greco – católicos. As seis aldeias xiitas eram: Tarbikha (dos Farhat), Saliha, Malkiya, Nabi Yusha, Kades e Hunin e aquela dividida entre xiitas e greco-católicos era a de Ibl Qamh. Como pode duas aldeias valeram mais que vinte e duas ou, no mínimo que sete, de onde veio o peso?

Durante a guerra de 1948, a maior parte dos residentes das Sete Aldeias teve o mesmo tratamento dado aos palestinos e foram banidos de suas terras e empurrados rumo ao Líbano, para se tornarem refugiados. O governo libanês deu aos habitantes das Sete Aldeias a cidadania libanesa por considerá-los libaneses antes de serem palestinos. Receberam a cidadania, mas como nas Fazendas de Chabaa, suas terras continuam sob ocupação sionista.

As linhas de demarcação da fronteira Líbano-Palestina foram traçadas por potências estrangeiras, eram puramente administrativas e não têm valor legal para representar uma fronteira internacionalmente reconhecida. As populações locais, vale repisar, nunca foram consultadas e, consequentemente, a decisão arbitrária foi um crime contra seus direitos de decidir sobre os seus destinos.

As Nações Unidas fazem “corpo mole” a respeito de Shabaa e das Sete Aldeias e os sucessivos governos libaneses cometeram erros graves a este respeito, principalmente ao reconhecerem as fronteiras quando da formalização das linhas de demarcação na assinatura do armistício em 1949. Isto não impede que as fronteiras sejam novamente negociadas, mas o estado hebreu dificilmente aceitará negociar sem pedir outras alterações de seu interesse e contrários aos do Líbano.

Os Farhat voltaram para o Líbano e lá participam da luta pela reconquista da terra perdida e, quando vencerem e reinar a paz, Adnan descansará finalmente, sem o jogo de volta do gamão.

José Farhat é cientista político e membro do Instituto da Cultura Árabe

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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