O Líbano e os malefícios de seu Tribunal Especial

por José FARHAT*

É fácil deduzir porque o Tribunal Especial para o Líbano ameaça e não acusa membros do Hizbullah pela morte de Rafic Hariri. Sabe-se que a investigação pelo TEL tem como base falsos testemunhos, mas também porque uma parte do governo libanês é prisioneira das conseqüências da acusação.

Não deixa de ser indicativa de uma das razões, a publicação recente pelo diário libanês Al-Akhbar e retransmitida pela Al-Jazeerah. Que traduzo a seguir: «O Líbano deu dicas a Israel com relação à luta contra o Hizbullah. O ministro da Defesa do Líbano ofereceu aconselhamento a Israel, em 2008, sobre como este poderia derrotar o Hizbullah, o grupo xiita baseado no sul do Líbano, de acordo com telegramas diplomáticos estadunidenses divulgados pela WikiLeaks. O memorando, publicado pelo Al-Akhbar, denunciou Elias Murr [então Ministro da Defesa] dizendo a altos funcionários estadunidenses que para as áreas sob controle do Hizbullah não iriam forças libanesas [do Exército] para proteção contra ataques. ‘Se Israel tiver que bombardear todos estes locais na área xiita por razões de preocupações operacionais, é problema do Hizbullah’, disse Murr.”

O Hizbullah também tem provas de que a eventual acusação pelo Tribunal é baseada em testemunho de, pelo menos um, daqueles que receberam propina para mentir quando instruídos a testemunhar. Isto não é novidade, pois o próprio Saad Hariri, Primeiro-Ministro do Líbano, filho de Rafic Hariri, havia declarado que a acusação feita pelo Tribunal contra a Síria tinha tido como base falsos testemunhos. Lembremo-nos que o TEL manteve cinco pessoas presas durante anos, sem sequer formalizar uma acusação, para finalmente libertá-los.

E aí fica aberta a questão: se cinco anos se passaram desde o atentado que resultou na morte de Hariri porque só agora a tentativa de pressionar o Hizbullah com a ameaça de acusar alguns de seus membros pelo atentado? Outro ponto importante é: se o TEL está agindo com lisura, se está sendo justo, porque se recusa a investigar também a CIA e o Mossad? A resposta corrente que se ouve em todo local onde se joga gamão e se toma café turco em Beirute, Damasco e outras cidades, é: “Israel e Estados Unidos não tiveram sucesso na tentativa de derrotar o Hizbullah em 2006 e estão agora tentando fazê-lo através do Tribunal Especial para o Líbano.”

Saad Hariri jogava suas fichas na acusação pelo Tribunal de membros do Hizbullah, para depois repetir o que fez com relação à Síria e “perdoar os indiciados”, tentando com isto, e com o sangue de seu próprio pai, ganhar um prestígio junto à opinião pública libanesa, árabe e internacional, recusou-se durante meses a reunir o Gabinete para discussão do único assunto da agenda: a lisura das investigações do Tribunal.

Síria e Arábia Saudita procuravam dar uma solução salomônica e justa ao assunto esvaziando e até mesmo desabilitando o Tribunal por motivo de sua ineficiente e tendenciosa atuação, servindo a interesses que não eram absolutamente Líbano. Mas os dois países árabes acabaram declararam seu desengajamento por não terem conseguido resultado satisfatório.

Como o Tribunal não indiciava e o governo acabou temendo que o Hizbullah, e também a própria WikiLeaks, acabaria divulgando informações comprometedoras contra o próprio TEL, Estados Unidos, Israel e membros do Governo, Saad Hariri foi chorar suas mágoas e pedir socorro a Ban Ki-moon, Barack Obama e Hillary Clinton e Nicolas Sarkozy, viagem interrompida por chamado do Presidente Michel Sleiman, pois o Hizbullah, e com ele toda a Resistência, tomou as rédeas da situação e derrubou o governo, de forma legal. Legal sim porque nenhum libanês é obrigado a ficar num governo traidor do Líbano e também porque um governo sem representação xiita é ilegal.

Como disse o caboclo enrolando o seu cigarrinho de palha: “Tá na hora de mostrá se o cabra é macho ou fêmea”.

Michel Sleiman, Presidente do Líbano (e Comandante de seu Exército que hoje atua ao lado da Resistência-para evitar episódios como o de Elias Murr) deu um prazo para Saad Hariri pôr um fim ao problema do Tribunal Especial para o Líbano e formar um novo governo de união nacional.

Se Hariri não conseguir Sleiman chamará qualquer outro sunita, talvez da região de Trípoli, afinado com a atual oposição, para formar um novo governo ciente que lá está para servir o Líbano e não os interesses além fronteiras.

* José FARHAT é cientista político e membro do ICArabe.

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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