A tríplice fronteira e a hegemonia norte-americana

por José Farhat*

O Conselho de Relações Islâmicas-Estadunidenses (CAIR), com sede em Washington, emitiu comunicado, no início de 2003, protestando contra a intimação, por parte do Federal Bureau of Investigations (FBI), para o comparecimento em seus escritórios regionais dos religiosos responsáveis pelas mesquitas norte-americanas, munidos de listas com os nomes e endereços de todos os fiéis dos templos sob sua responsabilidade. Não se tem notícia de que religiosos responsáveis pelas Igrejas Cristãs ou as Sinagogas Judias ou qualquer outro responsável por outros templos de outras religiões tenham sido submetidos a este tipo de vexame.

Esta era mais uma demonstração de como a chamada “guerra contra o terrorismo” virou terrorismo contra as liberdades individuais e os direitos humanos. Esta fúria contra os muçulmanos veio a nos atingir de perto, pois motiva o empenho do governo estadunidense em forçar os governos brasileiro, argentino e paraguaio para uma ação conjunta contra os muitos muçulmanos da tríplice fronteira, gente pacata que nada teve com o 11 de Setembro. São 8 mil ou até mesmo 15 mi, alguns deles resgatados do Líbano, onde veraneavam, pelo governo brasileiro, como resultado da agressão israelense.

A situação geográfica da tríplice fronteira permite a muçulmanos, cristãos e judeus, sem distinção, auferir lucros. Só que o governo obtuso dos Estados Unidos só vê os muçulmanos daqui, da vizinhança da Casa Branca e do mundo inteiro como se fossem seguidores de Osama Bin Laden e de Hassan Nasrallah.

Nota publicada pelo Ministério das Relações Exteriores anuncia que “deverá entrar em funcionamento, nas próximas semanas, nas dependências da Delegacia de Polícia Federal em Foz do Iguaçu, o Centro Regional de Inteligência (CRI), integrado por funcionários do Brasil, da Argentina e do Paraguai”.

O Brasil assumiu este compromisso no âmbito do “Grupo 3 + 1” integrado pelos três países da região: Argentina, Brasil e Paraguai e, também, pelos Estados Unidos. Este país já tem ali perto, em terra paraguaia, um pequeno grupo de suas forças armadas, um núcleo que pode crescer.

O prefeito de Foz do Iguaçu, Paulo Mac Donald Ghisi, citado pela Folha de São Paulo (16-08-06), diz que a preocupação do governo norte-americano com a região começou há cerca de dez anos, devido ao comércio em Ciudad del Leste, ligada à cidade paranaense pela Ponte da Amizade. Na época, segundo o prefeito, parte dos produtos comercializados ali era norte-americana, mas com a chegada dos sul-coreanos, taiwaneses e chineses, eles perderam terreno.

A simples perda de mercado não deve ser tudo, pois o governo norte-americano não iria colocar tropas e forçar a criação da CRI simplesmente porque deixaram de vender alguns vinténs que os orientais passaram a negociar.

Potência hegemônica, ela se preocupa muito mais com a proliferação de regimes que não lêem por sua cartilha, na região, e com a crescente influência de Hugo Chávez, o qual, pelos parâmetros deles, influencia a Bolívia e a Argentina.

Com a Argentina, os norte-americanos têm algo em comum neste assunto. Os Estados Unidos estão sendo assediados pelo lobby israelense para intervir, ou fazer com que alguém o faça, na região, pois acreditam que foram muçulmanos da Tríplice Fronteira os responsáveis pelos ataques a instituições judias na Argentina. Esses dois países e Israel chegaram a qualificar os perpetradores, até hoje não identificados, de pertencerem ao Hizbullah. A Argentina, também influenciada pelas organizações judias, está indo além e patrocina a assinatura, pelo Mercosul, de um tratado de livre comércio com Israel.

O Banco Mundial tem um programa de investigação da corrupção, cujo resultado habilita ou não os países investigados a obter ou não créditos junto a esta entidade internacional. O Brasil foi selecionado para que as investigações começassem agora mas o governo brasileiro conseguiu que o Banco Mundial adiasse o processo para depois das eleições. Esta é mais uma tentativa de intimidar o Brasil para que se afaste da Venezuela de Chávez, da Bolívia de Morales, da Argentina de Kirchner, da Cuba de Castro, os quais o inquilino da Casa Branca, a qualquer momento, os incluirá no rol de “países patifes” tais como o Irã e a Coréia do Norte.

A corrente junta suas argolas se lembrarmos que o manda-chuva do Banco Mundial é ninguém menos que Paul D. Wolfowitz, ex-vice Secretário da Defesa, mentor e idealizador de tudo aquilo que se tem feito na administração George W. Bush, a favor da hegemonia norte-americana, da guerra das civilizações e contra os muçulmanos, em geral, e os árabes, em particular.

A Tríplice Fronteira é parte de toda esta trama.

*José Farhat é cientista político.

P.S. Este artigo foi escrito em 2006, mas a situação continua a mesma, ao amanhecer do ano 2011: Estados Unidos e Israel continuam procurando implicar os árabes residentes na tríplice fronteira com hipotéticos “movimentos terroristas” e chegam até a acusar o Hizbullah de ser responsável por ataques a entidades judias ma Argentina; logo este partido libanês cujo braço armado jamais atuou fora do Líbano ou do território palestino ocupado.

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Sobre José FARHAT

Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio Exterior e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É ex-Presidente e atual Diretor de Relações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
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